Cannabis e epilepsia: o que a ciência já sabe sobre o tratamento?

Estudos norteamericanos e brasileiros explicam a ação do canabidiol no cérebro de pacientes de epilepsia.

Qualquer parente de paciente com epilepsia conhece bem o drama da doença: muitas convulsões diárias, que podem piorar ao longo dos anos, com riscos que vão desde simples ferimentos até o desenvolvimento de problemas psicológicos e morte súbita.

E não é pouca gente no mundo que sofre da doença. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 50 milhões de pacientes receberam o diagnóstico de epilepsia. Para piorar, um terço deles não responde aos medicamentos convencionais. Isso quer dizer que, embora tomem dois ou mais remédios para conter as
convulsões, não há como controlá-la.

É justamente essa parcela de pacientes que tem feito tratamentos com CBD. E os estudos comprovam: tem dado certo. Um deles¹, realizado por pesquisadores da Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, envolveu 72 crianças e 60 adultos que não respondiam aos remédios tradicionais.

Todos passaram a tomar Epidiolex, um remédio à base de CBD liberado para controle de convulsões, por pelo menos 12 semanas, com doses progressivamente maiores ao longo das semanas. Ainda que alguns tenham relatado insônia e diarreia por conta do medicamento, a maioria reduziu drasticamente a severidade e a quantidade de convulsões.

Mas valeu a pena. Veja pelos números. Na média, as crianças registravam 70 convulsões a cada 14 dias – cerca de cinco episódios diários. Doze semanas após o início do tratamento com CBD, as crises caíram só um pouco, passaram para 69. Só que, depois de 6 meses, esse número caiu para 43. E, dentro de um ano, as convulsões ocorriam, em média, apenas 27 vezes a cada duas semanas.

Entre adultos, os dados foram bem parecidos. A maioria deles tinha mais de 60 convulsões e, após um ano, esses episódios caíram pela metade.

Não é o único estudo que comprova a eficácia do CBD em pacientes com epilepsia. São várias pesquisas e revisões, que são a análise de dados de outros estudos clínicos.

Em 2015², foram avaliados 17 estudos com uso de CBD nesses pacientes e, mais uma vez, as convulsões diminuíram. Em 2018³, outros pesquisadores avaliaram seis pesquisas de CBD e pacientes epilépticos. A conclusão: “recentes estudos que incluíram mais de 100 participantes mostraram que o uso de CBD resultou em uma significante redução na frequência de convulsões.

Os efeitos colaterais do CBD parecem benignos, ao passo que efeitos colaterais mais preocupantes (como o aumento das enzimas do fígado) melhoraram com o uso contínuo do CBD ou com a redução da dose”.

Por falar em efeitos colaterais, a maioria dos pacientes mostra poucos sinais negativos pelo uso do CBD – e essa conclusão vem, mais uma vez, dos dados apresentados em estudos. Segundo uma pesquisa brasileira (4), quando há efeitos adversos, são casos passageiros de insônia, fadiga e diarreia. E só. Quase nada perto dos riscos de pacientes com epilepsia refratária (quando não respondem aos outros medicamentos).

Por que esse remédio funciona tão bem? Antes de qualquer coisa, você precisa entender o que acontece no cérebro durante as crises epilépticas. Em geral, nosso cérebro funciona em harmonia, com neurônios chamados de excitatórios que estimulam as atividades, por meio de impulsos elétricos. É como se esses neurônios fossem grandes agitadores e estimulassem um bate-papo intenso e animado lá dentro.

Só que tudo em excesso faz mal.

E até eles sabem – tanto que os próprios neurônios excitatórios têm um mecanismo para reduzir suas atividades quando elas, lá dentro, passam do limite.

E, além desse autocontrole, existem outros neurônios lá dentro que acalmam os ânimos – são os inibitórios. Quando o alvoroço sai do limite, esse outro pessoal entra em ação para diminuir a bagunça. E aí as atividades neuronais diminuem.

Com pacientes de epilepsia isso não funciona bem assim, por alguma falha genética. Pode ser que os inibitórios sejam mais tímidos, e não cumpram com seu papel de equilibrar o ambiente cerebral. Ou pode ser que autocontrole dos agitadores esteja desligado. Ou uma soma dos dois fatores.

O fato é que o excesso de atividade – e de impulsos elétricos – causa uma pane no cérebro. E aí começam as crises de epilepsia. Aí entra o CBD. Em cérebros saudáveis, as nossas maconhas naturais (os endocanabinoides) ajudam a regular essas atividades lá dentro, restaurando a harmônia entre os neurônios inibitórios e excitatórias. Uma delas, chamada anandamida, desliga os “agitadores” e restaura a paz no cérebro.

E uma das hipóteses sobre o mecanismo de ação do CBD tem a ver com esse composto químico. Ele impede a metabolização da anandamida – ou seja, ela permanece por mais tempo ativa, antes de perder seu efeito. Logo, há um aumento de concentração de anandamida. E elas reduzem as atividades dos neurônios excitatórios. Aí não rola pane. E as crises diminuem.

Outra possibilidade é que o CBD estimule ainda a ação dos neurônios inibitórios. E cesse o excesso de atividade neuronal, reestabelecendo o equilíbrio.

Por outro lado, o THC pode fazer justamente o contrário: aumentar as descargas elétricas e estimular ainda mais as crises convulsivas. Isso só em casos de altas dosagens , já que o próprio CBD ameniza os efeitos do THC.

Em contrapartida, em um estudo citado por Renato Malcher-Lopes (5), o THC é potencial anticonvulsivante e eficaz no tratamento de outros sintomas: reduziu espasmos e melhorou a rigidez muscular e falta de tônus muscular, aumentou o interesse e a conexão com o meio ambiente, além de estimular a iniciativa.

Ainda que a comunidade científica não saiba exatamente por qual caminho o CBD atue na redução das crises convulsivas, nem o potencial de auxílio do THC, não parece haver dúvidas sobre a eficácia e segurança desse medicamento. “Não se pode descartar a utilidade do THC em baixa concentração como tratamento para alguns casos de epilepsia e, por outro lado, certamente o CBD possui atividade antiepiléptica mais consistente e independente de outras drogas”, afirma Renato Malcher-Lopes (5).

FONTES:
¹ https://www.epilepsybehavior.com/article/S1525-5050(18)30473-6/fulltext
² Rosenberg, E. C., Tsien, R. W., Whalley, B. J. & Devinsky, O. (2015). Cannabinoids and epilepsy.
Neurotherapeutics, 12(4), 747-768. doi: 10.1007/s13311-015-0375-5 /PMC6235654/
³ https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6235654/
4 – http://revistas.ufcg.edu.br/ActaBra/index.php/actabra/article/view/131
5 https://www.ib.usp.br/revista/system/files/07_Malcher-Lopes.pdf

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