Cannabis Medicinal: História, Importância e Desafios no Brasil

Conheça a história da Cannabis medicinal, quais as pesquisas que comprovam sua eficácia, como funciona a regulamentação e mais!
cannabis medicinal

Buscar informações sobre a Cannabis medicinal para entender o seu potencial no tratamento de doenças diversas significa bastante.

Indica que você é mais uma pessoa que não se conformou com o senso comum e decidiu investigar esse tema tão importante, que é debatido muito menos do que deveria no Brasil.

Estigmas, tabus e preconceito puro impedem a disseminação dos tratamentos com a Cannabis medicinal, que poderiam estar melhorando a qualidade de vida de tantos pacientes.

Só que isso tudo só tem uma origem: a falta de informação. E é por esse motivo que sua disposição de ler este conteúdo significa tanto.

Nos parágrafos seguintes, você vai conhecer a dimensão do potencial terapêutico da Cannabis e compreender por que é um tema digno de maior atenção.

Boa leitura!

Uma breve história sobre a Cannabis medicinal

A história da Cannabis medicinal é, na realidade, a história da Cannabis. 

Afinal, os mais antigos registros escritos sobre a planta já mencionavam sua utilidade terapêutica no tratamento de certos sintomas e condições.

Isso bem antes de a Medicina e a pesquisa científica se estabelecerem da forma que as conhecemos. O que não significa que a Cannabis medicinal não tenha nada de científica – o contrário que é verdadeiro, como abordaremos depois.

As plantas do gênero Cannabis (Cannabis sativa, Cannabis indica e Cannabis ruderalis) existem no planeta há milhares de anos.

São nativas da Ásia e sua origem se deu na região que compreende hoje a China, Mongólia e sudeste da Sibéria.

Acredita-se que elas sejam utilizadas pelo ser humano há mais de 10 mil anos, e há cerca de 6 mil anos começaram a ser cultivadas – isto é, ter suas sementes plantadas deliberadamente para gerar novos pés.

Na medicina tradicional chinesa, a Cannabis é usada há séculos. 

O livro Pen-T’sao, por exemplo, um compêndio da herbologia chinesa escrito por Li Shizhen no século 16, mencionava a utilidade da planta contra dores articulares, gota e malária.

Cannabis na medicina ocidental

Em meados do século 19, os estudos do médico irlandês William O’Shaughnessy, que investigou os remédios usados nas culturas orientais, contribuíram para divulgar o uso medicinal da Cannabis no ocidente.

A falta de métodos adequados de padronização das variedades e extratos, porém, impediu a planta de pegar o embalo do avanço da ciência farmacêutica e se difundir como um remédio consolidado na medicina contemporânea.

Soma-se a isso a discriminação contra os grupos étnicos que tinham o costume de consumir a maconha recreativa, como os imigrantes e descendentes de mexicanos nos Estados Unidos, além de, posteriormente, a política americana de guerra contra as drogas – e o assunto virou tabu.

Nos mesmos Estados Unidos, porém, a questão já avançou bastante, e o canabidiol, um componente da Cannabis, é muito utilizado em produtos diversos, de medicamentos a cosméticos.

Só se chegou a esse estágio graças ao químico bulgo-israelense Raphael Mechoulam.

Foi ele que, nos anos 1960, descobriu os canabinoides e endocanabinoides, o que abriu o caminho para a ciência estudar o sistema endocanabinoide e os reais benefícios da Cannabis medicinal.

Cannabis medicinal no Brasil: um panorama geral

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No Brasil, infelizmente, a questão ainda é muito polarizada, como se fosse simplesmente um conflito entre quem defende a legalização ou a proibição da maconha.

Só que, na realidade, a defesa da Cannabis medicinal visa preservar a saúde e o bem-estar dos pacientes.

Especialmente nos últimos anos, porém, alguns avanços importantes na legislação dão esperança de que esse cenário pode estar mudando.

Do ponto de vista prático, no entanto, muitos pacientes que buscam o tratamento com a Cannabis medicinal no país enfrentam dificuldades.

