Tudo o que médicos precisam saber sobre Cannabis medicinal

Apaixonado pela Cannabis, Hélio Mororó ministrou aula sobre a planta, incluindo a história medicinal, funcionamento do sistema endocanabinoide, e detalhes da farmacologia.

No Masterclass da última quarta-feira, 14, o médico pernambucano Hélio Mororó Vieira de Mello apresentou a Cannabis medicinal ao público de médicos. Em rápida introdução, falou da história da planta, com sua “descoberta”, hostilização e renascimento. Falou dos principais fitocanabinoides, da farmacologia, aplicações clínicas e da importância da abordagem integrativa na medicina.

Mororó é médico pós-graduado em cardiologia, geriatria, nutrologia, saúde pública e medicina do trabalho. É doutorando em Genética pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), professor de Medicina da Universidade Católica de Pernambuco e mestre em Perícias Forenses. Médico há 26 anos, há cinco é estudioso e prescritor de terapia canabinoide. 

Entusiasta da Cannabis, Mororó busca em sua prática “levar conhecimento de qualidade, com embasamento científico e honesto, sem viés político”. Por isso, ele inicia a abrangente aula com a máxima: “Quanto mais estudo, mais me convenço que não sei de nada e que preciso saber mais”. 

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História e contextualização

Logo no início, Mororó explicou que a Cannabis é a planta mais antiga de que se tem conhecimento. Os primeiros vestígios foram no Oriente Médio, de onde se espalhou pelo mundo, primeiro pelo leste da Europa e depois até a África, de onde partiu para as Américas.

Ele apresentou registros de pinturas rupestres de até 30 mil anos, indicando que a planta fazia parte de rituais e era usada como medicamento. Citou o exemplo importante da fitoterapia chinesa, o primeiro tratado de medicina feito pelo Imperador Shen Nung: para entrar neste tratado, uma planta precisava ser observada por pelo menos 400 anos, e a Cannabis já fazia parte dele.

Mororó lembrou que os ingleses tomaram conhecimento da Cannabis na Índia, e a rainha Victoria se beneficiou do tratamento para suas enxaquecas e cólicas menstruais. Lembrou ainda que a Cannabis já frequentou os livros de medicina ocidentais, em trabalhos científicos de mais de cem anos atrás, especialmente na América. No Primeiro Manual Merck de prática médica de 1899, aparecia a indicação de Cannabis para doenças neurológicas, digestivas e dor. 

Ruderalis e indica

Cannabis ruderalis e a indica são variações genéticas da Cannabis sativa, ambas muito importantes na história da humanidade. O cânhamo era usado para produzir cordas, roupas, as velas das naus eram de cânhamo. Mororó lembrou do primeiro livro de Johannes Gutenberg, o inventor da imprensa, impressa em papel de cânhamo.

E puxou uma fala de Sidarta Ribeiro: “a Cannabis é o cachorro das plantas”. Explicou que, assim como o cachorro veio da sucessão de cruzamentos a partir do lobo, a Cannabis é a planta com mais manuseio genético de que se tem notícia. Com finalidades específicas, todos os tipos de Cannabis nasceram do cruzamento genético espontâneo.

A grande “descoberta”

Apesar disso, a planta foi hostilizada, execrada e afastada do convívio dos meios médicos, só retornando na década de 60 com Raphael Mechoulan: “foi o renascimento do fitoterápico”.

Mororó falou da descoberta do sistema endocanabinoide, “o maior, mais importante, complexo e completo sistema de homeostase do corpo humano”. É algo ainda recente e pouco citado nos cursos de medicina, apesar do impacto no metabolismo, função imunológica, processos inflamatórios, percepção da dor, sistemas de recompensa, resposta ao estresse, ação motora, crescimento ósseo, alterações do humor, entre outras coisas. 

Mororó explicou as funções do sistema endocanabinoide. Ele facilita a comunicação intercelular entre diversos tipos de célula atuando como sua base, na forma de  impulsos elétricos ou reações bioquímicas. “Com a comunicação certa, o organismo entra em equilíbrio, que é a grande busca da medicina”. 

