Cannabis e Religião: uma breve história

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A Cannabis ainda possui uma certa resistência até mesmo para seu uso medicinal. Pesa sobre ela uma relação complexa com algumas religiões, que condenam o uso da planta nos mais diferentes cenários. Com isso, muitos avanços em pesquisa não ocorrem, justamente, porque há uma pressão popular (o que reflete-se em questões governamentais) para inibir a regulamentação do uso para este fim.

Ainda temos no imaginário, inclusive, que as religiões sempre foram contrárias ao uso de Cannabis (no sentido medicinal mesmo). E isso não é verdade. Muitas delas, inclusive, trazem a planta como uma forma de cura para algumas patologias.

Nosso objetivo, neste artigo, é justamente desmistificar essa visão e mostrar como Cannabis e religião podem andar lado a lado para priorizar a saúde das pessoas. Continue lendo e conheça mais curiosidades sobre este tema tão importante hoje em dia.

Cannabis e religião nem sempre foram antagônicas

Quando pensamos na relação entre Cannabis e religião, a primeira coisa que vem ao imaginário das pessoas é a relação com o contato com a espiritualidade por meio das propriedades psicoativas da planta. Contudo, limitar essa relação a isso é uma falácia.

Muitas religiões possuem como base, justamente, uma visão de priorizar o contato com a natureza e, portanto, buscar formas de cuidar do corpo (e do espírito, também, por que não?) por meio de medicina natural. Isso não invalida a busca pela medicina alopática tradicional, mas ter o suporte de propriedades medicinais de determinadas plantas para curar determinadas patologias.

Significa ter uma cosmovisão integrada com o ambiente que estamos, ou seja, entneder que é possível utilizar a natureza ao nosso favor, com as propriedades (comprovadas, inclusive, cientificamente) de determinadas plantas para melhorias de determinadas patologias.

Ao longo da história vimos essa relação em diversas religiões em todo o mundo. E por isso separamos algumas das principais que unem a conexão entre Cannabis e religião.

A presença da Cannabis na China antiga e moderna

 

Quando falamos na China e plantas medicinais, é muito comum que as pessoas lembrem-se do ópio. Afinal, o país vivenciou a Guerra do Ópio com a Grã-Bretanha em meados do Século XVIII. Do ópio extraem-se as substâncias que são princípios ativos dos principais medicamentos que utilizamos hoje para tratamento de dores crônicas (como morfina, codeína e tramadol).

Contudo, mesmo no uso medicinal, são substâncias que ganham muita atenção, justamente, porque quando utilizada a longo prazo, pode gerar tolerância (sendo necessário utilizar doses maiores para obter o mesmo resultado) e, também, grande dependência, sendo preciso considerar o custo-benefício de seu uso.

Inclusive, os canabinoides possuem, também, propriedades importantes para o tratamento farmacológico da dor, com resultados excelentes. E parece que religiosos na China Antiga já sabiam disso.

Há aproximadamente 20 anos, agricultores chineses encontraram um cadáver mumificado. Pelas vestes características, bem como os pertences que carregava, parecia tratar-se de um xamã. Junto com ele, encontraram, também, Cannabis desidratada (que, segundo cientistas, estava ainda bem preservada).

Ao mesmo tempo, não foi encontrado nenhum tipo de instrumento que provasse o uso recreativo da Cannabis (como um cachimbo, por exemplo). Diante disso, alguns pesquisadores acreditam que o uso ali deveria ser para fins medicinais.

Como curiosidade, também, na região temos o taoísmo, uma religião antiga e cuja filosofia ainda está muito presente na China moderna. E muitos adeptos, ao longo da história, utilizavam a planta como uma forma de guiar sua jornada espiritual.

Cannabis e a relação com religião na Índia

Outra região que possui um laço muito forte entre Cannabis e religião é a Índia. O uso da planta está presente há muito tempo, desde 2000 a.C, representado nos textos sagrados dos hindus. Por exemplo, Os Vedas a menciona como uma das cinco plantas sagradas, falando que um anjo da guarda vivia em suas folhas.

Dentro da tradição hindu, temos três usos para Cannabis e que são adotadas até os dias atuais por parte dos hinduistas.

Na primeira, temos o uso conhecido como Bhang: há uma preparação com nozes, especiarias e açúcar, junto com Cannabis, e fervido com leite. Ele está ligado com uma lenda relacionada com deus Shiva. Segundo ela, ele estava caminhando sob um sol quente após uma disputa familiar e cansado do que havia ocorrido, deitou-se debaixo de uma árvore frondosa. Quando acordou, decidiu provar a planta e sentiu-se rejuvenescido, transformando-a em sua comida favorita.