E isso se dá por conta da burocracia, por não encontrarem um médico prescritor ou devido ao custo alto do tratamento.

História

Se nos Estados Unidos a origem do preconceito contra a planta estava no consumo recreativo de maconha pelos mexicanos, no Brasil, ela era mal vista por ser usada por negros escravizados – não apenas de forma recreativa, mas também terapêutica.

Restringir o uso da planta era, portanto, mais uma forma de opressão e discriminação contra eles.

Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, foi instituída em 1830 a chamada Lei do Pito do Pango, que penalizava em três dias de cadeia os “escravos e mais pessoas” que fossem pegos fumando maconha.

Essa proibição não estava relacionada com a preocupação com a saúde das pessoas, como argumentam alguns defensores da proibição da Cannabis hoje. 

Na realidade, as autoridades enxergavam o costume como uma degeneração moral, o que explicitava o preconceito.

Em outros locais do Brasil, porém, era comum encontrar, até o começo do século 20, a Cannabis sendo vendida em farmácias, na forma de cigarros e xaropes, com indicação de uso contra dores, tosse, insônia, asma e outros sintomas e condições.

Foi algo que originou outro tipo de problema: a concorrência com diferentes tipos de remédios, mais bem aceitos em classes sociais mais elevadas, o que aumentou a pressão para a proibição da planta.

De lá para cá, a ciência evoluiu bastante no Brasil. 

O mundo se globalizou e tivemos acesso às pesquisas científicas sobre o sistema endocanabinoide e a Cannabis medicinal, além de termos começado a produzir nossos próprios estudos (veja mais a seguir).

Associações de Cannabis medicinal

Hoje, existem maneiras de os pacientes brasileiros serem tratados legalmente com Cannabis, como você entenderá melhor no tópico “Regulamentação”.

Mas a situação está longe de ser a ideal – na prática, o tratamento é difícil ou inacessível para muitos.

Por isso, existem várias associações Brasil afora que defendem o acesso dos pacientes ao tratamento e fomentam a pesquisa sobre o potencial terapêutico da planta. 

Conheça algumas delas nos links abaixo:

Pesquisas

Como dito antes, hoje, é comum encontrar trabalhos científicos sobre a Cannabis medicinal no Brasil.

Muitos deles são artigos de revisão de literatura científica, ou seja, compilados críticos e análise de pesquisas que já foram publicadas sobre determinados assuntos.

Um exemplo recente é o artigo Emerging evidence for the antidepressant effect of cannabidiol and the underlying molecular mechanisms.

Publicado em 2019 no Journal of Chemical Neuroanatomy por pesquisadores da USP, o trabalho revisou a literatura relacionada aos efeitos antidepressivos da Cannabis.

Mas há também ensaios clínicos, e não é de hoje. 

Nos anos 1970 e 1980, o Dr. Elisaldo Carlini, na Unifesp, investigou como o canabidiol (CBD), principal composto medicinal da Cannabis, ajuda no controle de crises epiléticas.

Seus estudos, inclusive, já foram citados pelo The New York Times como uma das origens da “febre” do CBD que é vista nos Estados Unidos hoje.

Mais recentemente, foi feita uma pesquisa com um grupo de pessoas diagnosticadas com Transtorno Ansioso Social Generalizado (TAS) e um grupo de controle.

O trabalho foi realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, em parceria com a Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, ambas da USP.

Metade do grupo com TAS recebeu uma dose de CBD, e a outra placebo. 

As pessoas que tomaram o canabidiol apresentaram um nível de ansiedade significativamente menor antes e durante um discurso de quatro minutos lido em frente a uma câmera de vídeo.

Portanto, além dos resultados das pesquisas serem boas notícias em si, apenas o fato de a ciência do país estar investigando o potencial terapêutico da Cannabis é algo a celebrar.

Regulamentação

O órgão que se ocupa de regulamentar as substâncias e medicamentos que podem ou não podem ser usados e comercializadas no Brasil é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.

