“Essa ideia de empresa de Cannabis como tem nos EUA não tem espaço aqui”, diz criador do MyCannabis Code

O cientista e farmacologista Fabrício Pamplona, criador do teste genético que permite personalizar a Cannabis para cada paciente, analisa as possibilidades para empreender e o que pode mudar com a nova legislação
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O catarinense Fabrício Pamplona tem um perfil perfeito para um divulgador científico: tem paixão e talento para se comunicar e é cientista. Mas o impulso empreendedor bateu mais forte. E o levou a criar e comercializar um teste genético que indica qual o óleo de Cannabis ideal para cada pessoa, o  MyCannabis Code

Estudioso da Cannabis medicinal, o farmacologista fez seu paper de mestrado sobre farmacologia endocanabinoide, ainda em 2003. Com 37 anos, ele soma em sua trajetória de empreendimento uma lista longa de realizações. Fundou o Mind The Graph, sistema para criar gráficos científicos, foi o primeiro cientista contratado na Rede D’Or e ainda teve o cargo de diretor do Entourage Phytolab. Hoje, é conselheiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), faz mentoria de quatro startups de biotecnologia e ainda mantém um blog com textos sobre ciência, Cannabis, empreendedorismo e tecnologia.

Mas as habilidades de comunicação de Pamplona não são desperdiçadas. O gosto por contar histórias e pela ciência o tornou uma referência para outros profissionais que buscam se comunicar melhor. Assim, ele dissemina informação de qualidade científica para a medicina canabinóide. 

Ele vai participar da segunda edição do Medical Cannabis Summit, que acontece de 5 a 9 de outubro. Em entrevista exclusiva, ele fala da carreira, dos empreendimentos, do mercado brasileiro, do futuro da Cannabis e da importância de um evento como esse. 

Cannabis & Saúde: Qual a sua formação e como chegou à farmacologia?

Fabrício Pamplona:  Para o farmacêutico, a farmacologia é a tropa de elite. Quem quer entender melhor sobre medicamentos e se aprofundar nessa área, acaba tendo interesse na farmacologia. Eu fiz essa trajetória dentro de um laboratório que já tinha tradição de estudar drogas. Como o sistema endocanabinoide estava surgindo naquele momento, já se estava aprendendo a respeito. Eu me interessei pela área, achei que tinha grande potencial principalmente no aspecto na neuroplasticidade. Desde a iniciação científica, fiz o mestrado e o doutorado em farmacologia endocanabinoide. Meu primeiro paper na área é de 2003.

C&S: Então não dá para dizer que ainda não existem estudos sobre Cannabis?

FP: É, eu fico chateado quando ouço isso.

C&S: Fale da sua trajetória profissional.

FP: Depois do mestrado e doutorado na área eu resolvi empreender. Fui sócio de uma empresa de desenvolvimento farmacêutico, a Trial Pharma, que durou pouco tempo mas me deu acesso à indústria farmacêutica e ao desenvolvimento de produtos.

Me tornei cientista da Rede D’Or, que é a maior rede de saúde da América Latina por 5 anos e fui o primeiro cientista contratado da rede. Trabalhei com inovação e diagnóstico, que envolve o sistema endocanabinóide. Esse estudo ainda não está finalizado, mas pretendo lançar ainda este ano.

Depois eu empreendi com empresa de tecnologia, que trabalha na área de comunicação científica que é a Mind the Graph e ao mesmo tempo fui diretor da Entourage Phytolab. Saí para fundar a Promprium, que é onde estou hoje. É de medicina personalizada que tem como principal produto o MyCannabis Code. 

C&S: O que é o MyCannabis Code?

FP: É um painel farmacogenético, onde avaliamos os polimorfismos, ou seja, as variações naturais da genética do indivíduo para estudar o metabolismo e os riscos associados aos efeitos adversos típicos da Cannabis. Com o metabolismo, avaliamos a capacidade do organismo do paciente de absorver, metabolizar e excretar os canabinóides. Então definimos baixos metabolizadores que devem usar doses mais baixas ou altos metabolizadores que devem usar doses mais altas.

Um caso bem típico é o alto metabolizador de CBD que acaba precisando de doses muito altas de CBD. Quando usa doses típicas, conclui que o CBD não tem efeito, mas, na verdade, ele só tem um metabolismo muito acelerado. E o risco inerente de sobredose se for um baixo metabolizador de THC. Com isso, conseguimos ajustar a dose de maneira individualizada. Esse é o ganho: orientar o médico a ajustar a dose.

