“Cannabis não é só um remédio, é uma farmácia”, diz o neurocientista Pedro da Costa Mello

Formado em medicina em Cuba, Mello orienta outros médicos prescritores e quer criar uma rede para atender à demanda por Cannabis medicinal
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“Não podemos atender só quem tem dinheiro”, diz o sergipano Pedro da Costa Mello, que atende pelas associações Acolher de Recife e Cultive de São Paulo. O neurocientista clínico é também acupunturista, especialista em dor e terapeuta psicodélico. Além dessas especialidades, desde 2014 seu foco é a Cannabis medicinal. Faz atendimento particular e social, dá aulas, orienta médicos e novos pacientes.

Formado na Escuela Latinoamericana de Medicina de Cuba, em 2006, Mello saiu em sabático e emendou a participação na brigada cubana Henry Reeve no Haiti em 2010. “É o exército de jaleco branco”, ele conta, um projeto que leva ajuda a diversos países onde não há muitos profissionais da saúde.

Em 2014, Mello fazia sua residência em acupuntura e dor na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), quando participou do IV Simpósio Internacional da Cannabis Medicinal. Como médico pesquisador, ele já tinha ouvido falar da planta. Entretanto, depois do simpósio, viu que já havia muito material a respeito. “Como eu lamento não ter lido o livro do Sidarta Ribeiro em 2007”, Mello diz. Conheceu o sistema endocanabinoide e encontrou estudos clínicos do professor Elisaldo Carlini e Raphael Mechoulan. Naquele mesmo ano, Mello começou a prescrever Cannabis.

Vida à rede

No trabalho particular, Mello divide seu tempo entre o atendimento clínico e disseminação de informação. Tem cursos voltados para médicos desde 2017, onde ensina a prescrever Cannabis. A ideia de Mello é ter uma rede de médicos que trabalhem com o mesmo protocolo, para que ele e seus parceiros possam encaminhar os pacientes.

“Com um grupo de pessoas falando a mesma língua, fica mais fácil de atender à demanda e me dedicar mais às pesquisas”, ele planeja. Segundo o neurocientista, a demanda de pacientes por tratamento com Cannabis é grande e continuará assim por muito tempo.  

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Ele também auxilia pessoas e empresas que queiram entrar no mercado da Cannabis, com informações e suporte sobre o mercado brasileiro, produção da planta, envio de insumos. Nesse trabalho, Mello tem uma equipe multidisciplinar com médicos e farmacêuticos.

Nas associações Acolher e Cultive, ajuda nas comissões clínicas e de pesquisa. “As pessoas não sabem, mas podem ter o tratamento canábico ideal, garantido pela associação”. Mello quer, com seus cursos, engrossar o time de médicos para atendimento nas associações também.

Desobediência civil

O óleo das associações é produzido pelos próprios associados. Na Acolher, Mello conta que eles criaram um mecanismo onde um grupo de consegue plantar e atender à demanda, sob orientação de uma comissão de pesquisa científica. Com foco em incentivar o cultivo com qualidade garantida, eles seguem um um protocolo de produção: cuidado com a terra, fertilizante, colheita, chegam a fornecer a lâmpada correta para iluminação das plantas. Também é garantido o processo para liminar na justiça pelo direito desse plantio: prontuário médico, jurídico, laudo com melhora do paciente. Os óleos podem até ser mandados para o Instituto do Cérebro para pesquisas. Mello chama o processo de fumaça do bom direito, porque, com decisões individuais para salvo condutos para plantio, a associação pode aplicar ao coletivo.

Casos de sucesso 

Mello conta que recebe frequentemente áudios de relatos impressionantes, que vão desde remissão de sintomas a melhora significativa de qualidade de vida. No autismo, melhora a ansiedade, a seletividade alimentar, o baixo limiar à frustração, que frequentemente evolui para agressividade.

Em pacientes com Alzheimer, a Cannabis melhora a cognição, memória, equilíbrio motor, humor. Ele conta a história de um paciente que estava catatônico na cadeira de rodas e hoje caminha na praia. 

Lembra ainda de outro paciente que tem nevralgia do trigêmio (dores no rosto). Os benefícios para esta doença ainda não foram estudados a fundo. Mas a prática confirmou o efeito da Cannabis: com apenas duas gotas do óleo certo, o paciente saiu de dores lancinantes para apenas dez minutos de dor ao acordar. Mello recomendou ainda a vaporização para os momentos de crise.

O maestro dos sistemas

“A Cannabis é tão milagrosa que soa como discurso romântico de maconheiro que quer transformar em panaceia”. Para responder à desconfiança gerada por tantos resultados positivos em tantas doenças, Mello argumenta que Cannabis tem 1495 compostos, entre canabinoides, flavonoides, terpenoides, ácidos linoleicos e fitocanabinoides. Com tantas substâncias, os efeitos são os mais diversos: ansiolítico, antioxidante, antiespasmódico, anti-inflamatório, analgésico.

“Tem que entender que o tratamento (com Cannabis) não é o de dar mais um remedinho”, ele argumenta. “Tratar com Cannabis é uma abordagem terapêutica diferente, é a opção de fazer uma medicina como um todo”.

Mello explica que, ao receitar Cannabis, o médico passa ao paciente uma dose extra, similar àquilo que o corpo já fabrica, para modular um sistema que atua como maestro dos demais sistemas. Por isso modula sono, dor, crescimento ósseo, imunidade: “Você vai no maestro, e não no violinista”, ele conclui, reforçando o efeito da planta no sistema endocanabinoide, que regula os demais sistemas.

O neurocientista usa cinco máximas para explicar a variedade de aplicações da Cannabis:maconha não é apenas um remédio, é uma farmácia;

  • não existe a Cannabis, existem várias Cannabis – são vários tipos de plantas. Algumas podem trazer melhora, outras até piora;
  • a posologia, o horário de administração e objetivos devem ser levados em consideração;
  • o tratamento ideal é com acompanhamento de profissional capacitado;
  • a maconha é uma planta usada há milhares de anos e foi descrita na primeira farmacopeia, a chinesa. 

Efeito entourage

Mello lembra que que “até hoje nenhum ser vivo morreu por quantidade excessiva de canabinoide”. Assim como qualquer fitoterápico, a Cannabis apresenta o efeito comitiva (ou entourage), por isso Mello desaconselha o uso de isolados: “O composto isolado é mais fácil de o corpo acostumar. Cria tolerância, gera sobredose e diminui a segurança”. “O Ministério da Saúde do Canadá trabalha com 400 cepas”, conta para lembrar a variedade de quimiotipos da planta. 

Até os cachorros de Mello são tratados com Cannabis e ele alerta que, também com eles, a conduta é baseada no diagnóstico e avaliação. Para o médico, os resultados foram surpreendentes. Um tem síndrome da cauda equina, que causa perda de função das raízes nervosas da região. O cachorro morde o rabo, fica violento, perde o apetite. Os outros dois têm displasia, um deles arrastava a perna traseira. Mello conta, orgulhoso, que estão todos assintomáticos. 

E finaliza: “Não deixe a maconha como última opção”. 

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