No segundo uso, temos o uso conhecido como Ganga. Ele é produzido por meio das flores da Cannabis e das folhas superiores da planta feminina. O resultado é um pouco mais forte, que também tem as folhas defumadas no processo final.

Por fim, o terceiro preparo chama-se Charas, ou ainda, conhecido como “hash de dedo”. É feito com resina extraída de um botão de flor de Cannabis quase maduro, sendo enrolado na palma das mãos.

E, inclusive, dentro do hinduismo, temos a medicina Ayurveda, tradicional na Índia e que possui já 5 mil anos de existência. O Bhang é uma das bebidas utilizadas e não está relacionada apenas com a parte religiosa (ou seja, o contato com o espiritual).

A Cannabis é utilizada nesse contexto com objetivo de trazer benefícios para:

  • sistema circulatório;
  • sistema nervoso;
  • sistema digestivo;
  • sistema respiratorio;
  • sistema urinário;
  • sistema reprodutor;
  • melhorias na pele;
  • melhora da insônia;
  • afrodisíaca;
  • com propriedades analgésicas, entre outros pontos.

Dentro da Ayurveda, ela pode ser utilizada em óleos, extratos, cápsulas, comprimidos, cremes, loções, adesivos, vaporizada, spray nasal e oral, supositórios, entre outros. Ou seja, há diversas possibilidades de uso.

Cultura Rastafari e Cannabis

Coronavirus: Don't wait for vaccine, 'wee' cures every disease –  Rastafarians | Photos

Outra religião que possui uma forte ligação com a Cannabis e que é conhecida popularmente, inclusive (ainda que de forma estereotipada e, principalmente, preconceituosa) é a cultura Rastafari. Por isso, vamos explicar melhor sobre a cultura Rasta.

A religião baseia-se em falas do Antigo Testamento, crendo que a Cannabis está presente em diversas passagens bíblicas, entre elas: “coma todas as ervas da terra” e, consequentemente, a planta estaria presente nesse rol.

Dentro da cultura Rastafari, o uso da Cannabis e apenas dentro das cerimônias, para aproximar os participantes de Jah.

Uso da Cannabis no Tibet

O uso da Cannabis no Tibet já foi bastante popular. Segundo evidências científicas, no Tibet antigo, ela era usada com muitas inspirações na medicina Ayurvédica indiana, que, como falamos, utiliza Cannabis em seus princípios. Segundo documentos históricos, os tibetanos antigos utilizavam a planta para tratamentos de doenças de pele e sistema linfático.

Já dentro do budismo tibetano, culturalmente a Cannabis é utilizada, também, em rituais religiosos. Inclusive, caso não saiba, a maior parte dos budistas (incluindo o Dalai Lama, a maior autoridade para a religão) aceitam o uso da Cannabis medicinal para tratamentos específicos de ordem física.

Uso cerimonial da Cannabis

Como você pode perceber, as religiões utilizam a Cannabis de uma forma cerimonial, ou seja, dentro de ambientes para práticas específicas e não para uso recreativo. Além disso, todas elas possuem uma ligação muito forte entre ser humano e natureza, ou seja, que possamos explorar essa relação com o meio ambiente e encontrar em plantas medicinais tratamentos e curas para determinadas patologias.

Padre Ticão: defensor da legalização da Cannabis medicinal

Padre Ticão em uma das reuniões do curso de Cannabis medicinal | crédito: Gabi Dainezi

Bom, como você pôde ver, as religiões que listamos aqui não são cristãs. Mas isso não impede que líderes cristãos possam defender a legalização da Cannabis medicinal. Temos diversos exemplos em todo o mundo, mas não precisamos ir tão longe.

Aqui no Brasil tivemos um grande exemplo disso: o padre Ticão, que foi o líder da luta por essa legalização. Falecido em 01 de janeiro de 2021, era pároco da Paróquia de São Francisco de Assis, na Zona Leste de São Paulo.

Para além dessa causa, ele era muito conhecido por estar alinhadado com as causas populares e foi sacerdote da Igreja Católica por 42 anos. Entre suas principais causas estavam:

  • moradia;
  • educação popular;
  • saúde popular e alternativa;
  • legalaização da maconha medicinal.

