Legislação e médicos britânicos ainda veem CBD e THC como tabu

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Mesmo com CBD aprovado, Reino Unido registra somente 60 prescrições após dois anos. Enquanto isso, 1,4 milhão de pessoas consomem ilicitamente. Britânicos agem para mudar esse cenário 

Quase dois anos depois da liberação Cannabis medicinal, o Reino Unido continua no mesmo impasse. Em todo o país, somente 60 prescrições foram dadas a pacientes.  Em contraste, um levantamento feito pelo Centre for Medical Cannabis em 2020, descobriu que 1,4 milhão estavam usando Cannabis ilícita para tratamentos médicos.

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Ao mesmo tempo, produtores britânicos de cânhamo são obrigados a descartar as partes usadas na produção da Cannabis medicinal, como sementes e flores. Diante desse cenário, uma campanha deve ser iniciada em agosto para tentar incentivar legisladores e médicos a facilitar o acesso da Cannabis medicinal ao povo britânico.

A informação que demonstra a pouca quantidade de prescrições veio de um artigo publicado por pesquisadores britânicos no mês passado no Journal of Psychopharmacology, com o nome de Medical cannabis in the UK: From principle to practice. Os pesquisadores apontaram que, desde a aprovação do uso da Cannabis medicinal em novembro de 2018 até o momento do estudo, apenas 12 prescrições haviam sido feitas pelo NHS (National Health Service), e 60 como um todo no país.

É um sinal evidente da disparidade entre a oferta e a procura. De acordo com o artigo, a comunidade médica reclama da falta de evidências científicas comprovando a eficácia da Cannabis para a maioria das doenças, apesar da demanda alta por parte dos pacientes. A solução seria estimular a produção de pesquisas clínicas para o benefício do paciente, mas de forma segura, cautelosa e ética. 

Liberação tímida

A evidência científica de eficácia da Cannabis ainda está em desenvolvimento, posição adotada por diversas instituições. Como, por exemplo, a americana National Academies of Science, Engineering, and Medicine (NASEM), mencionada no artigo dos pesquisadores britânicos.

Para alguns usos, já há evidências substanciais, o que já garante a liberação em diversos países. Em outros casos, essas evidências ainda são limitadas ou moderadas, o que acaba por prejudicar o avanço da Cannabis medicinal de um modo geral. 

No caso do Reino Unido, o britânico National Institute for Health and Care Excellence (NICE) recomendou a prescrição de dois medicamentos de Cannabis para tratar espasticidade em adultos com esclerose múltipla, náusea e vômitos em pacientes em quimioterapia e epiléticos refratários. Apesar de ser um avanço, muitos consideram a liberação tímida.

Entraves para o avanço

Para os pesquisadores, a confusão que existe entre o que é Cannabis, canabinoide e tetrahidrocanabinol (THC) e as diversas formulações disponíveis. A distinção entre o canabidiol (CBD, que não é uma droga controlada no Reino Unido) puro e o CBD com THC e a noção de que a Cannabis não é apenas um medicamento, mas toda uma família de remédios, é um primeiro passo para entender o tema.

De fato, uma pesquisa americana resumiu as evidências científicas (existentes ou não) dos benefícios da Cannabis. Mas estas evidências são ainda controversas, e costumam enfatizar a necessidade de mais pesquisas. 

Este resumo aponta que existem substanciais evidências de que a Cannabis ou canabinoides são efetivos nos casos de doenças já citadas pelos britânicos (epilepsia, EM, náuseas causadas pela quimioterapia).

Em outros, a evidência, segundo os americanos, é moderada. São eles: melhora na qualidade do sono em pacientes com apneia, fibromialgia, dor crônica e esclerose múltipla; síndrome de Tourette, ansiedade, melhora de apetite em pacientes com HIV/AIDS; stress pós-traumático, entre outros.

Evidências de usuários

O caminho parece ser a ampliação das pesquisas – e os relatos de pacientes. Isso porque a Cannabis medicinal é usada mesmo antes da demonstração de eficácia em estudos clínicos, o que geralmente é um pré-requisito para a indústria farmacêutica.

Um levantamento britânico, com amostra representativa, chamou a atenção para os relatos de pacientes. Perceberam, por exemplo, que adicionar Cannabis ao tratamento convencional melhorou significantemente a qualidade de vida de alguns pacientes. Eles sofriam com dores neuropáticas, Parkinson, dor em geral, depressão e ansiedade. A soma de Cannabis trouxe ainda alívio para sintomas diversos e diminuição do uso de opioides.

Apesar de estudos como estes, os pesquisadores ainda enfatizam que faltam estudos controlados com placebo, o que dificulta a aplicação e posologia da Cannabis, que, no Reino Unido, é classificada como medicamento sem licença.