Na parte de efeitos adversos, avaliamos a suscetibilidade do indivíduo a efeitos adversos cognitivos como perda de memória, raciocínio, coordenação motora, relacionados ao comportamento. Exemplos são ansiedade, alterações de humor, psicose – que é o grande fantasma, a ideia de que maconha causa esquizofrenia.

Conseguimos avaliar pacientes sob risco de psicose, suscetibilidade a prejuízos inerentes ao uso crônico, a “precisar” de Cannabis no dia a dia, que é uma forma leve de dependência. E uma escala clínica específica associada aos efeitos típicos de Cannabis, que é a Marijuana Problem Scale. Tudo isso com algoritmo proprietário, de forma fácil de entender mas com report completamente detalhado para os médicos que quiserem ver a informação genética de fato. O objetivo é mostrar de forma mastigada e já com sugestões de proporções e doses de produto que podem ser utilizadas.

C&S: Fale da importância da Cannabis no tratamento de doenças. 

FP: Primeiro, a Cannabis tem sucesso onde outros medicamentos não tiveram. Isso é uma questão fundamental. Porque ela se conecta com doenças raras, pessoas que não têm alternativa. Segundo, porque isso justifica, mesmo aos críticos ao uso da Cannabis medicinal, o porquê de usar.

O pano de fundo que a ciência está começando a descobrir são possivelmente essas doenças crônicas que são refratárias aos tratamentos. Porque elas têm como base uma disfunção do sistema endocanabinóide. Esse é um conceito que ainda está sendo trabalhado, as evidências estão surgindo, mas é um conceito que faz sentido: chama-se síndrome de deficiência de endocanabinóides. Como os canabinóides estão relacionados à homeostase ou o equilíbrio do organismo, a quebra desse sistema impacta muita coisa.

Epilepsia já está praticamente certo. Mas podemos mencionar também dores crônicas, inflamações intestinais, fibromialgia, talvez neurodegenerativas. É fundamental e talvez o link, o porquê de Cannabis funcionar em doenças que outros medicamentos não funcionam.

Além disso, ou apesar disso, a Cannabis consegue aliviar vários sintomas. Ela é um analgésico, regula atividade cerebral exagerada, melhora o bem estar e o sono. Mesmo que a pessoa não estivesse doente, este tipo de efeitos fazem bem no dia a dia, mesmo que ela não seja positiva para algum diagnóstico. É a base do estresse: essa desregulação do dia a dia leva a condições que envolvem dor, à perda do sono, do bem-estar, alteração do apetite. 

C&S: Há uma gama muito grande de usos.

FP: No fundo, ela é uma substância que ajuda a lidar com adversidades da vida. Ela ajuda a você se habituar com o estresse. A faceta mais óbvia do estresse é a ansiedade. É um motivo pelo qual há uma zona cinzenta entre o que é medicinal e o que é recreativo. Ela é usada para apoiar e criticar, é da natureza dessa substância. Eu gosto de comentar em palestras que ela é um dos poucos medicamentos que as pessoas querem tomar. A maioria não quer tomar medicamentos, mas ao mesmo tempo quer porque se sente bem. Isso causa conflito. 

C&S: Fale sobre a Cannabis no Brasil e no mundo.

FP: O mundo tem uma expectativa enorme em relação a um potencial que ainda não se realizou. Em parte porque tem muito oportunista e gente que está nessa só pelo dinheiro, que entende pouco ou se importa pouco com os pacientes. 

Infelizmente, o Brasil está na lista dos países que estão atrasados. Embora tenha feito avanços em relação ao que era – de ser completamente proibido, de as pessoas não terem acesso – ainda está muito aquém do potencial. Eu tenho esperança nesse processo que está sendo liderado pelo PL399/2015. Eu participei muito desse processo.

Em 2015, quando a Anvisa começou a estudar a matéria, eu estive na viagem técnica. Fui uma das pessoas que levou os técnicos da Anvisa nos cultivos de Cannabis profissional no Canadá, apresentei como é o cultivo, a extração, como é dispensado, quais são os pacientes, quais são as doenças. Tudo isso quando eu estava na Entourage. Eu tive essa honra. E depois também contribuí bastante ao longo do processo de diversas formas. 

C&S: O que acha da legislação atual? 

