“Cannabis é melhor opção para autismo”, garante especialista renomado

O psiquiatra Vinicius Barbosa considera a Cannabis como a melhor opção terapêutica. E lamenta não poder usar o medicamento em seu atendimento pelo SUS
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Se o paciente tivesse sempre razão, o psiquiatra paulista Vinicius Barbosa não teria dúvida sobre como atender os seus. Da sua lista de espera de 60 pacientes, 90% deles querem ser tratados com Cannabis. Barbosa concorda com a maioria deles. Um dos maiores especialistas em autismo infantil do Brasil, ele aposta na planta como o principal aliado para o tratamento, uma vez que considera o arsenal terapêutico tradicional disponível para a doença como restrito e ineficiente.

Em 2015, após se graduar em medicina pela PUC-SP e fazer residência em psiquiatria, Barbosa realizou um trabalho temporário em Ji-Paraná, segundo município mais populoso de Rondônia. Era um mutirão de atendimento a autistas. Uma de suas pacientes era uma menina de sete anos com quadro grave de autismo associado à epilepsia, que não tolerava medicação tradicional. Apresentava problemas cognitivos, motores – nem conseguia se sentar sem apoio. A colega pediatra integrativa Camila Milagres comentou sobre o uso medicinal da Cannabis. “Eu nem tinha ouvido falar”, confessa Barbosa. 

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Prazer, Cannabis

Barbosa conhecia os benefícios do uso recreativo na melhora de sintomas, mas nada sabia sobre o uso em quadros neurológicos. Buscou informação a respeito até se sentir seguro para prescrever para a menina. Com a família, não encontrou resistência. A situação era tão difícil que estavam dispostos a qualquer solução. 

A resposta da criança surpreendeu. Em todos os aspectos: motor, cognitivo, de interação, redução de crises convulsivas. “Foi um impacto grande na qualidade de vida dela e da família como um todo”. Tamanha mudança motivou a família a fundar uma associação canábica na cidade.

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A partir daí, Barbosa contou com o apoio de colegas que já estudavam e prescreviam. Como não tivera contato com a medicina canabinoide na faculdade, nem em cursos de especialização, a única saída foi recorrer aos próprios colegas de profissão. Em 2017, quando participou do CannMed, uma conferência de medicina canabinoide em Harvard, “o mundo se abriu”. Conheceu vários profissionais envolvidos em pesquisas de ponta, descobriu as possibilidades de tratamentos na infância e neurodesenvolvimento. 

Autismo e Cannabis

Até conhecer a Cannabis, Barbosa não tinha encontrado solução satisfatória. Na especialização em autismo em Paris, aprendera que, em 90% dos casos, a doença não conta com medicamentos que atuem nos sintomas centrais. Daí surgem os problemas típicos do espectro, como prejuízo na comunicação e interação social, surgimento de comportamentos repetitivos e estereotipados (agitação das mãos, hipersensibilidade auditiva, entre outros). Nenhum remédio ajudava muito no desenvolvimento da linguagem – pelo contrário, podiam até atrapalhar o neurodesenvolvimento.

Segundo o psiquiatra, a Cannabis não atua apenas nos sintomas comuns do autismo, como agressividade, distúrbios do sono, problemas psicomotores, como também melhora sintomas centrais. Estudos apontam melhora no desenvolvimento da comunicação com o uso da Cannabis. Não cura. Mas reduz os sintomas do quadro de autismo.

Equilíbrio neurológico

Para Barbosa, é cada vez mais claro que o processo neuroinflamatório vem de um desequilíbrio entre excitação e inibição cerebral. E a Cannabis age tanto na modulação do sistema nervoso quanto imunológico. Ele conta que, na prática clínica, há muitas crianças negligenciadas por serem não verbais. Muitas têm desregulação orgânica, transtornos gastro intestinais, cólicas abdominais, alergias alimentares, processos inflamatórios intestinais. Elas acabam traduzindo esse desconforto de forma disfuncional, com agressividade. 

Até hoje, o convencional era usar um medicamento anti-psicótico, mas a Cannabis se mostra eficaz na melhora das causas desses comportamentos agressivos. Ele alerta sobre a importância de se evitar a alergia com uma dieta anti-inflamatória. “O autismo não é uma única condição, são diversas doenças que desregulam o desenvolvimento”. 

Atendimento multidisciplinar 

Barbosa atende em duas frentes: em seu consultório particular e na Clínica-Escola para Autistas Espaço Avançar da prefeitura de Indaiatuba no interior de São Paulo, onde é diretor.

No particular, ele conta que 90% dos pacientes pedem o tratamento com Cannabis logo que chegam. Apesar da convicção, a primeira consulta costuma ser demorada: ele informa as famílias e explica a complexidade do autismo. Esclarece que o comportamento característico é a melhor e às vezes a única forma de a criança aliviar a sensação interna, por isso não deve ser impedido. É preciso uma alimentação saudável, de preferência orgânica, que ajuda muito.