Apenas em 2015 que ela passou a admitir o uso de produtos à base de canabidiol, “em associação com outros canabinoides”. Mas apenas via importação, com prescrição médica e autorização da Anvisa em cada caso.

As regras constam na Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) Nº 17/2015, e os detalhes vigentes atualmente sobre o procedimento para a importação desses produtos constam na RDC Nº 335/2020.

Já em dezembro de 2019, outra resolução da Anvisa trouxe aos pacientes brasileiros uma nova possibilidade: comprar os produtos em farmácias e drogarias do próprio país.

A RDC Nº 327/2019 “dispõe sobre os procedimentos para a concessão da Autorização Sanitária para a fabricação e a importação, bem como estabelece requisitos para a comercialização, prescrição, a dispensação, o monitoramento e a fiscalização de produtos de Cannabis para fins medicinais, e dá outras providências”.

Segundo a norma, os produtos devem conter predominantemente canabidiol, e não mais do que 0,2% de tetrahidrocanabinol, o canabinoide conhecido como THC.

Há uma exceção no caso de pacientes que não têm outra alternativa terapêutica ou estão em situações clínicas irreversíveis ou terminais – produtos com mais de 0,2% de THC podem ser destinados a esse tipo de paciente.

Apesar de a resolução ter sido publicada em dezembro de 2019, as regras só passaram a valer em março.

Com isso, já há produtos à base de Cannabis sendo vendidos nas farmácias brasileiras – o primeiro após a vigência das novas regras é o Mevatyl.

Por enquanto, o custo ainda é alto, mas a esperança é que, com o tempo e a possibilidade de fabricar os produtos internamente, o tratamento se torne mais acessível.

Qual a importância da Cannabis medicinal para a saúde?

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Como qualquer outro medicamento, a Cannabis tem grande importância quando ajuda a curar uma doença ou aliviar determinado sintoma. 

Afinal, é este o grande objetivo de qualquer remédio, não é?

Nesta gradual abertura que enxergamos na medicina brasileira em relação à Cannabis medicinal, a planta ainda é muito vista como uma alternativa.

A própria resolução da Anvisa diz que os “produtos de Cannabis podem ser prescritos quando estiverem esgotadas outras opções terapêuticas disponíveis no mercado brasileiro”.

E muitos pesquisadores e médicos são cautelosos a ponto de recomendar esse tipo de medicamento apenas quando o tratamento convencional não está dando resultado.

Hoje, portanto, a importância da Cannabis medicinal está relativizada, e é menor do que poderia ser.

É provável que, no futuro, com mais ensaios clínicos e menos preconceito, o canabidiol se torne cada vez mais protagonista, e não alternativa, em tratamentos diversos.

Não apenas pelos resultados terapêuticos que ele traz ao combater sintomas e doenças, mas também porque é muito difícil que o tratamento com produtos à base da planta cause efeitos colaterais severos.

Boa parte dos ansiolíticos (medicamentos receitados para tratar transtornos de ansiedade), por exemplo, são conhecidos por causarem reações adversas incômodas e, muitas vezes, dependência.

Estudos mostram que o canabidiol pode trazer resultados tão eficazes quanto os dos ansiolíticos tradicionais, mas sem o prejuízo da dependência e dos efeitos colaterais. E este é apenas um exemplo.

A importância da Cannabis medicinal, portanto, não se limita ao tratamento da causa da doença. 

A planta é uma opção terapêutica que dá maior qualidade de vida ao paciente.

Entenda o uso da Cannabis no tratamento de doenças

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As plantas do gênero Cannabis têm potencial terapêutico porque contém compostos químicos chamados canabinoides.

O mais conhecido dele é o THC, mas é o canabidiol, ou CBD, o responsável pelos principais efeitos terapêuticos da planta.

Os canabinoides interagem com receptores do nosso organismo, e por aí influenciam em mecanismos que regulam várias condições fisiológicas, que explicaremos melhor no tópico seguinte.

