Evento discute o mercado e inovação da Cannabis medicinal no Brasil e mundo

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We Need to Talk About Cannabis trouxe especialistas em diversas áreas para discutir o cenário da Cannabis medicinal, as perspectivas de regulamentação e expectativas de negócios do setor

Nós precisamos falar sobre Cannabis. Não apenas como uma alternativa de tratamento segura e viável em uma gama de doenças crônicas e, em alguns casos, incuráveis por medicamentos convencionais, mas como uma oportunidade de negócios para o Brasil. 

De ilegal para essencial, a cannabis medicinal pode ajudar muitos pacientes, além de gerar empregos e girar a economia do setor farmacêutico. Ainda travada em burocracias, os maiores nomes do setor nacional e internacional trarão cases de sucesso e os próximos passos que devemos seguir.

A indústria da cannabis deve faturar globalmente US$ 22 bilhões até 2022, segundo a Brightfield Group. Embora ainda muito iniciante, os números apontam que esse mercado é promissor no Brasil. 

De acordo com um levantamento de empresas especializadas, como a New Frontier Data, o número de consumidores no País pode chegar a 3,4 milhões em apenas três anos, após a liberação da venda legalizada.

Com isso, o segmento poderia movimentar cerca de R$ 4,4 bilhões. Este valor equivale a 6,3% do total do faturamento da indústria farmacêutica no Brasil, que de acordo com os dados do último Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico, foi de R$ 69,5 bilhões em 2017.

Esses foram alguns dos dados apresentados no WNTC (We Need to Talk about Cannabis), um congresso realizado nesta terça-feira, 30 de novembro, no São Paulo Expo, e organizado pela Abiquifi(Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos) e pela NürnbergMesse Brasil.  

Confira o que rolou de melhor durante o evento: 

Abertura

O primeiro debate do dia contou com a participação de Willian Dib, ex-presidente da Anvisa. “Quando cheguei na Anvisa, não entendia nada de Cannabis”, afirmou. “A pressão da sociedade foi um grande fator para a gente se mexer e tentar entender o processo que estava acontecendo na sociedade, na área científica, médica, e dos pacientes, que acumulavam pedidos de importação e ações judiciais.”

Dib explica que tomou a iniciativa de criar uma comissão para analisar o que havia de melhor no mundo sobre a legislação sobre Cannabis medicinal. “Queríamos quebrar o paradigma de que não e podia usar o medicamento por ser uma droga proscrita. O ópio também é, mas temos mais de 300 produtos aprovados. Ópio pode e Cannabis não?”

“A Cannabis é uma droga extremamente segura. Mais fácil de fazer pesquisa que o paracetamol, pois não tem patente exclusiva. É seguro fazer pesquisa e se mostra eficaz para tratar uma série de doenças que não tem outros medicamentos. Uma droga que na área médica se torna extremamente importante.”

Regulamentação no Brasil

No entanto, Dib apontou limitações em seu trabalho. Afinal, a Anvisa pode liberar medicamentos, mas ainda faltam leis que regulamentem de uma vez o acesso e produção dos medicamentos à base de Cannabis no Brasil. Uma realidade que o deputado federal Luciano Ducci (PSB-PR) está trabalhando para mudar.

Ducci é relator da PL 399/2015 e também participou do debate de abertura do WNTC. O deputado explicou como está a tramitação do projeto no Congresso Nacional. “A maioria dos deputados se envolveu de maneira muito positiva, entendendo as vantagens dos medicamentos à base de cannabis trazem para um número grande de pacientes que foram à comissão e demonstraram como a Cannabis influenciou sua vida”, afirmou Ducci.

No entanto, na reta final da votação, as discussões ficaram mais complicadas. “Nas últimas sessões, houve uma substituição grande de parlamentares por quem é ideologicamente contra o uso da Cannabis. Eles não participaram das votações e chegaram trabalhando contra, espalhando muita fake news.”

A votação apertada na comissão especial que discutiu a PL 399 deu parecer favorável ao texto do projeto. No entanto, os deputados contrários entraram com recurso e agora deve ir a votação na Câmara dos Deputados. “Infelizmente, tem muita gente que tenta atrapalhar a votação. Tenho convicção que na Câmara temos maioria para derrubar o recurso para que a votação vá para o Senado Federal.”

Formulação de óleos canabinoides em formas de dosagem sólidas orais

De caráter mais técnico, Tayna Oliveira de Carvalho, Technical Customer Service Manager da WR Grace, falou sobre procedimentos que garantem a pureza e maior eficácia dos medicamentos canabinóides. A empresa é produtora da sílica cromatográfica, que traz diversos benefícios e possibilidades à composição da Cannabis medicinal.

“É um material que tem intraporosidade com partículas grandes. Se assemelha a uma esponja e tem a vantagem de ser um material mais denso, pesado, que nos dá a possibilidade de trabalhar melhor no processo de formulação do medicamento de Cannabis”, afirmou Carvalho. 

“Nos canabinoides, temos diversos desafios. É um  material de origem natural e tem grande variabilidade. Precisamos de soluções para reduzir essa variabilidade na qualidade. Também tem baixa biodisponibilidade. Pode ser trabalhado com a sílica para melhorar a absorção do medicamento pelos pacientes.”

