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Médico brasileiro pesquisa canabidiol contra lesões cerebrais em atletas

A concussão é uma lesão cerebral leve, mas que se for recorrente pode levar à demência e à morte. Comum em atletas de esportes mais violentos, ela foi o principal motivo que levou a Liga de Futebol Americano dos EUA (NFL) a iniciar estudos clínicos sobre a Cannabis como medicamento neuroprotetor. Esse movimento da NFL foi pioneiro e inspirou outras entidades esportivas a investirem nas pesquisas com canabinoides para atletas. Tanto que hoje o canabidiol não é mais uma substância proibida pela Agência Mundial Antidoping (WADA), e o limite para o THC aumentou em 10 vezes.

O neurologista Dr. Renato Anghinah é referência no Brasil em estudos e tratamentos para distúrbios do cérebro, sobretudo dentro do esporte, e é o médico do Sindicato dos Atletas de São Paulo. Também é pesquisador e prescritor de Cannabis medicinal há anos. Em 2020, tornou-se diretor médico global da HempMeds, uma das principais empresas de canabidiol dos EUA com atuação no Brasil. Ele está à frente de um estudo no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP sobre Encefalopatia Traumática Crônica (ETC), o nome oficial da doença que atinge esses atletas.

Dois casos que se tornaram célebres no Brasil foram dos ex-boxeadores Maguila e Éder Jofre. Eles são pacientes do Dr. Anghinah e, após iniciarem o tratamento com o canabidiol, apresentaram melhora significativa.

“Ambos chegaram a mim praticamente em estado terminal, com diagnóstico de Alzheimer, mas era ETC provável. Na época, não era culpa de médico, se falava muito pouco nisso. Mas eu tinha acabado de voltar dos EUA especificamente para estudar esse tema, então estava com o assunto fresco. Nós conversamos com a família sobre a possibilidade do uso da Cannabis. Ambos se beneficiaram muitíssimo. E nós temos agora aberto um caminho de estudos nessa área cognitiva dentro da universidade com produtos da HempMeds para poder abrir um outro campo além dos já notórios estudos sobre a Cannabis”.

O portal Cannabis & Saúde, que está com o projeto CBD no Esporte em função das primeiras Olimpíadas do canabidiol, fez uma entrevista exclusiva com o CMO da HempMeds, que você confere a seguir. Falamos sobre esse novo momento que vive a Cannabis dentro do ambiente esportivo e as últimas descobertas da ciência sobre canabinoides e esporte.

Leia a entrevista!

 

Neurologista Renato Anghinah é diretor médico global da HempMeds

Nos EUA, é uma grande preocupação no meio esportivo as concussões, causadas em atletas de modalidades mais violentas, como hóquei, futebol americano e artes marciais mistas. Antes de entrarmos no assunto, explica pra gente o que é uma concussão, quais as causas e consequências dessa condição?

Concussão é um trauma de crânio leve. É muito comum associar esse trauma no Brasil ao nosso futebol quando os jogadores sobem para cabecear a bola, chocam a cabeça um do outro e caem desnorteados no gramado. Mas não obrigatoriamente requer que o indivíduo perca a consciência. 

Traumas repetidos podem levar, não obrigatoriamente, a uma enfermidade futura. O melhor exemplo que nós temos é o esporte, mas outras situações também podem acontecer, como um soldado em missões militares. Além disso, tem a pessoa que bate a cabeça no armário, fazendo esporte no final de semana e, algo bastante comum, é o trauma repetido por violência doméstica, tanto em criança, mas principalmente contra mulheres.

No MMA, o objetivo do esporte é a concussão. É até absurdo do ponto de vista médico. E esses traumas repetitivos podem levar, em 30% dos casos, à encefalopatia traumática crônica (ETC), que é uma demência. Ou se você não tratar o atleta imediatamente após o trauma, que é a síndrome do segundo impacto, o cérebro pode inchar, e o lutador entrar em coma, o que pode levar inclusive à morte.