FP: Atual e interessante porque começa a desmistificar o assunto. Médicos começam a ter acesso, os pacientes começam a ter tratamento e as pessoas começam a ver que há uma verdade no conceito de Cannabis medicinal. Esse é o grande avanço. O número de pessoas atingidas é pífio, ínfimo, ridículo. Quando eu vejo um opositor como o Osmar Terra, que me diz que 4 mil podem ser beneficiadas pela Cannabis medicinal no Brasil…

Ele usa esse subterfúgio que o mercado está engargalado pelo mecanismo atual.  Ele usa isso para justificar o próprio gargalo. É ridículo, é um recurso de argumentação circular. É um absurdo. O potencial é pelo menos mil vezes maior. Seriam 4 milhões de pessoas beneficiadas, só para falar das doenças mais comuns: dores crônicas, epilepsia,  paliativo de câncer, como aditivo de quimioterapia.

Eu acho que ainda podemos muito mais. O THC precisa ser considerado parte integral dessa terapia porque o canabidiol é importante mas é limitado. Quando falamos de analgesia, ganho de bem estar, de aumento de apetite, de oncologia, precisa do THC.

Entendo que a minha contribuição inclusive com o MyCannabis Code é ajudar as pessoas a entender melhor quando usar o CBD, quando usar o THC  e em que pacientes. Porque os médicos têm medo. O terrorismo é sempre muito grande e os médicos são reféns dessa retórica.

C&S: Como você avalia a legislação que está sendo discutida? 

FP: O que o PL399/2015 muda: primeiro ele traz a possibilidade do cultivo, portanto deixamos de ser dependentes de empresas estrangeiras, o que eu acho que é muito bem-vindo. Segundo, ele estende o âmbito regulatório para outras maneiras de preparação que não são só industriais. Por exemplo, incluindo as associações e farmácias de manipulação.

E não há nenhum  motivo que faça qualquer sentido regulatório ou científico para dizer que uma farmácia de manipulação não pode manipular esse tipo de produto. Elas já manipulam opióides, narcóticos mais perigosos e mais arriscados, tão caros quanto em termos de risco de roubo e é normal, a gente não ouve falar de acidentes. Então isso é baseado em puro preconceito.

E as associações, que é o aspecto de clamor popular: as pessoas têm esse direito, visto que a substância vem de uma planta. Mas, honestamente, como profissional, nem entro nessa discussão. Acho que a questão é mais de direito pessoal, de liberdade individual que qualquer outra coisa. Vou usar uma frase do Chico Science que eu gosto muito: “Um passo à frente e a gente já não está mais no mesmo lugar”. 

Gosto desse próximo passo, da forma como o PL foi construído. Raramente eu vi deputados tão abertos, sensíveis, empáticos. Eles realmente mergulharam na realidade das pessoas, tentaram entender o assunto profundamente e ao mesmo tempo conectados com realidade. São pragmáticos dentro do que é possível fazer no momento político brasileiro e dentro das regras sanitárias brasileiras. Eu já fui um cara mais idealista, hoje eu comungo dos mesmos valores, compartilho das mesmas intenções, mas sou muito mais pragmático. Eu prefiro ver um pequeno avanço, mas um avanço concreto, do que um grande avanço que nunca se realiza, que é só teórico.

C&S: Como você vê a atuação da indústria farmacêutica no debate do PL399/2015?

 FP: Como farmacêutico eu não vejo absolutamente nenhum motivo para essa substância ser tratada de maneira diferente de outros medicamentos. Mas sendo derivada de uma planta, é comum que as pessoas tenham plantas medicinais e acesso a elas de outras maneiras que não pela indústria farmacêutica. Essa é uma área farmacêutica que toca esses dois mundos.

Quando a gente fala de medicamento, não há outra rota que não a indústria ou a farmácia de manipulação. Não acho que deveria haver uma exceção, a não ser que seja temporária, como é o que vem sendo feito com a legislação atual. Por que temporária? Porque ela exige o mesmo grau de qualidade farmacêutica, mas reconhece todos os esforços para demonstrar segurança. E concede uma autorização de comercialização excepcional que não é de medicamento, mas atende à população.

Ela é temporária porque – está escrito no texto – que depois de cinco anos de autorização, a empresa precisa evoluir essa autorização para registro de medicamento. Eu acho perfeito, é um atalho razoável, que garante o acesso da população a produtos que sejam de qualidade. 

C&S: E as associações específicas de Cannabis?

 FP: Com o PL399/2015, as associações estão incluídas – e eu sempre fui um defensor – de que se aplicasse a elas o mesmo rigor que se aplica à farmácia de manipulação. A rigor, as associações precisariam ter uma farmácia de manipulação para que o processo seja bem conhecido e controlado.

