Os 6 elementos essenciais do cultivo de Cannabis

Espaço, terra, luz, água, matéria prima e tratos culturais são questões decisivas para o plantio de Cannabis. Saiba mais neste guia para o cultivo indoor e outdoor.

A cannabis é uma planta pioneira emergente. Isso a coloca no mesmo grupo daquele mato que nasce primeiro no seu quintal. Na prática, quer dizer que ela brota e cresce rápido, mas também é um concorrido alimento para diversos seres que vivem por aí, do fungo ao seu gato.

Ou seja, plantar Cannabis não é difícil. Complicado é manter a planta saudável, sem virar comida de nenhum bicho, até a hora de soltar suas flores. Mais desafiador ainda é abastecer a planta com todos os nutrientes e condições para que ela produza o máximo de flores possível, com a máxima concentração dos canabinoides desejados.

Para atingir esse objetivo, são diversos os pré-requisitos, escolhas e caminhos. Cada um vai ter que definir seu objetivo e se adaptar às condições. Por sorte, os mais de 10 mil anos de cultivo da Cannabis deixaram dicas suficientes para um cultivo de sucesso.

1º) Espaço

Definir o lar das plantinhas é uma questão fundamental. A primeira coisa a ter em mente, dentro da realidade da legislação, é a privacidade. É fundamental que sua plantação fique longe dos olhos e narizes dos vizinhos, seja em ambiente fechado ou aberto. Evitar problemas com a polícia vale qualquer cuidado extra, então é bom pensar bem antes de plantar no jardim ou de colocar vaso para tomar sol na janela do apartamento.

Tirando as questões legais, a opção pelo cultivo aberto (outdoor) ou fechado (indoor) é uma questão de controle e investimento. Nos cultivos fechados é possível manter tudo sob controle. Os nutrientes da planta, incidência de luz, umidade, ventilação, temperatura.

Isso envolve equipamento, e, consequentemente, investimento. Nas luzes, exaustores e, em alguns casos, até em estrutura. Sem falar na conta de luz, que ultrapassa a casa da centena de reais mesmo nos menores cultivos.

Já nos cultivos abertos, a Cannabis pode ser plantada junto com a alface de sua horta, sem demanda de grandes investimentos. Mas dá trabalho. Sem o controle do ambiente fechado, é preciso mais atenção para pragas e doenças de seu cultivo.

2º) Terra

A escolha do tipo de plantio, se é aberto ou fechado, está diretamente relacionado ao solo sobre o qual a planta vai crescer. Em ambientes fechados, a forma mais prática de cultivar é sobre algum substrato inerte. Ou seja, alguma coisa que não vai se decompor durante a existência da planta, como misturas de fibra de coco, turfa seca ou vermiculita.

Como esses substratos não possuem qualquer nutriente para planta, servindo somente de meio para ela fixar suas raízes, será necessário adicionar tudo o que a planta necessita para ela sobreviver. Esses nutrientes são vendidos com fórmulas prontas, bastando seguir as instruções do rótulo.

Para quem não quer misturar fertilizantes químicos com suas plantas medicinais, o cultivo orgânico é uma opção viável. É verdade que dá mais trabalho, pois o controle total se vai, e não existe uma bula para seguir, mas até isso pode ser uma vantagem.

Além de não existir o risco de errar a mão na dose e matar as plantas pelo excesso, os fertilizantes orgânicos trabalham na contramão dos químicos, pois, no lugar de exterminar, aumentam a vida na terra.

Os nutrientes precisam ser solúveis, ou seja, dissolvidos em água, para serem absorvido pelas plantas. Os compostos químicos prontos já vem desse jeito. Ao colocar na planta, ela absorve o que necessita e o excedente fica lá no meio. Ele se cristaliza em sais que se tornam tóxicos para o solo. Se for um cultivo em um substrato inerte, é só lavar tudo antes da floração e depois da colheita – embora isso vá acabar contaminando a água em outro lugar.