Desse modo, a Cannabis é capaz de tratar um grande número de doenças com suas propriedades anticonvulsivantes, anti-inflamatórias, ansiolíticas, antipsicóticas, neuroprotetoras e até antitumorais, além do efeito analgésico, pois o canabidiol ajuda a aliviar sintomas como dores e náuseas.

É importante deixar claro que o uso da Cannabis no tratamento de doenças nada tem a ver com o uso recreativo da maconha.

Como mencionamos antes, o principal composto terapêutico da planta é o canabidiol, e este canabinoide não causa efeitos psicoativos, ao contrário do THC. Em outras palavras, o CBD não “dá barato”, não deixa ninguém “doidão”.

Muitos produtos à base de Cannabis, porém, têm o THC em sua composição, como os óleos de CBD de espectro completo.

Só que esse canabinoide costuma estar presente em uma concentração baixa, que não é suficiente para causar o efeito psicoativo.

Resumindo, é preciso separar as coisas. Facilitar o acesso da Cannabis medicinal aos pacientes não representa risco algum de aumentar o consumo da maconha recreativa, pois os produtos terapêuticos não causam o mesmo efeito da droga.

Como a Cannabis age no corpo

A particularidade dos canabinoides presentes nas plantas da Cannabis é que eles interagem com os receptores canabinoides de nosso organismo.

Esses receptores são parte do chamado sistema endocanabinoide, um sistema neuromodulador que está presente em todo o corpo humano.

Ele desempenha papéis importantes no desenvolvimento do sistema nervoso central, na plasticidade sináptica e na resposta a insultos endógenos e ambientais.

Do pouco que foi descoberto sobre os detalhes do funcionamento do sistema endocanabinoide, sabe-se que ele tem parte na regulação de condições fisiológicas, como o sono, o apetite e a dor.

Em nosso organismo, temos os endocanabinoides, ou canabinoides endógenos, compostos semelhantes aos canabinoides encontrados na Cannabis (que são, na realidade, fitocanabinoides), mas que são produzidos internamente.

Desse modo, os canabinoides da planta, como o CBD e THC, têm uma relação mimética com estes componentes que são produzidos por nosso próprio organismo.

É por isso que, como afirmamos antes, os tratamentos com Cannabis medicinal não causam efeitos colaterais como outros fármacos. É uma relação muito mais natural entre as substâncias ingeridas e o funcionamento de nosso organismo.

E se falamos antes que ainda não se sabe tanto sobre o funcionamento do sistema endocanabinoide, não é uma contradição afirmarmos que os benefícios medicinais da Cannabis são comprovados pela ciência?

Não, pois uma coisa não anula a outra. Claro que investigar as minúcias desses mecanismos biológicos é importante para avançar no conhecimento e prescrever tratamentos cada vez mais eficazes.

Mas são os resultados da administração do CBD em ensaios clínicos – testes com voluntários humanos – e pesquisas em animais que demonstram que existem, sim, efeitos medicinais. E não são poucos, como veremos a seguir.

Quais são os efeitos da Cannabis

Se considerarmos todos os efeitos terapêuticos da Cannabis, veremos que a planta é uma das matérias-primas mais versáteis que podemos encontrar para a fabricação de medicamentos.

Afinal, seu principal composto medicinal, o canabidiol, possui as propriedades listadas abaixo.

Analgésico

Existem muitas pesquisas que atestam a eficácia do canabidiol como tratamento para combater a dor em pacientes com câncer, doenças reumáticas, fibromialgia ou outro tipo de doença que causa dores crônicas.

Ansiolítico

Os transtornos de ansiedade são um mal contemporâneo, com cada vez mais pacientes diagnosticados. 

Estudos mostram que produtos à base de canabidiol podem oferecer um tratamento eficaz, sem os mesmos efeitos colaterais de ansiolíticos tradicionais.

Anticonvulsivante

Entre as principais aplicações práticas da Cannabis medicinal hoje, no mundo todo, está o seu uso como medicamento preventivo de crises epiléticas e outros tipos de convulsões.