Como ele acreditava que poderíamos encontrar benefícios para além da medicina tradicional, defendia que as pesquisas com Cannabis medicinal deveriam seguir, justamente, porque esse é um tema fortemente ligado com a saúde popular. Afinal, se podemos amenizar desconfortos e problemas de saúde de pacientes com menor custo total, é possível melhorar o acesso e garantir maior qualidade de vida para a população em geral.

Assim, era uma das principais lideranças de pesquisas sobre esse tema. Tanto que, para auxiliar a expandir o debate sobre o tema, ele desenvolveu um curso de naturopatia e outro para estudos sobre Cannabis Medicinal – e tudo isso com o apoio da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O interesse começou a partir da primeira palestra que escutou sobre o tema e, portanto, começou a defender mudanças nesse quesito, acreditando que o desenvolvimento das pesquisas sobre Cannabis Medicinal permitiria maior acesso e desenvolvimento a uma medicina realmente popular.

E atraía bastante interessados, sabia? A primeira edição do curso contou com 200 pessoas. Já na terceira e última, foram mais de 2 mil inscritos.

Mas você pode se perguntar agora: e como era a recepção do tema dentro da Igreja Católica? Vamos falar um pouco da entrevista que o Padre Ticão proporcionou para nós. “O preconceito é muito grande. Quando a gente começou o curso, no ano passado, teve um idiota do Paraná, que é desses grupos católicos criminosos, conservador, que usa símbolos católicos para enganar o povo, manter o povo na exploraço, ele vive gravando vídeos contra mim”.

O padre ainda auxiliava não só a educar sobre os benefícios da Cannabis Medicinal, mas também sobre como conseguirem a autorização para ter acesso aos medicamentos importados para doenças como epilepsia ou, então, entrar na Justiça para ter autorização para plantio próprio para fins medicinais.

Os benefícios da Cannabis Medicinal

Para além da parte religiosa, é importante entendermos como a Cannabis tem ganhado bastante popularidade, inclusive, pelo maior número de evidências científicas que comprovam seus benefícios das substâncias extraídas da planta para a saúde e, portanto, para o tratamento de diversas doenças.

Uma delas, por exemplo, é o reumatismo. Como falamos já neste artigo, a Cannabis possui uma ação eficiente nos tratamentos de dor e, portanto, é uma opção interessante para tratar quadros de dores crônicas para evitar o uso de medicaçoes opióides.

Outra patologia que possui diversos benefícios com o uso da Cannabis Medicinal é o câncer. Pesquisas evidenciam que o CBD (um dos componentes da planta) atua desativando o gene ID-1, que está ligado com o surgimento de tumores maligos, quando está ativado. Com isso, há uma possível evidência de que essa substância permitiria impedir que o tumor continue crescendo.

Também outra pesquisa, na mesma linha, permitiu concluir que os canabinoides interagem com os receptores CB1 e CB2, que possuem atividades antitumorais, ou seja, seria possível combater o câncer sem prejudicar tecidos adjacentes. Atualmente as principais terapias de combate ao câncer possuem, justamente, este tipo de limitação (como quimioterapia e radioterapia) e, portanto, causam incômodos severos e efeitos colaterais que prejudicam a qualidade de vida da pessoa.

Outras vantagens no uso da Cannabis Medicinal para complementar os tratamentos de diversos quadros são:

  • melhor qualidade do sono;
  • aumento de apetite em casos nos quais há uma redução da alimentação por dor, desconforto ou questões de saúde mental (depressão, distúrbios alimentares como anorexia e bulimia, tratamentos quimioterápicos, entre outros);
  • melhora do humor;
  • redução de chance de desenvolvimento de doenças de saúde mental (como ansiedade, depressão e melhora de quadros de transtorno bipolar do humor)

Diversas doenças beneficiam-se do uso de Cannabis medicinal. E isso já era, de alguma forma, sabido, por observação, por diversas culturas. Não é a toa que diversas religiões trouxeram o seu uso para dentro dos seus ritos. Claro que, para além das questões litúrgicas da religião, elas também incorporaram o uso por reconhercer os benefícios para saúde e bem-estar da planta.

Agora que você sabe a ligação entre Cannabis e religião e os benefícios de seu uso medicinal, é importante conhecer como é possível utilizá-las para o tratamento de patologias crônicas, trazendo melhor qualidade de vida para os pacientes. Para isso, é importante marcar uma avaliação com profissional de saúde que faz prescrição de medicações com este princípio ativo.

Para saber mais, entre em contato, agende sua avaliação e tire suas dúvidas com médicos de confiança que trabalham com essa questão.

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