Apesar da extensa lista de aplicações, Mororó alertou que a Cannabis não é o remédio mágico que vai curar tudo. “É o sistema mágico de informação que, bem cuidado e alimentado, vai dar respostas maravilhosas, voltadas para o bem estar e saúde”.

THC, CBD e os outros fitocanabinoides

Mororó explicou que os fitocanabinoides atuam principalmente junto aos receptores CB1 e CB2, presentes no corpo todo. Acoplados à proteína G, são abundantes em regiões diferentes, mas estão sempre presentes nessa dupla.

CB1

Os receptores CB1 atuam mais no Sistema Nervoso. A esse respeito, Mororó trouxe um número impressionante: são dez vezes mais abundantes no cérebro do que os receptores opioides  (responsáveis pelo efeito da morfina). Além disso, o CB1 tem poucos receptores na função cardiorrespiratória do tronco cerebral, o que faz do tratamento da Cannabis muito seguro, sem riscos de depressão respiratória ao contrário dos receptores opioides. 

O receptor CB1 aparece tanto em neurônios inibitórios quanto em neurônios excitatórios. De acordo com Mororó, sabendo trabalhar com a substância, é possível tratar tanto paciente super excitado (hiperatividade, autismo, transtorno de déficit de atenção, epilepsia), quanto o inibido (depressão, astenia, fadiga).

CB2

Os receptores CB2 têm grande presença no sistema imunológico e gastrointestinal. E tem uma relação importante entre si: as imunoglobulinas IgAs são produzidas praticamente 100% no sistema digestivo. “Se eu tenho barreira gastrointestinal íntegra, eu tenho menos inflamação, menos estímulo constante e desencadeio menos patologias”. 

Aplicações

Sem esconder seu encantamento com a Cannabis, Mororó resume a atuação da planta da seguinte maneira: moduladora de inflamações, dor, resposta imunológica. A Cannabis é um medicamento com ampla gama de possibilidades na economia metabólica. Atua no sistema cardiovascular, respiratório, ósseo, reprodutivo, no fígado, nos rins, nos olhos.

As aplicações são vastas: doenças autoimunes, infecções (como o coronavírus), mediação de patologias alérgica (asma, dermatite atópica, psoríase). E não para por aí.

A Cannabis modula expressão gênica, ou seja, mexe no DNA. Na oncologia, atua na modulação da informação genética de células oncológicas, sendo ferramenta para usar menos quimioterapia e radioterapia. O resultado, segundo Mororó, é que ela modula os efeitos colaterais e cria ambiente favorável para a economia metabólica e um ambiente desfavorável para a multiplicação de células cancerígenas.  

Mororó seguiu o raciocínio dizendo que a base de todas as patologias é a inflamação, ou péssimo desempenho das mitocôndrias (mitocondriopatias). O CBD, THC e os demais fitocanabinoides agem na função e arquitetura das mitocôndrias. 

Tratamentos do sistema nervoso

Mororó explicou que a Cannabis age na comunicação. Diferente de outros neurotransmissores endocanabinoides não há uma reserva de estoque. Precisam ser produzidos sob demanda. O uso de fitocanabinoides estimula este tipo de produção. Assim, consegue-se modular a informação que vai de neurônio a neurônio. “E tem neurônio no corpo todo. O paciente é todo um sistema, em que está tudo interligado”. 

Como professor, Mororó não deixa os alunos esquecerem de que as terapias integrativas têm importante papel: a microbiótica intestinal precisa ser avaliada, às vezes é preciso alterar a dieta.  Doenças neurológicas pedem um paciente hidratado, pelo menos um litro e meio de água por dia. 

Tratamentos do sistema imunológico 

A Cannabis atua com modulação, não com inibição. Isso faz diferença. É necessário um grau de inflamação para movimentar as células de defesa, para vasodilatação e aporte de nutrientes. Mas quando a inflamação vira patologia, precisa de controle para redução da da dor. Mororó explicou que gosta da substância amiloide, responsável por destruir neurônios velhos. Quando produzida em excesso, ou “sai destruindo tudo”, é nociva. E a Cannabis modula essa resposta. 