Antipsicótico

Se o hábito de fumar maconha recreativamente é um fator de risco para o desenvolvimento de doenças como esquizofrenia e ocorrência de ataques psicóticos, os produtos à base de canabidiol já demonstraram ser, em estudos científicos, um possível tratamento.

Anti-inflamatório

Testes com camundongos, realizados na USP, demonstraram que o canabidiol pode atuar como um potente anti-inflamatório em determinadas condições, como injúria pulmonar aguda e sua forma mais grave, a síndrome do desconforto respiratório agudo.

Neuroprotetor

Remédios à base de Cannabis também já demonstraram ser bastante eficazes na redução de sintomas em pacientes com doenças neurodegenerativas como Alzheimer, Parkinson e esclerose múltipla.

Antitumoral

Além de reduzir dores e náuseas, melhorando sensivelmente a qualidade de vida dos pacientes com câncer, estuda-se a capacidade antitumoral do canabidiol.

Ou seja, evidências preliminares sugerem que o composto pode reduzir o crescimento das células cancerosas, acelerar sua eliminação e até inibir a metástase.

Quais doença podem ser tratadas com Cannabis

A lista que vamos apresentar abaixo é baseada em fatos científicos. 

Para cada doença citada há estudos que comprovam ou sugerem os efeitos terapêuticos da Cannabis em relação a ela. 

Confira:

Alguns podem ver essa lista e achar que é bom demais para ser verdade. 

Se esse é o seu caso, recomendamos que você baixe nosso e-book sobre o canabidiol e confira mais detalhes sobre o uso da Cannabis como tratamento a essas doenças.

No e-book, apresentamos links para os estudos científicos que demonstram o potencial terapêutico da planta em cada um desses casos.

Assim, você pode comprovar por conta própria que defender que a Cannabis seja mais difundida na medicina é tudo, menos uma crença sem fundamento.

Quais são as diferentes possibilidades de tratamento com Cannabis

A Cannabis é a planta e o canabidiol seu principal composto medicinal. Mas como, afinal de contas, ele é ingerido pelo paciente?

O formato mais comum dos produtos com CBD é o óleo, mas atualmente existem diversos tipos de produtos, nas mais variadas apresentações.

É importante lembrar que a Anvisa limita os produtos comercializados em farmácias e drogarias do país àqueles para utilização oral ou nasal.

Quem pretende importar, porém, vai encontrar em países como os Estados Unidos um vasto leque de opções.

Óleos e tinturas

Os óleos feitos com canabidiol são receitados para administração sublingual: com a ajuda de um dosador ou conta-gotas, o paciente toma a quantidade de gotas receitada pelo médico.

Esse mesmo óleo serve como base para a fabricação de muitos dos demais produtos de Cannabis. 

Quanto à sua composição, os óleos podem ser classificados como:

  • Óleo de CBD isolado: produtos cujo único componente advindo da Cannabis é o canabidiol
  • Óleo de espectro completo: possui, em sua composição, os demais componentes da planta de Cannabis
  • Óleo de espectro amplo: possui canabidiol e outros compostos presentes na planta, exceto o THC, que é removido.

Cápsulas

São produzidas com o óleo e também podem ter CBD isolado ou espectro amplo ou completo.

A principal diferença em relação ao produto administrado em gotas é que cada cápsula já tem uma dosagem predeterminada do princípio ativo.

Comestíveis

Alguns pacientes se queixam que determinados óleos de CBD têm um gosto amargo. 

Pensando nisso, alguns fabricantes prepararam doces com o composto.

São balas, pirulitos, chocolates, brownies e outros tipos de produtos de gosto aprazível, que podem ser mastigados e consumidos como guloseimas normais.

Bebidas

Há também fabricantes que tentam popularizar o consumo de canabidiol líquido, produzindo energéticos, pós solúveis, chás e outros formatos de bebidas que contêm o canabinoide.

Produtos de uso tópico

São produtos que devem ser administrados diretamente sobre a pele (afinal, existem receptores endocanabinoides cutâneos): pomadas, cremes, adesivos transdérmicos e óleos de massagem.

