“Médico que não prescrever Cannabis ficará para trás”, alerta precursor da Cannabis no Brasil

Eduardo Faveret ajudou a fazer a história da Cannabis medicinal no País e, no processo, acabou transformando a sua própria maneira de fazer medicina e se relacionar com seus pacientes e familiares
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“Ir para a rua e não ficar no distanciamento entre médico paciente é uma experiência muito legal e foi o que abriu o caminho para essas mães chegarem até mim”. A frase é do neuropediatra especializado em epilepsia Eduardo Faveret, que resume o que significou a entrada da Cannabis medicinal na sua carreira. 

As mães a que ele se refere foram Margarete Brito e Aline Voigt, que tinham filhas que sofriam com crises epilépticas. São nomes já bem conhecidos, até famosos, para quem conhece a história da Cannabis medicinal. É por intermédio delas que Faveret vai marcar o seu lugar como um dos principais precursores do uso no Brasil. 

Essas mães procuraram Eduardo Faveret em 2013 para que ele administrasse um tratamento ilícito e desconhecido: a Cannabis medicinal. Na época, Faveret já era uma referência no tratamento da epilepsia infantil, cuidando dos casos mais graves do Rio de Janeiro. Mas sofria com a falta de tratamentos, e os chamados casos refratários, onde os medicamentos convencionais não surtiam resultados satisfatórios. Ele lembra que tinha fila nos hospitais de São Paulo para avaliação dos pacientes, porque a investigação de doenças neurológicas costuma ser longa e complexa.

Carreira médica

Faveret fez medicina na UFRJ, residência em pediatria e neuropediatria na Fiocruz. Nessa época, trabalhava já como assistente da neurologista Laís Pires, que sempre teve uma paixão pelo estudo da epilepsia. Com o apoio dela, Faveret aproveitou que tinha família na Alemanha e fez um mestrado de 3 anos na Universidade de Bonn, onde viu uma comunidade dedicada à epilepsia com assistência humanitária, casas de reabilitação e tratamento, com convênios com o equivalente ao SUS alemão e seguros privados. 

Ao voltar, Laís e ele se dedicaram a montar um centro de epilepsia porque no Rio de Janeiro não tinha nada parecido. Eles sabiam de uns poucos neurologistas na cidade, mas que trabalhavam isolados, sem comparar tratamentos, sem comunicação. Sentiam a necessidade dessa comunicação, de fomento, de tratamentos, de cirurgias, de integrar médicos e pacientes. 

Faveret já era da Liga Brasileira de Epilepsia, mas queria mais para o Rio de Janeiro. Correu atrás, concebeu e montou o Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer em 2013, onde foi diretor até 2019. Agora está na área da pesquisa de autismo IPUB (Instituto de Psiquiatria da UFRJ), fez curso de neuroimagem em Boston e também cursos e congressos de Cannabis medicinal na Holanda e Israel.

A transformação

“Nós passamos a estar lado a lado com famílias e pacientes”, lembra Faveret. “Desenvolvemos uma  conscientização, uma mudança do viés acadêmico para a parceria com as famílias.” O movimento foi crescendo, e o médico se tornou uma referência em epilepsia, tratando também adultos e os casos mais graves do Rio de Janeiro.

Foi nessa época, em 2013, que chegaram na sua sala no Instituto Estadual do Cérebro as mães Margarete Brito e Aline Voigt, com uma seringa de CBD trazida dos EUA. Elas propuseram que eles tentassem o tratamento com o canabidiol. Faveret já ouvia o burburinho sobre o medicamento na internet. Sabia do THC e dos casos de pessoas usando com sucesso, mas ainda não tinha muita informação sobre o canabidiol. Ele descobre o CBD por meio de Margarete, que também vai indicar para Katiele, mãe da Anny. Mais tarde, Margarete e Katiele ficariam famosas ao ter suas histórias e de suas filhas contadas no documentário Ilegal.

Foi também ali no Instituto do Cérebro que Margarete e Katiele formaram a Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal, a APEPI, onde hoje é diretor médico. Como a ABRACannabis, que Faveret já fazia parte, as instituições se tornaram um grande ponto de encontro de médicos, cientistas, cultivadores, biólogos, antropólogos, cineastas, ajudando a formar o caldo cultural que mudaria – e continua mudando – a percepção que a sociedade tem do canabidiol. 

No início, os tratamentos de Sofia e Maria Clara (filhas de Margarete e Aline respectivamente), eram totalmente secretos. Mas, com o boca a boca, vieram algumas mães da APEPI, com filhos epilépticos com transtornos do espectro autista. Faveret começou tratando não mais do que 10 crianças. 

Diferenças no tratamento

Após os anos de experiência com a Cannabis, Faveret aprendeu que a Cannabis não funciona para todos, porque a epilepsia pode ter inúmeras causas e tem também várias doenças correlatas. Assim como os anticonvulsivantes, a Cannabis pode, ao invés de diminuir, aumentar as crises. Embora aconteça em somente 6% dos casos, a possibilidade não pode ser descartada. Entre essas exceções, há os casos em que basta acertar o percentual de THC ou CBD. Mas há também os pacientes que não se dão bem mesmo com o CBD e que, por exemplo, vão reagir bem somente ao THC. “São muitos receptores, é um sistema de matrizes super complexo”.