Acredito que poderiam ser feitas monografias de preparação magistral de produtos canabinoides. Seria uma comissão de especialistas que descreve quais são os métodos pelos quais as farmácias de manipulação devem realizar seus procedimentos. E eu acho que as associações deveriam estar submetidas ao mesmo processo. Porque isso dá garantia para a Anvisa e conforto regulatório, pois à medida que se cria uma exceção, a medida fica desconfortável e se dificulta a aprovação. 

O PL só fala que associações podem ter essa atividade. Depois haverá normas técnicas e especificações nessa área. A briga é que a Anvisa diz que associação não tem nada a ver com seu âmbito. Ela regula farmácias, distribuidoras, indústrias. Então as associações são jogadas de um lado para outro. 

C&S: Você vê a associação como um player no mercado pós PL399/2015?

FP:  Uma vez que sejam autorizadas, é muito difícil voltar atrás porque seria injusto e certamente seria um direito garantido de forma judicializada. O papel das associações é muito grande quando não há tratamento e acesso. Depois ela vira uma espécie de advocacy, de as pessoas juntas para defender bem comum. É como acontece em várias associações de doenças raras, algumas delas apoiadas inclusive pela indústria.

Não há conflito necessariamente. Por que as associações produzem remédio de maconha? Porque não tem outra maneira de ter acesso a esse tratamento e eles falaram: a gente não vai ficar de braços cruzados, vamos fazer a nossa parte. No futuro, talvez a briga das associações seja outra. 

C&S: Como você vê o futuro do mercado brasileiro?

FP: É um mercado que vai ter, num cenário de cinco anos, capacidade de fornecer para as pessoas. Vai passar pelo menos do 1 milhão de pacientes. Tem gente que fala do mercado atingindo seu potencial, mas acho muito otimismo, aquela coisa de business plan de empresa para levantar investimento. Mas eu entendo que no próximo ano já haverá muitos players – já haveria neste ano, não fosse a pandemia, porque muitas empresas tiveram problemas financeiros.

E tem o aspecto técnico que a regulamentação da Anvisa exigiu certas etapas técnicas que tomam tempo. Então, no ano que vem, começaremos a ver o mercado brasileiro realmente inundado por produtos com autorização sanitária. Vamos ver o THC sendo mais valorizado, com pessoas menos assustadas e apavoradas com isso. Médicos ganhando experiência e, sobretudo, o mercado criando um ecossistema.

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Nem todas as empresas que atuam com pacientes de Cannabis ou com Cannabis precisam plantar, extrair e entregar produto. Algumas pessoas já entenderam isso. Outras ainda estão presas numa realidade em que parece que elas estão redescobrindo o Colorado há cinco anos. Que são esses empreendedores aventureiros que não fazem ideia do que está acontecendo.

O  mercado brasileiro não é para empresa pequena. Ele foi desenhado para a indústria farmacêutica, e só esses players conseguem atuar, a não ser que o PL399/2015 se torne uma realidade e aí teremos players um pouco diferentes. Mas essa ideia de empresa de Cannabis como tem nos EUA não tem espaço no Brasil e as pessoas que não entenderam isso estão jogando dinheiro no lixo.

Tem tanta coisa para ser feita: eu criei uma empresa de genética que auxilia na prescrição. Empresas geram serviços para os pacientes. Quando o cultivo é autorizado, tem empresa de tecnologia, fertilizante, semente, de colheita, que faz só infraestrutura, laboratório de teste, garantia de qualidade, armazém, logística, distribuição, relacionamento com pacientes. Tem muita coisa para ser feita. 

C&S: Qual a importância do Medical Cannabis Summit?

FP: Hoje em dia os eventos têm o grande potencial de agregar pessoas, trocar figurinhas, updates entre os players. Isso vai se perder por o evento ser online, acho uma pena. Eu não vou mais a evento por conteúdo porque eu já atingi um grau de maturidade em relação ao tema. Isso dito, o grande valor de um evento online que visa educação é aumentar o número de pessoas que estão sendo sensibilizadas por conteúdo de alta qualidade. As pessoas não vão, da noite para o dia, entender completamente de Cannabis medicinal para sair prescrevendo, como tem gente que parece acreditar: que faz um curso de um fim de semana e sai prescrevendo. Mas é um primeiro contato importante que começa a aumentar a parcela da população médica e não médica que trata esse assunto de maneira séria.

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