A indicação pode ser para aliviar dores e desconfortos musculares, irritações e alergias ou até para fins estéticos.

Vaporizadores

Também pode ser inalado o vapor do CBD – o que, novamente, nada tem a ver com o consumo recreativo dos cigarros de maconha. 

O óleo é usado em uma caneta vaporizadora, que o esquenta até que ele vire vapor.

Supositórios

Com os supositórios – dispositivos inseridos no ânus do paciente –, o CBD é liberado de forma gradual, proporcionando um efeito mais duradouro. 

Esse formato pode ser mais eficiente para tratar sintomas e distúrbios do trato digestivo.

Cosméticos

Como afirmamos antes, entre os produtos de Cannabis de uso tópico, há também aqueles que não são medicinais, mas sim utilizados por questões estéticas.

Entre os produtos de beleza que têm a planta como matéria-prima, há xampus, sabonetes, cremes hidratantes, máscaras e vários outros.

Riscos e efeitos colaterais do uso da Cannabis medicinal

A baixa ocorrência de reações adversas em pacientes que usam a Cannabis medicinal é um dos principais motivos para combatermos o preconceito e torcermos para que os tratamentos com seus produtos sejam difundidos.

Esse benefício é admitido até pela Organização Mundial da Saúde, que no relatório Cannabidiol (CBD) – Critical Review Report, publicado em 2018, afirmou que o “CBD é geralmente bem tolerado e tem um bom perfil de segurança”.

A organização ainda esclareceu que as reações adversas, quando ocorrem, podem ser resultados de interações entre o canabidiol e medicamentos que os pacientes porventura estejam tomando.

Essa segurança se deve principalmente ao que chamamos de efeito entourage

É uma teoria segundo a qual os efeitos do CBD ou qualquer outro composto da Cannabis produzem mais benefícios quando atuam de maneira conjunta.

Trata-se de uma interação complexa, um tipo de sinergia botânica, em que mesmo que os demais componentes não trabalhem ativamente contra determinada doença, sua presença junto com o composto ativo ajuda a alcançar resultados melhores e a reduzir os riscos de reações adversas.

É por isso que, entre os três tipos de óleos de CBD sobre os quais falamos antes, os de espectro amplo ou completo são os mais recomendáveis.

Além do canabidiol, eles são ricos em outros canabinoides, além de flavonoides, terpenos e outros tipos de compostos.

Com todos eles juntos, o medicamento é menos processado e mais natural, diminuindo a probabilidade de o organismo reagir com algum efeito colateral.

O mesmo não se pode dizer da maconha recreativa, mesmo que o cigarro seja natural: a alta concentração de THC pode causar efeitos colaterais.

Com a Cannabis medicinal, se surgirem reações adversas sem interação medicamentosa, elas tendem a ser leves, incluindo:

  • Queda de pressão
  • Sonolência
  • Tontura
  • Secura na boca.

Existe alguma contraindicação do uso da maconha medicinal?

Geralmente, o uso da Cannabis medicinal é bastante seguro. Mas, como tudo que colocamos para dentro de nosso organismo, não custa ter um cuidado extra.

Há casos, por exemplo, de pessoas que são alérgicas à Cannabis, o que é absolutamente normal, pois todas as plantas do mundo têm a possibilidade de provocar reações alérgicas.

É um caso raro, porém, que não justifica maiores preocupações (as reações costumam ser leves), apenas atenção especial à resposta do corpo após o consumo do produto.

Fora isso, o principal cuidado deve ser com as interações medicamentosas, ou seja, quando um produto à base de Cannabis é consumido em meio a um tratamento com outro tipo de medicamento.

A interação pode ser do tipo metabólica (quando um medicamento afeta o metabolismo do outro), causar uma mudança na distribuição da droga (um medicamento muda o jeito como o outro é absorvido e distribuído pelo corpo) ou reações por caminhos convergentes (quando os dois medicamentos funcionam por vias biológicas similares, produzindo efeitos contrários).

Um guia publicado em 2017 pelo Departamento de Saúde do governo Australiano trouxe informações de estudos científicos sobre efeitos adversos observados em pacientes devido à interação entre medicamentos.