Depois, analisa o perfil genético do paciente, pede exames laboratoriais e de marcadores inflamatórios. Sempre avalia também a parte intestinal e, se necessário, encaminha para nutricionista e gastroenterologista pediátrico. Barbosa reforça que, como qualquer medicamento, a Cannabis não tira a necessidade de acompanhamento multiprofissional especializado – psicólogo, terapeuta ocupacional com integração sensorial, fonoterapeuta, nutricionista, fisioterapeuta, musicoterapeuta, equoterapeuta, todo estímulo conta.

A Cannabis pode melhorar a curva de neurodesenvolvimento por meio da melhora das condições cerebrais, mas sem o bom estímulo terapêutico, os resultados não atingem seu potencial: “Muitas vezes se tenta tratar disfunções de comportamento num cérebro desregulado, inflamado ou medicado”. 

Primeiros passos no tratamento do autismo com Cannabis

Só depois da segunda consulta, com os exames em mãos, Barbosa prescreve ou não Cannabis. Se não houver doença em paralelo ao autismo, Barbosa faz o teste terapêutico com Cannabis medicinal. Ele leva em média três meses para avaliar a resposta. Começa com óleos com mais CBD do que THC. Ele estima que cerca de metade dos pacientes pode até piorar com doses mais baixas do que as que ele usa. Alguns apresentam efeitos colaterais com doses mais altas. Em determinados casos, ele opta por complementar óleos, alguns com mais THC, o que é um risco um pouco maior, mas sem muitos efeitos colaterais observados. 

Então, ele acompanha a reação do paciente. Às vezes, mantém o que deu certo, mas se ainda apresentar agitação, sono irregular ou agressividade, a indicação pode ser acrescentar outro óleo ou mais THC. Tudo isso sempre explicando para família, apresentando os prós e contras, estudos e o baixo risco. 

Autismo e o tratamento no SUS

No atendimento público, Barbosa atua no Espaço Avançar, clínica escola em Indaiatuba, onde atende um grupo de 150 crianças com autismo. “São pacientes que poderiam se beneficiar da Cannabis, mas é difícil no SUS”, desabafa. Mesmo os medicamentos das associações são caros a essas famílias, o que dificulta o acesso. Ele conta que, para inclusão de medicamentos no SUS, os estudos exigidos são os duplo cego randomizados, ainda escassos com Cannabis. 

Barbosa diz que acaba usando os medicamentos convencionais, como a risperidona. “É triste ver a desigualdade, a Cannabis deveria ser mais acessível à população”. Ele estuda com a prefeitura da cidade a possibilidade de custeio público, mas a verba disponível é limitada. Por lá, o serviço da clínica conta com atendimento multiprofissional com fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicólogos. O custo extra com Cannabis poderia comprometer todo o funcionamento do atendimento.

Por conta dessa discrepância, Barbosa se lembra de um caso recente, com uma paciente criança, que sofria de sequelas do parto e era hiperativa. Tratada por um ano e meio com risperidona, com seis anos tinha problemas com desenvolvimento intelectual, interação, linguagem. Em conjunto com os pais, ele desmamou a risperidona e incluiu Cannabis. Depois de seis meses, a menina canta, fala e interage.

Informação e gatilhos 

Muitos colegas de Barbosa argumentam que a Cannabis controla a inflamação, mas não a excitabilidade neuronal. “Pelo contrário, a Cannabis tem efeito anticonvulsivante por causa da regulação neuronal”, rebate. E recomenda mais informação aos médicos.

Se existir o componente neuroinflamatório, a Cannabis pode ajudar, mas também é fundamental entender quais são os fatores que causaram essa desregulação. Ele cita um estudo americano que aponta que a ocorrência do autismo é de 3,2% no Japão e 1,85% nos EUA.

Segundo Barbosa, são várias as hipóteses que apontam para a contaminação ambiental por pesticidas, agrotóxicos, metais pesados. Eles funcionam como um gatilho para quem já é predisposto geneticamente como os autistas. Ele dá dois exemplos: o pesticida Paraquat (hoje banido no Brasil), que desregula o sistema neuro imunológico e o DDT, também banido, mas que segue contaminando os lençóis freáticos brasileiros. 

“Cannabis não pode ser balde que tira água de barco furado sem fechar o furo”. 

Resistência médica à Cannabis

Barbosa sente que a resistência aos tratamentos com Cannabis ainda existe, principalmente entre chefes de departamento e de pesquisa em universidades. Apesar disso, como membro do Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (LEIPSI) na UNICAMP, colaborador do Observatório do Uso de Medicamentos e Drogas da UNIFESP, Professor convidado do curso de Extensão em Cannabis Medicinal da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNICAMP, ele sente os departamentos abrindo para investigação, pesquisa, prática clínica e começando a ter protocolos.

Ele participa do corpo docente do curso EAD da OnixCann / Cantera em parceria com o Instituto Ânima, lecionando na especialidade de autismo. Em 2019, conseguiu uma aula dentro da disciplina optativa na pós de saúde coletiva da UNICAMP. Também na UNICAMP, ministrou um curso de Cannabis medicinal no curso de Ciências Farmacêuticas.

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