Atletas dos esportes mais praticados aqui no Brasil, como futebol, futsal, também devem se preocupar?

Sim. Inclusive um dos três primeiros artigos publicados sobre ETC num jogador de futebol foi publicado no Hospital das Clínicas, eu foi um dos participantes, com o jogador Bellini, capitão da Copa de 58. A família doou o cérebro dele para a USP, e ele é o terceiro jogador de futebol que se comprovou que faleceu em virtude da ETC. Então, os jogadores de futebol não estão livres desse problema. Claro que é muito menos intenso do que um jogo de hóquei ou de futebol americano, ou lutas.

Encefalopatia traumática crônica é o que a imprensa costuma chamar de demência do pugilista?

Antigamente, se dava vários nomes para essa doença. Desde 2005, foram unificados numa doença só, com apresentações clínicas diferenciadas. Então: encefalopatia, uma doença do encéfalo; traumática, causada por traumas repetidos; e crônica, porque são repetidas ao longo da vida. Esses pacientes antigamente apresentavam um quadro parecido com parkinsonismo, então já foi chamado de parkinson pugilístico. Mas hoje o nome adotado é encefalopatia traumática crônica, que engloba todos esses nomes anteriores.

A Liga de Futebol Americano dos Estados Unidos (NFL) foi uma das primeiras entidades esportivas a defender mais estudos sobre a Cannabis no esporte, e hoje há pesquisas sobre o uso dos canabinoides inclusive contra a concussão. Que movimento é esse em defesa da Cannabis no esporte e ela pode de fato ajudar contra as concussões e outras condições que envolvem atletas?

Recentemente a NFL liberou uma verba milionária para estudos com a Cannabis. Eles realmente estão se envolvendo com isso. São três motivadores. A liga é muito pressionada a proteger o cérebro dos jogadores, já que existe uma ligação muito grande entre lesões e ETC. Existem estudos imensos sobre isso até de jogadores que faleceram. A NFL já perdeu processos contra associações de ex-jogadores por conta disso. Então, foi motivado por um anseio popular e questões judiciais.

Estudos em animais mostram a ação potente da Cannabis em relação a efeitos antiinflamatórios e neuroprotetores. É daí que vem a ideia de usar Cannabis para proteger o cérebro desses atletas. Mas ainda não temos estudos clínicos muito bem feitos que demonstrem isso em humanos. Isso motiva a NFL a investir nesse setor, principalmente quando a gente pensa no canabidiol isolado. E ainda tem uma questão mais interessante. A Wada, que controla o antidoping mundial, permite o canabidiol isolado desde 2017. E essas estão sendo as primeiras Olimpíadas com o uso liberado do CBD. E em 2021, passa a ser proibido o uso de corticóides, que eram muito indicados por médicos do esporte.

Olha que interessante: uma coisa que muita gente usa sem preconceito como corticóide agora é doping, e o canabidiol, que sempre foi marginalizado, não é mais. Isso foi um divisor de águas na medicina esportiva! E acho que depois das Olimpíadas, vai ficar muito sedimentado.

Agora, falando no Brasil, nós temos um exemplo famosíssimo que é o do Maguila, que começou a fazer tratamento com canabidiol e está apresentando uma melhora significativa. Você é o médico dele, então nos conta sobre o tratamento.

Por questão ética, só posso revelar o que a família revela na mídia. O Éder Jofre também é nosso paciente, ambos chegaram a mim em condições praticamente em estado terminal, com diagnóstico de Alzheimer, mas era ETC provável. Na época não era culpa de médico, se falava muito pouco nesse assunto. Mas eu tinha acabado de voltar dos EUA especificamente para estudar esse tema, então estava com esse assunto fresco. E para deixá-lo menos ansioso em função da pandemia, nós conversamos com a família sobre a possibilidade do uso da Cannabis. Hoje, ambos estão fazendo uso.