As reações observadas foram as seguintes:

  • Sonolência (20% dos pacientes)
  • Náusea (21%)
  • Tontura (16%)
  • Confusão (10%)
  • Vômito (11%)
  • Cansaço / fadiga (12%)
  • Anemia (11%)
  • Dor (10%)
  • Astenia (11%)
  • Diarreia (8%)
  • Dor de cabeça (8%)
  • Falta de ar (8%)
  • Alucinações (5%)
  • Sintomas de ansiedade (11 de 15 pacientes em um estudo pequeno)

É importante que, antes de iniciar um tratamento com Cannabis medicinal ou qualquer outro tipo de medicamento, o paciente converse com seu médico e informe quais remédios está tomando no momento ou costuma tomar eventualmente.

Por fim, outra recomendação importante é cuidar com a procedência do produto. 

Veja se o produto é testado e certificado e confira a lista de componentes. Quanto menos processado o medicamento for, melhor.

Dê preferência para os produtos feitos com matéria-prima orgânica, cultivada sem fertilizantes e pesticidas sintéticos.

Quais médicos podem prescrever tratamento com Cannabis?

cannabis medicinal quais medicos podem preescrever

Um dos marcos da luta em favor da Cannabis medicinal no Brasil foi a Resolução Nº 2.113, publicada em 2014 pelo Conselho Federal de Medicina.

Com ela, o órgão, após analisar profundamente a literatura científica sobre o uso do CBD com fins terapêuticos, autorizou o uso do composto para crianças e adolescentes com epilepsias, apenas em situações em que os métodos já conhecidos não apresentavam resultados satisfatórios.

Na época, então, a prescrição era restrita a médicos especialistas em neurologia e áreas de atuação subjacentes.

Hoje, com as resoluções da Anvisa, a lista de médicos prescritores de CBD é maior.

A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) Nº 327/2019 não restringe a prescrição do médico a determinadas doenças, apenas mantém a determinação sobre o uso compassivo, como mostra o seu artigo 48:

“Art. 48. Os produtos de Cannabis podem ser prescritos em condições clínicas de ausência de alternativas terapêuticas, em conformidade com os princípios da ética médica.”

Qualquer médico, portanto, pode prescrever a Cannabis medicinal a seus pacientes, caso ele julgue que esse tratamento possa trazer benefícios não encontrados nos medicamentos convencionais.

Isso não quer dizer que a prática seja comum entre os profissionais de medicina do país. 

Por desconhecimento, preconceito ou insegurança, a maioria acaba não considerando o CBD como uma alternativa terapêutica.

Por isso, são comuns os casos em que o paciente é que levanta a possibilidade de experimentar o tratamento.

Os desafios do uso da maconha medicinal no Brasil

O principal desafio, que impede que a Cannabis medicinal ajude a melhorar a qualidade de vida de mais pacientes, ainda é o preconceito. 

É um fator que atrasa os avanços em várias frentes. Mas não é o único. 

A pesquisa científica nas universidades – e aí não é uma particularidade dos estudos sobre Cannabis – sofrem com os constantes cortes nas verbas da ciência.

No caso da indústria farmacêutica, que poderia investir para aumentar a oferta de produtos no mercado, o interesse é limitado por conta do preconceito e das restrições impostas pela legislação.

Da parte dos médicos, como afirmamos antes, muitos não têm conhecimento sobre os efeitos terapêuticos do canabidiol, além de não terem experiência clínica para se sentirem seguros a recomendar as dosagens.

Assim, acabam preferindo os tratamentos mais conservadores, com os medicamentos cujos resultados, posologia e efeitos adversos lhes são mais familiares.

Por fim, temos os desafios relacionados aos pacientes. 

Muitos nunca ficam sabendo que existe a possibilidade de serem tratados com produtos à base de Cannabis.

Alguns ficam sabendo, mas resistem, ainda por conta da associação com o uso recreativo, mal visto como hábito social e considerado nocivo à saúde.