Para aumentar as chances de sucesso, o tratamento demanda estudo do transcriptoma e metabuloma, que são exames para saber como está a síntese dos receptores, como o paciente está antes e depois da terapia. Mesmo assim, na média, Faveret aponta que ⅔ das pessoas têm benefício significativo e ⅓ obtém um benefício moderado. 

Em 2015, a época da liberação da prescrição, quase não havia médicos prescritores, o que fez com que Faveret acabasse ampliando a sua gama de pacientes. Além da epilepsia, tratou doenças como Parkinson, Alzheimer, câncer de mama, pâncreas, artrite reumatóide e crohn. As pessoas viam seu nome na mídia e o procuravam, buscando tratamentos com Cannabis. “Foi uma oportunidade de vivenciar e reestudar a fisiologia de outras especialidades”, lembra, demonstrando um traço de sua personalidade. “Eu adoro ver a coisa como um todo, integrar. É coisa minha.” 

Cannabis é o agregador que faltava

Para Faveret, a Cannabis trouxe três coisas importantes em sua vida. Primeiro, a descoberta do sistema endocanabinóide como oportunidade de estudar a fisiologia sob uma nova ótica: “todos os clínicos têm que rever seus conceitos”. Segundo: o potencial das plantas. Ao tomar conhecimento do potencial da Cannabis e de outras plantas, incluindo compostos químicos orgânicos como os terpenos por exemplo, percebeu como a medicina é excessivamente guiada pela farmacêutica. O que foi uma descoberta para o médico. “Quem não tiver mente aberta, não vê isso. Eu, que sempre busquei nutrição e integração, vi isso claramente. Gosto de desafio”. 

O terceiro fator que ele considera uma descoberta trazida pela Cannabis foi a chance de aumentar o contato com o coletivo. De pacientes a cultivadores, de antropólogos a cineastas. “Foi um mundo de encontro, troca, luta política, sem falar da revolução na medicina. Me senti um idiota por não ter estudado antes”. 

Faveret se alegra que as novas gerações já têm cursos, congressos e até pós-graduação em Cannabis. Ele lembra também que Elisaldo Carlini, o “papa cannabis” já  não se restringe só à Cannabis, e participa de congressos de fitoterapia em geral, modalidade da medicina que se beneficia hoje de sua grande estrela, a Cannabis.

As associações

Os pacientes de Faveret compram seus óleos pelas associações (Abrace ou APEPI, as duas autorizadas a plantar no Brasil), ou importam principalmente dos EUA. Alguns ainda compram de fornecedores do Uruguai ou da Holanda. Mas as associações são o que mais inspiram Faveret. “Essa coletividade profícua, solidária alegre, que busca ajudar os outros”.

Ele aponta uma preocupação com a vinda das empresas farmacológicas e com um possível lobby que eleve tanto as exigências de qualidade, que inviabilize a produção pelas associações. Entretanto, Faveret acredita que o mercado não corre esse risco, pois o avanço que está sendo conquistado seria difícil de ser revertido. “Não tem mais volta.”

Cultivo associativo

Ainda sobre as associações, o médico lembra que Emílio Nabas, advogado da Reforma e pioneiro dos habeas corpus das associações, diz que elas devem ser vistas como grandes indivíduos. Assim, o cultivo associativo significa que é como se cada um estivesse plantando para si, e o que se planta para consumo próprio nunca é regulado (Faveret acrescenta: “é como se eu plantasse tomate em casa”). “Assim é que a associação deve ser tratada, e não ficar sujeita às normas da Anvisa”. O que Faveret aponta como uma solução para manter a qualidade dos óleos de associações é elas terem um médico, farmacêutico ou cultivador responsável que dê parâmetros de qualidade. “Mas o Emílio é contra isso”, diz Faveret. 

Segundo ele, o Estado deveria facilitar a análise através de instituições como a Fiocruz, que atualmente já faz um trabalho no Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS). Em parceria com o Laboratório de Toxicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (LATOX), eles analisam as medidas dos canabinóides. São análises microbiológicas e toxicológicas, para dar suporte às associações. “Esse suporte público deveria ser regra. A Abrace já tem sua própria análise, e até já faz para outras associações. Apepi está fazendo parceria com a Fiocruz”. 

Mensagem final do precursor da Cannabis no Brasil

O último ano foi o que trouxe a maior mudança para a Cannabis, segundo Faveret. Ele conta que já participou até de um congresso de dermatologia, onde a Cannabis foi discutida. E que cada vez mais tem visto especialidades se rendendo à medicina canabinoide. Entre elas, reumatologistas, gastroenterologistas, anestesistas, infectologistas.

Segundo Faveret, as indicações clínicas da planta são tantas, que gera até polêmica. 

“Soa como charlatanismo para médicos sem conhecimento. Ou com preconceito mesmo”. 

Apesar disso, Faveret não tem dúvidas sobre o futuro: “quem vai ficar para trás é o médico que não prescreve”.

Procurando por um médico prescritor de cannabis medicinal? Temos grandes nomes da medicina canabinoide para indicar.

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