Mechoulam destaca liberdade acadêmica do Brasil e pede estudos clínicos

"Pai da Cannabis" participou do Medical Cannabis Summit e defendeu que somente com mais estudos clínicos a classe médica brasileira vai deixar de ser reticente ao uso medicinal da espécie
Mechoulam destaca liberdade acadêmica do Brasil e pede mais estudos clínicos

O público brasileiro pode se aproximar e conhecer um pouco mais o professor Dr. Raphael Mechoulam, nesta semana, durante o Medical Cannabis Summit. O químico búlgaro-israelense é considerado o “pai” da Cannabis e, na abertura do evento, contou sua história e descobertas, depois respondeu perguntas dos participantes.

Foi Mechoulam quem descobriu os mais conhecidos princípios ativos da Cannabis. Em 1963, ele isolou o Delta-9-Tetrahidrocanabinol (THC) e, em 1964, foi a vez do Canabidiol (CBD). Ele também contribuiu na descoberta do sistema endocanabinoide e na primeira pesquisa clínica em humanos sobre a ação da Cannabis em pacientes com epilepsia, na década de 70, junto do brasileiro Dr. Elisaldo Carlini.

Em 2019, Dr. Mechoulam anunciou para o mundo sua mais nova descoberta com o Ester Metílico do Ácido Canabidiólico. No Cannabis Summit, o cientista explicou como a descoberta pode alterar os ácidos canabidiólicos para mantê-los estáveis ​​o suficiente para uso farmacêutico em larga escala.

Após a explicação, o Pai da Cannabis respondeu perguntas dos painelistas e público sobre as aplicações terapêuticas da planta, entre outros assuntos. A entrevista foi conduzida por Igor Lopes, do Transformação Digital. Participaram da mesa Marcelo Galvão, Jaime Ozi, Andrea Farias e Paulo Vitor Souza, representando a Cantera | OnixCann, e eu, Marcus Bruno, pelo portal Cannabis & Saúde.

Entre as minhas perguntas, eu informei o professor Mechoulam de que o Conselho Federal de Medicina do Brasil não reconhece a Cannabis como uma planta medicinal. E que o CFM prevê apenas o uso do canabidiol e somente para pacientes com epilepsia. Então questionei como mudar a mente dos médicos brasileiros. E ele respondeu: com produção científica.

“Os médicos no mundo todo tem problemas com Cannabis por causa dos efeitos colaterais e porque não é legal na maioria dos lugares. E por causa do que se sabe há muitos ano.

Mas o canabidiol puro ainda será uma droga utilizada para muitas outras patologias, não apenas epilepsia. Talvez o CBD com uma dose de 1% a 2% seja melhor, agora isso tem que ser provado nos pacientes. E nós precisamos muito de estudos clínicos!

A medicina moderna é baseada em estudos clínicos. E se nós não temos estudos clínicos, os médicos vão olhar a Cannabis apenas outro extrato de plantas que pode causar efeito a ou b mas não ficarão felizes. Com bons estudos clínicos modernos, eu espero que não apenas para epilepsia, mas outras doenças, ele será muito bem aceito pela profissão médica, para muitas doenças que a gente precisa de novas drogas.

Se alguma coisa puder ser feita: façam estudos clínicos para onde o CBD se mostrou altivo. Cannabis medicinal pode ser qualquer coisa, e médicos modernos não gostam de usar isso dessa forma.

Cannabis & Saúde: Israel é conhecido como o país mais desenvolvido nas pesquisas sobre a Cannabis. O que faz de Israel levar esse título, além da pesquisa pioneira do senhor, e o que Israel poderia explicar aos pesquisadores brasileiros?

Obrigado por me dizer que Israel está tão avançado assim. Quando eu comecei a trabalhar com Cannabis, muitos anos atrás, eu era um jovem na época e estava no instituto de pesquisa da Universidade Hebraica. E universidades e institutos têm algo muito básico: eles permitem que o pesquisador escolha seu próprio objeto de estudo. A liberdade acadêmica é muito importante para o progresso da ciência. Você não pode ter alguém no topo dizendo o que os pesquisadores têm que fazer. É por isso que na União Soviética isso não deu certo.

Na América Latina, os pesquisadores são livres para escolher sua própria pesquisa. Eles tem que encontrar o dinheiro, mas podem decidir sobre suas pesquisas. Eu sou um pesquisador sobre produtos naturais, componentes encontrados nas plantas. Escolhi Cannabis, e ninguém estava trabalhando com a química da Cannabis naquela época.

Então isso que é importante, a liberdade acadêmica. Isso eu vi quando trabalhei com meus colegas da América do Sul, eles tinham a liberdade de seguir adiante numa área em que mais ninguém estava interessado. Então, em paralelo ao meu trabalho, vejo meus amigos em farmacologia, estudos clínicos, e só há muitas pesquisas devido a liberdade acadêmica.

Para conferir o painel na íntegra, é só assistir abaixo. Ao final do evento, Dr. Mechoulam também mandou uma mensagem ao professor Elisaldo Carlini, que a gente já havia adiantado nesta matéria.

Demais painéis do primeiro dia de evento

A informação como elemento essencial no acesso ao tratamento canabinoide

O A informação e a educação são ferramentas  essenciais tanto na quebra de preconceitos contra o uso da cannabis medicinal quanto na formação de médicos prescritores, além de acesso à  informações confiáveis para pacientes. Sobre o papel destas duas ferramentas nesse cenário, o Medical Cannabis Summit teve um painel com o médico oncologista Dr. Cid Gusmão e com o CEO da Anima Educação, Marcelo Bueno.

A importância da formação do médico para a prescrição e o acompanhamento do paciente

O último painel do primeiro dia debateu a importância da formação do médico para a prescrição e o acompanhamento do paciente, com Dr. Cristiano Fernandes, médico hematologista, Dra. Patrícia Montagner, médica neurocirurgiã e o Prof. Dr. João Menezes, médico e professor/UFRJ

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