E os pacientes que decidem experimentar o tratamento com CBD ainda esbarram em um último desafio: o alto preço dos produtos disponíveis tanto no mercado interno quanto para importar.

Isso sem contar que encontrar um médico prescritor de canabidiol e obter a autorização da Anvisa para a importação pode ser difícil.

Cannabis medicinal: é o futuro do tratamento de doenças?

A tendência é que quanto mais sejam estudados os efeitos terapêuticos do canabidiol, maior será a abertura das autoridades, da comunidade médica e dos próprios pacientes à Cannabis medicinal.

Isso porque as evidências científicas são majoritariamente positivas e falam por si próprias.

Em entrevista recente ao portal Cannabis&Saúde, o médico Eduardo Faveret, precursor na prescrição da Cannabis no Brasil, afirmou que, no futuro, o “médico que não prescrever Cannabis ficará para trás”.

Nos Estados Unidos, país onde comumente são lançadas tendências de mercado que, cedo ou tarde, se espalham pelo mundo, o canabidiol é praticamente uma “febre”.

Lá, a maioria dos estados tem uma legislação flexível, que permite a comercialização de vários tipos de produtos que têm o CBD como componente principal.

A própria flexibilização e legalização do uso recreativo da maconha, observada nos últimos anos no estado da Califórnia, no Canadá e em cada vez mais países, deve ajudar.

Apesar de o consumo de cigarros de maconha não ter relação com a Cannabis medicinal, como ressaltamos antes, é fato que, se ele começa a ser melhor aceito na sociedade, há menos motivos para se ter preconceito contra o uso da planta na medicina.

Como ter acesso à Cannabis medicinal no Brasil?

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Desde março de 2020, quando as regras da RDC Nº 327/2019 da Anvisa passaram a valer, farmácias e drogarias brasileiras podem vender produtos à base de canabidiol aprovados pelo órgão.

Mas a oferta para compra direta em território nacional ainda é bastante limitada, então, a maioria dos pacientes tratados com CBD ainda precisa importar os produtos, segundo procedimentos regularizados em 2015 pela Anvisa.

O primeiro passo, claro, é encontrar um médico prescritor de Cannabis medicinal como medicamento. Nesta página, você pode agendar uma consulta.

Ou, então, converse com seu médico de confiança, exponha o conhecimento que você obteve pesquisando sobre o canabidiol e sua aplicação no caso em questão.

Um bom profissional terá, no mínimo, abertura para discutir essa possibilidade.

Com a receita em mãos, é preciso preencher um formulário a ser enviado para a Anvisa, solicitando a autorização para importar o produto. 

Veja, no site do órgão, o passo a passo para fazer este requerimento.

Atualmente, a Anvisa estima em 10 dias úteis o prazo de análise, dentro do qual retornará ao paciente com a autorização, a exigência de alguma informação adicional ou o indeferimento (recusa) do pedido.

Com a autorização em mãos, basta proceder com a compra, obedecendo aos critérios estabelecidos pelo órgão, e iniciar o tratamento receitado pelo médico.

Conclusão

Quando as autoridades, a comunidade médica e a sociedade em geral se informar melhor sobre o potencial terapêutico da Cannabis, não haverá mais polêmica nenhuma.

A planta tem sido utilizada há milhares de anos como remédio. Apenas nas últimas décadas é que seu uso foi proibido e criminalizado.

Claro, há muita gente mundo afora que consome a planta na forma de cigarro, por conta do efeito psicoativo causado pelo THC.

Mas a Cannabis é muito mais do que isso: é composta por centenas de outros canabinoides além do THC, entre eles o CBD, ou canabidiol, com conhecido efeito medicinal.

Ajude a difundir a informação sobre a Cannabis medicinal, capaz de curar doenças e eliminar sintomas sem os efeitos colaterais observados em outros medicamentos.

Continue acompanhando os artigos do portal Cannabis&Saúde para ficar por dentro das novidades relacionadas à Cannabis medicinal, tanto na legislação, quanto no mercado e na ciência.

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