Farmacologia do sistema endocanabinoide

Uma vantagem fundamental da Cannabis é seu nível de toxicidade baixíssimo. Segundo o Drug Enforcement Administration (DEA) americano, é mais segura que Aspirina. 

Mororó destacou esse fato durante a aula, para em seguida apresentar os tipos básicos de extratos, que compõem uma medicina especializada para cada indivíduo: 

  • Full spectrum – com todos os canabinoides da planta, apresenta o efeito entourage por ser mais completo, mas pode ser menos específico;
  • Extrato isolado – com apenas um canabinóide. Mororó ensina que, se for só com CBD, qualquer pessoa pode tomar, e atua como analgésico e anti-inflamatório. Ele lembra que o extrato isolado de CBD é liberado pelas Ligas Americanas de Basquete e de Futebol;
  • Extrato de espectro controlado – na proporção para determinadas patologias. 

Formas de administração

Respiratório

Embora seja um fato razoavelmente conhecido, Mororó fez questão de ressaltar que a Cannabis não é aspirada fumando, mas por meio de vaporização, uma espécie de nebulização. Essa forma é indicada para dor ou convulsão, em especial nas emergências, por seu efeito rápido.

  • Efeito imediato a 5 minutos;
  • Duração do efeito: de 45 min a 3h.

Oral 

  • Efeito de 1m a 15 min;
  • Duração do efeito: de 2 horas a 9 horas.

Do ponto de vista médico, Mororó classificou o modo oral como o mais fácil de administrar, porque permite ajustes na dosagem por de gotas. Ele apontou a possibilidade de, depois de ajustado o tratamento, usar em forma de cápsula por ter sabor mais neutro. Como a absorção se dá pelo trato gástrico, a biodisponibilidade é maior e com efeito mais duradouro. 

Supositório

Apesar do preconceito com esta forma de administração, Mororó argumentou que é uma excelente opção para pacientes com dificuldades de deglutição. Além disso,por ser uma área altamente vascularizada, permite absorção eficaz e rápida.

  • Efeito em 15 minutos;
  • Duração do efeito de até 12 horas.

Tópicos

  • Aplicações: pancadas, psoríase, dermatite atópica, câncer de pele;
  • Efeito imediato;
  • Duração do efeito: de 30 minutos a 3 horas;
  • Sem biodisponibilidade sistêmica.

Aplicabilidade da Cannabis

Mororó apresentou um quadro com o resumo dos tratamentos possíveis com Cannabis: 

  • efeitos colaterais de quimioterapia;
  • efeitos anti-oxidantes;
  • efeitos neuroprotetores;
  • efeitos anti-inflamatórios;
  • insônia;
  • ansiedade;
  • psicose;
  • epilepsia;
  • doença cardíaca;
  • diabetes

Toxicidade

Apesar da baixa toxicidade da Cannabis, Mororó explicou que costuma alertar seus alunos médicos sobre as interações medicamentosas. Com exemplos, ressaltou que essas interações precisam ser acompanhadas de perto. E podem resultar em desmame de medicamentos ou melhoria da performance.

É preciso também cuidado com a função homeostática da Cannabis. Ela costuma interagir com a forma de resposta do corpo aos medicamentos, especialmente os listados a seguir:

  • anticoagulantes /  antiagregantes plaquetários
  • barbitúricos e depressores do SNC
  • álcool, paracetamol, anestésicos, teofilina
  • lovastatina, claritromicina, ciclosporina, diltiazem, estrógenos, indinavir
  • cetoconazol, anti-H2, bloqueadores do canal de cálcio, digoxina, corticosteróides, fexofenadina, loperamida

Mensagem final

“No trilho, o trem tem horário certo de sair e de chegar, e você não pode se desviar daquela linha de pensamento”, explicou. Para o médico, a melhor maneira de pensar é como uma trilha: “Uma orientação com flexibilidade para alterar seu caminho. Ir mais rápido, mais devagar, ir para outro lado, fazer pausas”.

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