Os fertilizantes orgânicos, como pó de rocha, húmus de minhoca, torta de mamona ou farinha de osso, não são solúveis. Eles precisam de uma complexa rede de bactérias, fungos e invertebrados para tornar os nutrientes disponíveis para as plantas. Assim, quanto mais rico em matéria orgânica o solo, mais desses seres estarão trabalhando para entregar os nutrientes na medida que a planta precisa.

Ao manter o solo rico em vida e matéria orgânica, o mini-ecossistema criado vai se encarregar de manter a terra aerada – algo fundamental para a cannabis -, além de induzir a planta a produzir açúcares e aminoácidos complexos, que ácaros e insetos não conseguem digerir. O contrário acontece em cultivos com fertilizantes químicos, que viram açúcares solúveis nas plantas, e são os preferidos das pragas.

Aprenda quais são os melhores substratos para se cultivar

3º)  Luz

A origem da Cannabis está na Ásia, em uma zona de clima temperado, com verão de dias longos e inverno frio de dias curtos. Assim, ela evoluiu para germinar e crescer durante primavera e verão, dar flores no outono, quando dia e noite tem praticamente a mesma duração.

O objetivo é soltar as sementes antes do inverno, quando as plantas morrem. As sementes, equipadas com mecanismo de dormência que as impedem de germinar no meio do frio, aguardam para recomeçar o ciclo na primavera. O cultivo deve imitar essas condições. Viver em um país com predominância do clima tropical tem suas vantagens.

Por aqui, não existe tanta mudança na duração dos dias e noites ao longo do ano. Quanto mais perto da Linha do Equador, menor essa variação. Assim, apesar das plantas não crescerem tanto quanto diante de dias com 20h de
luminosidade, o fato de não termos noites curtas em nenhuma época do ano – nem invernos congelantes-, faz com que seja possível o cultivo o ano todo.

Já no cultivo em ambiente fechado, é possível criar o ambiente de luz ideal para a planta. Em geral, são 18 horas de luz direta com seis de escuridão durante o crescimento da planta, chamado de período vegetativo. Já na época de floração, são 12 horas de luz, para 12 horas no escuro. Dá até para instalar um timer para correr o risco de esquecer de acender e apagar a luz.

Uma planta de Cannabis precisa receber, pelo menos, 2000 lumens por pé quadrado (30,48cm x 30,48cm). É o equivalente a um pequeno holofote de iluminação urbana.

Entretanto, quando mais luz, maior vai ser a taxa de fotossíntese e crescimento da planta. O ideal é uma iluminação de 7.000 a 7.500 lumens por pé quadrado. Qualquer faixa intermediária entre os dois valores, vai fazer sua Cannabis crescer. São diversas as opções de lâmpadas disponíveis. As mais eficientes são as HPS (alta pressão de sódio) ou HQI (vapor metálico).

O problema é que, além de consumirem mais energia, esquentam muito. Assim, acaba demandando sistemas de ventilação ou até de ar condicionado, já que as plantas não aguentam temperatura acima de 30ºC por muito tempo. Lâmpadas de LED, mais caras, ou fluorescentes, menos eficientes, são outras opções.

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Imagem: Zamnesia

4º) Água

A principal questão da água no cultivo de Cannabis é o pH. Dependendo do pH, a planta absorve mais ou menos determinado nutriente. No geral, ela costuma estar suficientemente nutrida em solos ligeiramente ácidos, com pH entre 5,8 e 6,8. Esse controle é fundamental principalmente em cultivos convencionais. Um medidor de pH pode ajudar a fazer o trabalho.

Em cultivos orgânicos, o próprio equilíbrio da vida no solo mantém o nível do pH entre 6 e 6,5, bom para o crescimento da cannabis e da maioria das plantas. Caso a terra esteja degradada ou não seja suficientemente fértil, calcário, cinzas e pó de osso ajudam a controlar o pH.