O Maguila faz um uso mais intermitente, quando tem maior necessidade, e o Éder Jofre usa continuamente. O Maguila tem muito mais ansiedade. Mas ambos se beneficiaram muitíssimo. E nós temos agora aberto um caminho de estudos nessa área cognitiva dentro da universidade com produtos da HempMeds para poder abrir um outro campo além dos já notórios sobre a Cannabis.

Você é o médico do Sindicato de Atletas SP. Como você vê a Cannabis dentro desse ambiente?

Essas barreiras vão sendo quebradas paulatinamente. As pessoas responsáveis pelo controle antidoping no país são extremamente competentes, participam de encontros internacionais, estão em contato com a Wada o tempo todo. Isso facilita esse trabalho de conscientização dos departamentos médicos, por exemplo, na Confederação Brasileira de Futebol. Porque eles têm mais resistência ao canabidiol do que o atleta. Muitas vezes o atleta nos procura, e nós dissemos “procure o seu departamento médico, e se o departamento quiser entrar em contato conosco a gente explica”.

Já no universo de lutas, esse preconceito praticamente já não existe mais. Muitos brasileiros vão lutar nos EUA, onde a coisa está mais esclarecida. Em outros esportes mais tradicionais, onde esse tipo de controle é diferente, o departamento médico não quer correr o risco do atleta cair no antidoping. Mas o próprio sindicato dos atletas realizou no ano passado o primeiro simpósio de neurologia no esporte, e teve um bloco inteiro sobre o canabidiol. A gente contou com grandes especialistas falando sobre isso e percebemos que ainda há muita dúvida.

Apesar dessas serem as primeiras Olimpíadas com o CBD liberado pela agência mundial antidoping, o THC ainda é proibido dentro do período de competição. Qual a sua opinião sobre isso? Essa proibição está ligada a uma questão mais moral do que científica?

Eu acho que não. Em recuperação de atletas com processos dolorosos, por exemplo, num pós-cirúrgico, e esse indivíduo não vai participar imediatamente de uma competição, a gente inserir o THC seria bastante interessante. Durante as competições, doses muito pequenas não têm influência no desempenho do atleta e não vão burlar a ética do esporte, que é competir de igual para igual. Mas o grande problema é estabelecer o limite de THC. 

Eu sou a favor de que, por enquanto, não se use o THC, apenas o canabidiol, que não vai ter interferência no resultado e traz um bem-estar ao atleta, enquanto ainda houver essa interrogação da dose do THC no resultado esportivo. Isso tem que ser mais estudado e, quando tivermos segurança no limite dessa dose e puder ser provado que não há uma mudança no desempenho do atleta, aí ok. Mas obviamente que os benefícios do THC fora da competição devem sim ser pensados como uma forma de recuperação mais rápida.

Nos Estados Unidos e alguns países da Europa, não é sequer necessária receita médica para produtos com canabidiol, enquanto que aqui no Brasil precisa, não só da receita, mas autorização da Anvisa para importação. Os atletas do Brasil estão em desvantagem com relação aos competidores onde o CBD é mais acessível?


No Canadá, por exemplo, é muito difícil encontrar o canabidiol isolado, você encontra mais o full spectrum. Então esses atletas, é possível que nem vão usar nas Olimpíadas. Podem usar nos treinos. Por outro lado, nos EUA você encontra composto isolado e com níveis mínimos de THC de forma corriqueira. Encontra-se em supermercado, em posto de gasolina… 

Mas eu penso que um olhar médico é necessário. É uma questão de fazer o melhor uso de uma substância que pode ajudar, mas usado de forma errada não vai trazer benefício. É como se fosse comprar um remédio sem receita. Você vai no seu médico, que vai te dizer qual remédio e qual a posologia. Obviamente que uma legislação menos restritiva poderia dar maior acesso a pessoas que precisam para o uso medicinal, inclusive com preços mais acessíveis. Então eu sou a favor de flexibilizar, mas também simplesmente deixar sem organização nenhuma a gente já sabe, o Canadá é um exemplo, nem sempre é a melhor solução.

Marcus Bruno

Jornalista especializado no setor de Cannabis; editor do portal Cannabis & Saúde.

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