O que a ciência sabe sobre Cannabis no tratamento do Alzheimer?

Uma revisão publicada em 2019 na Revista Brasileira de Neurologia demonstrou que o THC e o CBD podem proporcionar efeito restaurador neurológico. Saiba mais sobre esse e outros estudos.

Com o progressivo aumento da expectativa de vida no Brasil, cresceu também a ocorrência de doenças típicas da velhice. A Doença de Alzheimer, responsável por cerca de 80% dos casos de demência, é uma delas.

Após os 65 anos, a probabilidade de ser diagnosticado com demência praticamente dobra a cada cinco anos. Ela é definida como uma doença neurodegenerativa com perda progressiva de memória e sintomas cognitivo-comportamentais. Na prática, a pessoa é acometida por perda de memória, agitação psicológica e motora, depressão, transtornos afetivos com isolamento social, falha no reconhecimento facial e até aumento de agressividade.

O quadro, em muitos casos, impossibilita que a pessoa siga sua vida normalmente, o que se transforma em um grande social problema para familiares e cuidadores e, na medida que a ocorrência cresce, um alto custo econômico para o Estado.

A ciência ainda tenta desvendar os caminhos que leva o cérebro ao Alzheimer. Pesquisas recentes, porém, demonstraram que, em pessoas doentes, uma proteína chamada beta-amilóide, responsável pela formação do citoesqueleto dos neurônios e presente em quantidades baixíssimas em cérebros saudáveis, adere à membrana das células do cérebro que contém colesterol, e formam espécies de placas neurais¹.

Essas placas então interagem com outras substâncias presentes no cérebro, desencadeando processos inflamatórios e de oxidação dos neurônios. E assim, sua morte. O tratamento convencional atua principalmente no alívio dos sintomas. Isso não impede a progressão da doença e oferece benefícios limitados na função cognitiva.

O Donepezil, vendido no Brasil como Eranz, é um dos mais comuns. Apesar de possuir função neuroprotetora, ele apresenta eficácia em apenas 20% dos pacientes. Porém, possui efeitos adversos, como náusea, diarreia, vômito, perda de peso, insônia e infecção no trato urinário².

Esse remédio geralmente vem acompanhado com um coquetel que incluem antipsicóticos, antidepressivos e anticonvulsivantes. Juntos, ampliam ainda mais as reações adversas. é neste vácuo de tratamento adequado que os componentes da Cannabis ganham espaço.

Canabidiol e THC

As propriedades do canabidiol tem amparado a ciência com resultados que demonstram o amplo espectro de ação da substância em diferentes sistemas, além de seu efeito protetor em doenças neurodegenerativas, tais como o Alzheimer e o Parkinson. Pesquisas indicaram sua eficácia como agente neuroprotetor, anti-inflamatório e antioxidante³.

Em laboratório, a substância também apresentou capacidade de neurogênese, ou seja, de formar novos neurônios no hipocampo (onde acredita-se que são armazenadas as memórias) do cérebro de ratos.

Em uma pesquisa realizada com humanos⁴, pesquisadores deram 1,5 gramas de THC, duas vezes ao dia, por quatro dias seguidos, para pacientes com Alzheimer. Um grupo de controle recebeu apenas placebo.

Quem recebeu tratamento com THC apresentou crescente melhora na mobilidade, além de não apresentar efeitos adversos. Uma revisão de estudos publicado em 2019 na Revista Brasileira de Neurologia⁵ também demonstrou que o uso de THC e CBD pode proporcionar aumento na diferenciação celular, na expressão de proteínas axonais e sinápticas, além de apresentar efeito neurorestaurador.

Em animais, houve relato de restituição de déficits social e do reconhecimento de objetos e modificação na composição das placas beta-amiloides. Já em humanos, observou melhora no bem-estar emocional, mobilidade, sintomas psicóticos e no sono, sem haver relato de mais efeitos adversos no uso dessas substâncias, comparado ao placebo.

Já outra revisão, feita por pesquisadores sul-coreanos, demonstra que a combinação entre
CBD e THC é mais eficaz do que a administração do CBD ou do THC sozinhos⁶.

Fontes:
¹ https://www.nature.com/articles/s41557-018-0031-x
² https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16081444
³ https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19370677
⁴ https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22163051
⁵ http://neuro.org.br/site/wp-content/uploads/2019/07/revista552-v2.2-1.pdf
⁶ https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6970569

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