Segundo a especialista, a sílica também ajuda no processo de purificação do óleo da Cannabis, removendo ceras naturais da planta, mas sem interesse médico. Assim como a clorofila, que proporciona sabor e aroma rançosos à formulação.

Dependendo da forma como a Cannabis é produzida, ela também pode trazer contaminações por metais pesados , pesticidas e hidrocarbonetos aromáticos que afetam diretamente a qualidade final do produto. A sílica cromatográfica ajuda a “limpar” o medicamento, além de facilitar na separação entre os fitocanabinoides de acordo com o interesse médico. 

Tecnologias e dados – Patentes

O painel mediado pela advogada especialista em patentes Aline Ferreira de Carvalho da Silva, sócia da Kasznar Leonardos Advogados, tratou das oportunidades de inovação que podem ser adquiridas ao estudar as patentes de empresas de todo o planeta. 

A apresentação teve como base no relatório “Cannabis – Pesquisa, Inovação e Tendências de Mercado”,  produzido pela Green Hub, uma empresa que através da inovação auxilia no avanço do desenvolvimento do setor da Cannabis no Brasil e no mundo, com dados produzidos pela Clarivate Analytics.

“O relatório capturou informações de mais de 7 mil documentos globalmente e foi traduzido para mapear quem são as empresas e pessoas que estão por trás do desenvolvimento da Cannabis”, afirmou Ricardo Horiuchi, Consultor de inovação da  Clarivate Analytics. “Conseguir ter um panorama de quem está pesquisando, publicando artigo, os pesquisadores, mas também que está conseguindo se apropriar e proteger as informações.”

“A informação é pública, disponível, mas poucos têm acesso. Como tem um linguajar acadêmico científico. Esse foi o pano de fundo para compor esse relatório. A cada vez que vejo o relatório, algumas coisas começam a  despontar. Oportunidades começam a despontar.”

“O relatório é um termômetro. A China há muitos anos dominava o setor de patentes de Cannabis, pois mantinham um foco correto, não olhando  planta como uma droga, se desenvolveram”, disse Alex Lucena, Sócio e Diretor de inovação da The Green Hub.

“A partir dos anos 2000, migrou para Canadá e EUA. Uma commodity que se quebra em dois tipos de planta, o cânhamo e a cannabis. Delas, quebra em 5 vertentes. Industrial, com biocombustíveis, bioplástico, têxtil, material de construção. De saúde e bem-estar, com cosméticos, alimentos, suplementos alimentares. Farma, que no Brasil está liderando. Uso adulto, que na América Latina está longe, mas é um grande mercado. E o agronegócio.”

Já Marcelo De Vita Grecco, co- fundador e Business Development da The Green Hub, observa a Cannabis como uma nova revolução na humanidade. “Eu comparo a Cannabis, enquanto inovação tecnológica à internet.  Em 95, estava em uma feira, e estava surgindo a internet. Estava em um estande e tive a sorte de tá lançando uns dos primeiros websites do Brasil”, lembrou. 

“A Cannabis vai ter um grande poder de transformar as empresas e indústrias como a internet. A diferença é que era uma nova tecnologia que ninguém usava. A cannabis, eu não creio que sejam as poucas pessoas no mundo que tenham familiaridade com o uso da planta. A relação da planta com o homem é milenar. A descoberta do sistema endocanabinoide que é transformadora.”

Cenários e perspectivas para testes clínicos que envolvem a indústria da Cannabis

O painel de encerramento do WNTC abordou toda a trilha regulatória que envolve a liberação de medicamentos à base de Cannabis no Brasil. De acordo com o mediador do debate, o gerente executivo da Associação Brasileira das Organizações Representativas de Pesquisa (ABRACO), Fernando Francisco, embora envolva muitas etapas, o processo não é tão complicado quanto parece. 

“Para quem não conhece o tema, pode ficar assustado. Processo longo, mas dinâmico. Todos os produtos que estão na farmácia passaram por isso e, em geral, um medicamento leva  entre 7 e 8 meses para percorrer o caminho regulatório.”

Kelly Mattana, gerente de assuntos regulatórios e logística para a América Latina da Intrials – uma empresa especializada na condução de testes clínicos, há a expectativa que esse prazo pode ficar ainda menor. 

“Vejo de forma positiva o ambiente da pesquisa clínica, com toda essa movimentação dos estudos de covid. Os prazos, que eram de muitos meses, a Anvisa se mobilizou para resolver o primeiro parecer em dez dias. Me dá esperança de que possa influenciar outras indicações.”

“A parte ética dos comitês fizeram avaliações muito rápidas. Embora haja limitação de recursos nos órgãos públicos, essa agilidade que demonstrou nos últimos meses deixa muito animada para a celeridade do processo”, continuou.

De acordo com o biomédico, médico e doutor em clínica médica e farmacologia clínica, dr. Hilton Filho, existem muitos testes clínicos em andamento. “Tem cerca de 200 patentes de Cannabis em andamento. Temos que ver o que vai se consolidar”, afirmou o especialista, que é CEO da Ethos innovation in Medicine, conselheiro e sócio da Phytobios e Diretor médico e de P&D do Lacann Group.

“Uma universidade quando faz um estudo, não quer dizer que vai virar um produto. Pode virar uma prova de conceito”, afirmou. “São mais de 2.000 pesquisas acadêmicas.”  

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