Também é importante cuidar na dose da água. Cannabis não tolera solos encharcados, e até curte um tempinho de terra seca de vez em quando. Enfiar o dedo na terra para ver se abaixo da superfície está úmido, mas não molhado, é o melhor jeito de manter esse controle.

How and when to give water to your cannabis plants
Imagem: Cannaconection

5º) Matéria prima

Se você não conhece ninguém que planta, o desafio é encontrar sementes. Ainda mais sementes selecionadas e cruzadas entre as Cannabis indica, sativa e ruderalis, que contenham exatamente as propriedades e características desejadas.

Um caminho é a importação. São diversos sites na internet, inclusive em português, que colocam a disposição as mais diversas variedades de Cannabis. Em meados de 2019, o ministro do STF Celso de Mello emitiu parecer em que define que a importação de pequenas quantidades de sementes de Cannabis não é crime.

Apesar disso, ainda não existe segurança jurídica o suficiente que permita a importação despreocupada, sob o risco de ter que responder por tráfico internacional de entorpecentes. Nas redes sociais é possível encontrar pessoas que importam em grande quantidade e vendem por aqui.

Para quem tem a oportunidade de escolher a semente que quer plantar, o que não falta é opção. Além das escolha por cor, aroma ou concentração de terpenos, quando se trata de semente, existem três tipos: as regulares, com 50% de chance da planta ser macho ou fêmea; as feminizadas, com certeza de nascerem fêmeas; e as automáticas feminizadas.

Essas últimas se diferem das outras por não precisarem de um fotoperíodo de 12h de escuridão para florescerem. Costumam formar plantas menores e que florescem mais rápido, mas demandam um fotoperíodo grande de luz durante toda a vida. Assim, em cultivos abertos não crescem tanto aqui no Brasil, e nos fechados demandam muita luz, encarecendo a conta de energia.

Quando uma planta macho e uma fêmea dividem o ambiente, a polinização faz com que a fêmea produza sementes e, assim, ela põe menos força na formação das flores, o objetivo final do cultivo. Por esse motivo, quem não quer produzir sementes, costuma se livrar das Cannabis macho.

Se você não produziu sementes e quer dar sequência ao cultivo, uma opção é a estaquia. Consistem em basicamente tirar um pedaço da planta e fazer ela enraizar, resultando em uma planta com as exatas mesmas características da primeira. É chamado de clone na agricultura.

A desvantagem é que na propagação por estaquia, a planta não forma uma raiz pivotante, que entra profunda na terra, e, assim, se torna uma planta menos resiliente.

6º) Tratos culturais

Com ambiente preparado, tudo ajeitado, é hora de botar a planta para crescer. Quando já estiver com três a cinco pares de folhas, os chamados nós, é hora de fazer a poda apical. Ela consiste em cortar o topo da planta e, assim, no lugar de produzir flores somente na haste central, ela vai criar outras hastes e mais flores vão surgir.

É importante ir retirando folhas amareladas e mortas durante o crescimento, assim como pequenos brotos que crescem na base do caule e pequenos galhos que nascem para baixo a partir dos nós. Todos só vão desviar a planta do trabalho de fazer flor.

Faça as podas de preferência nos dias de lua minguante, quando a seiva da planta está concentrada em suas raízes. Da mesma forma, durante a lua cheia é o melhor período para a colheita, quando as flores concentram toda energia da planta.

A hora de colher é quando os tricomas, uns pequenos cabelinhos que dão na flor, começam a mudar de cor e ficar amarelados. O pós-colheita também é fundamental, podendo colocar todo trabalho a perder. É bom ficar atento às técnicas de secar sua produção para não perder todo seu trabalho para o mofo.

Fontes:
– Sergio Vidal – autor do livro Cannabis Medicinal Introdução ao Cultivo Indoor
– https://www.growroom.net/

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