Crédito: freepik/jcomp

Falta conhecimento, faltam recomendações

Além da ausência de estudos suficientes, ainda faltam aos médicos britânicos o conhecimento do que já existe, o que faz com que eles não recomendem nada relacionado a Cannabis. O que é até contraditório: há mais de 50 medicamentos licenciados por agências de saúde europeias e americanas, entre 1999 e 2014, sem ensaios clínicos randomizados.

Além disso, os médicos não têm treinamento, conhecimento e nem a confiança de receitar, por não saber a forma e a dosagem indicadas. 

O artigo sugere que programas educativos sejam desenvolvidos pelo governo, como alguns já disponibilizados por diversas instituições. O importante é que haja diversidade nos cursos e que sejam certificados.

Por outro lado, o médico interessado também é desestimulado pelas instituições britânicas. Algumas delas recomendam a prescrição da Cannabis medicinal como último recurso – como acontece no Brasil.

Tabus médicos

O desconhecimento dos médicos também esbarra no preconceito. Um sentimento que é reforçado por estudos que indicam riscos de dependência, ainda que sejam em casos raros. De acordo com pesquisas, isso pode ocorrer somente em uso de altas doses de THC (mais de 10%).

A Health Canada mostra poucos relatos de psicose no uso medicinal. E, segundo suas pesquisas, o risco de dependência é muito pequeno – ao contrário dos opioides.

Custo relativo

Como muitos médicos não prescrevem, famílias britânicas recorrem a médicos particulares. E o tratamento chega a custar 40 mil libras por ano. Mesmo assim, em alguns casos, gera até economia. Pacientes com epilepsia, por exemplo, costumam gastar menos quando usam Cannabis – visto que precisam de menos internações em hospitais.

Desperdício econômico

Crédito: freepik/jcomp

Hoje no Reino Unido, o agricultor que quiser plantar cânhamo precisa de uma licença do Ministério do Interior, e as cepas têm de ser aprovadas pela União Europeia, desde que tenham o limite de 0,2% de THC.E precisam jogar fora folhas e flores, pois a lei só permite que usem as semente e as fibras. Não podem nem sequer extrair o óleo para produção de produtos medicinais – mesmo se forem compostos apenas por CBD.

E isso, como acontece no Brasil, encarece os produtos. Afinal, toda a matéria-prima dos medicamentos precisa ser importada.

No caso britânico, a barreira que impede o plantio é a classificação da Cannabis. Sob o governo de Tony Blair, a Cannabis foi relacionada como droga Classe C (menos perigosa), mas acabou voltando à Classe B na gestão seguinte. Na Classe B estão drogas como anfetamina, ketamina e codeína.

Uma campanha, que deve apresentar um estudo em agosto, está em curso para tentar corrigir o problema no que se refere ao cânhamo. É o desafio de mudar a maneira como a Cannabis é vista no Reino Unido.

Campanha “Pleasant Lands”

Lançada em julho deste ano, a campanha Pleasant Lands (Terras Agradáveis) quer ajudar os legisladores britânicos a renovar as leis antiquadas que regem o plantio de cânhamo no país, com argumentos econômicos.

A iniciativa é da Volteface, que trabalha na defesa de reformas de drogas no Reino Unido. Eles querem aumentar a discussão em torno do plantio de cânhamo, permitir a extração de CBD (componente usado em medicamentos), estimular uma nova indústria e aumentar o valor das colheitas. Se tiverem sucesso, vão poder passar a usar as folhas e flores, parte mais rica em CBD, que hoje são descartadas. 

Por enquanto, as fibras e a semente têm utilidades variadas na indústria têxtil, de armas, insumos para construção, alimentos, papel, cosméticos e remédios.

Propostas

Em agosto deste ano, a campanha liderada pela Volteface vai lançar um relatório para guiar o governo a promover a reforma na legislação sobre o cânhamo. Este estudo será baseado nas experiências dos agricultores no país, e terá o parecer de especialistas em leis, regulamentação e ciência.

A campanha quer mostrar a diferença entre plantas com baixo (até 0,3%) e alto (até 30%) teor de THC e os benefícios do CBD. Cânhamo refere-se a essas plantas com pouco THC; enquanto a maconha é conhecida por ter uma quantidade maior desse canabinoide.

Além dos pontos fortes na questão econômica, o cânhamo é também amigo do meio ambiente. Como a planta cresce rápido, é muito eficiente na retenção de CO2. Ela também melhora a qualidade do solo, porque reduz a presença de materiais tóxicos e produtos químicos.

Para completar, até os industrializados com matéria-prima de cânhamo são mais ecológicos. O papel é mais fácil de ser reciclado, e as sacolas plásticas são biodegradáveis, se desfazendo em questão de meses. 

A ideia da campanha Pleasant Lands é, portanto, demonstrar que o Reino Unido apenas perde quando restringe o plantio, processamento e venda do cânhamo. Perde um mercado crescente, nacional e internacional, e valor das próprias plantações, quando descartam a parte mais valiosa da planta.

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