Fibromialgia e Cannabis: o que a ciência já sabe?

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Ainda que os pacientes relatem melhora com os medicamentos convencionais (analgésicos, opioides e antidepressivos), é a maconha que tem apresentado os melhores resultados. Pesquisadores israelenses e holandeses foram atrás das respostas.

Há milênios – milênios mesmo – a Cannabis aparece na lista de remédios para aliviar dores. Se for colocar na conta, lá atrás, na Grécia antiga (70 d.C.), um médico escrevia uma longa lista de medicamentos e suas utilidades – a maconha aparece como indicação especificamente para dores de ouvido.

No início do Século XX, médicos europeus receitavam a erva para uma série de doenças, entre elas sanar a dor de pacientes com cálculos renais e cólicas menstruais.

E eles estavam certos em adotar a Cannabis em tratamentos paliativos para alívio das dores.

“A experiência de Cannabis para dor talvez seja a melhor experiência médica em termos de eficácia, pelos relatos dos pacientes. É disparada a indicação mais frequente, seja na oncologia ou na esclerose múltipla, para tratar a dor gerada pela doença”, explica o ortopedista Ricardo Ferreira, especialista em coluna e dor.

“Não faltam evidências de que a Cannabis ajuda pacientes com dor crônica (caracterizado por episódios de dor recorrente há pelo menos mais de seis meses)”, completa.

A ciência já comprovou em diversas oportunidades a efetividade da planta para uso analgésico, tão eficaz quanto opioides mais pesados, como a morfina e codeína, em pacientes com dor crônica. Com o benefício de ter efeitos colaterais mais leves – não há riscos de overdose ou problemas hepáticos (o excesso de medicamentos pode sobrecarregar a atividade do fígado).

Com fibromialgia não seria diferente

A doença, sem cura e ainda sem entendimento total das causas, aparece nos pacientes como uma constante dor nos ossos e músculos, espalhada por todo o corpo, acompanhada por insônia e fatiga. Boa parte deles acaba abandonando os empregos, por incapacidade física – e isso leva a outros problemas, como ansiedade e depressão.

Ainda que os pacientes relatem melhora com os medicamentos convencionais (analgésicos, opioides e antidepressivos), é a maconha que tem apresentado os melhores resultados.

Uma pesquisa israelense¹ realizou estudos clínicos para comprovar essa eficácia. E veja só a conclusão: “pacientes expressaram os efeitos do tratamento com suas próprias palavras e as respostas foram dramáticas. Muito raramente, como médicos, nós encontramos respostas como essas na medicina da vida real”, escrevem os pesquisadores e reumatologistas George Habib e Suheil Artul.

Mas, calma lá, antes de contar quais frases foram essas, vamos explicar como foi feita a pesquisa. Eles selecionaram 26 pacientes com idades entre 27 a 52 anos, diagnosticados com a doença. A maioria é composta por mulheres, já que a doença é preponderante no sexo feminino).

Pediram a todos para responderem um questionário para narrar os sintomas, desde o diagnóstico, medicamentos usados nos dois meses anteriores e o impacto da doença na vida profissional e pessoal. Com as orientações dadas por eles, os pacientes
começaram a usar Cannabis terapeuticamente – alguns por alguns meses, outros seguiram por mais de um ano.

Metade dessas pessoas (50%) teve um ganho de qualidade de vida e redução nas dores da fibromialgia tão grande, que elas abandonaram os medicamentos convencionais. Outros 46% reduziram pela metade a dose desses remédios químicos.

Frases como “voltei a ser a mesma pessoa de antes”, “queria ter recebido esse tratamento quando fui diagnosticado”, e “esse tratamento é milagrosos” impressionaram Habib e Artul.

Outro estudo israelense, com um número maior de pacientes (367 pessoas – a maioria composta por mulheres de meia-idade), chegou a resultados muito parecidos. Todos fizeram o tratamento com Cannabis por 6 meses – e testaram a eficácia do CBD e do THC (em 56,4% das cepas usadas nos medicamentos esse canabinoide era predominante).

A dor média dos pacientes reduziu em quase 50% após o início do uso de remédios à base de maconha. Só tem um possível buraco no estudo: nenhum grupo recebeu doses placebo. E isso é importante. Afinal, só assim a ciência consegue provar que os efeitos não são meros devaneios criados pela mente, sem eficácia farmacológica real.

Mas holandeses realizaram o teste com placebos. Eles juntaram 20 pacientes e pediram que inalassem um pouco de Cannabis. Divididos em grupos, cada um usou diferentes tipos de cepas: uma com concentração de THC superior a CBD, outra com percentuais dos dois canabinoides semelhantes, uma terceira com CBD acima de THC, e, por último, doses placebo.

Um tempo após a inalação, os pesquisadores pressionaram partes do corpo onde esses pacientes costumam sentir dor. A ideia era apertar até começar a doer – e checar a tolerância antes de chegar a esse ponto. Quem havia inalado uma quantidade maior de THC demorava mais para relatar dor. Na prática, essas pessoas sentiam menos dores do que os outros
grupos.

Embora algumas evidências apontem para a melhor eficácia do THC, cada paciente reage de uma forma. E não há como prever. “Na prática, isso é diferente. Há uma evidência robusta que três ativos da Cannabis (canabinoides, flavonoides e terpenos) podem ativar individual ou sinergicamente o controle da dor”, explica Ferreira.

“Não que, necessariamente, um seja mais potente do que o outro. A sinergia entre eles é mais importante do que a quantidade em si”, conclui.

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FONTES:
HABIB, George; ARTUL, Suheil. Medical Cannabis for the Treatment of Fibromyalgia.2018.
Journal of Clinical Rheumatology.
SAGY, Iftach el atl. Safety and Efficacy of Medical Cannabis in Fibromyalgia. 2019. Journal of
Clinical Medicine
VAN DE DONK, Tine et al. An experimental randomized study on the analgesic effects of
pharmaceutical-grade cannabis in chronic pain patients with fibromyalgia. 2019. International
Association for the Study of Pain

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