“Cannabis não veio para substituir, veio para ajudar”, diz professor da UFPE

Hélio Mororó, médico prescritor de Cannabis há anos, tem como missão levar mais profissionais para o “time da Cannabis”
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Um dos principais problemas para o avanço da Cannabis medicinal no Brasil é a falta de informação dos médicos sobre o sistema endocanabinoide. É o que aponta o médico e professor pernambucano Helio Mororó. “Se você fizer um levantamento dos livros de referência de farmacologia ou fisiologia, por exemplo, vai encontrar linhas, parágrafos somente”, diz.

Como os colegas médicos, Mororó nunca aprendeu sobre Cannabis na faculdade, nem nas diversas especializações que cursou. E arrisca o palpite de que 95% dos médicos formados até 2018 sequer ouviram falar de sistema endocanabinoide nos cursos. Para ele, são dois os motivos: os professores são médicos formados há mais de vinte anos e os livros de referência são anteriores à descoberta do sistema. 

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Iniciação na Cannabis

Foi a curiosidade e a vontade de ajudar seus pacientes que levou Mororó à Cannabis. Há seis anos, ao tratar pacientes geriátricos, saiu em busca de tratamentos menos agressivos e com poucos efeitos colaterais. Chegou à medicina chinesa e se deparou com a Cannabis. Ficou intrigado, não entendeu por que a planta não era usada na medicina. Aprofundando mais, Mororó descobriu que era usada até os anos 1920, quando sofreu forte campanha repressiva. O cenário, no entanto, começava a mudar em 2014. Medicamentos com Cannabis já podiam ser importados mediante prescrição, e ele começou a prescrever.

“Acho triste e absurdo ter a quantidade de pacientes no Brasil sofrendo e só haver mil prescritores para todo o país”, lamenta. Por isso, uma de suas frentes de trabalho é ensinar médicos para despertar curiosidade. Mororó sugere que seus colegas procurem entender, estudar e trocar experiências com outros médicos: “Quem lida com Cannabis tem o maior prazer em ajudar”.

Especialista em gente

Mororó não gosta do termo “medicina alternativa” para a Cannabis, considera uma má tradução. “É medicina integrativa e complementar, não veio para substituir nada, veio para ajudar”, diz.

Ele conta que uma especialização levou a outra: trabalhando com cardiologia, viu que havia muitos pacientes idosos. Destes, muitos tinham Alzheimer e Parkinson. Entre estes, por sua vez, muitos tinham câncer. Por falta de profissionais especializados, os pacientes o incentivavam a estudar, e Mororó juntou a sede de saber com o desejo de facilitar a vida de seus pacientes.

O médico exemplifica com a cadeia: paciente tem problema neurológico, entra em depressão, que causa prisão de ventre, problema de próstata, que evolui para distúrbio do sono. Num quadro destes, o paciente precisaria consultar um neurologista, depois um psiquiatra, um gastroenterologista, um urologista. Não queria ser especialista em apenas uma área.

“O especialista é como a pessoa que cava um buraco tão fundo que só consegue ver um pequeno pedaço do céu e perde a conexão com o universo”, diz. “Quando passa a entender de forma sistêmica e amplia seu olhar médico, ele passa a  estudar outras coisas, e se torna um profissional completo que pode tratar diversas doenças sem precisar encaminhar”.

Consultoria em saúde

Mororó conta que sua clínica acabou sendo tomada pelos tratamentos com Cannabis porque os pacientes pedem ao chegar. Segundo ele, o boca a boca é sua primeira fonte de novos pacientes.

Quando o paciente pergunta sobre a Cannabis, Mororó chama para um café e senta para conversar. Primeiro ele procura entender a doença, como começou, como é a vida da pessoa, quais são os diagnósticos, o que já tomou, se deu certo ou não, como é a alimentação, o sono, a personalidade, faz a anamnese. Sobre anamnese, Mororó comenta que não entende onde a medicina se perdeu para que hoje se valorize mais os sintomas do que a causa.

“Nós (os médicos) nos tornamos ‘sintomatologistas’, aliviando o sintoma sem tentar mudar a causa”. Ele exemplifica com casos de Alzheimer ou Parkinson em que, muitas vezes, há como recuperar funções perdidas. “Só isso já é espetacular na vida do paciente”. Mororó diz que a maioria deles já chega com anos de convivência com as doenças.

Primeiro ele alivia os sintomas e depois parte para resolver as causas. Ele olha a boca do paciente: dores de cabeça e problemas intestinais podem ter sua origem aí. Mastigação errada, bruxismo, desgaste de articulação, ortopedia maxilar podem ser causas a serem endereçadas pelo dentista. 

Ajuste fino

Primeiro, pede exames básicos, além dos vários que os pacientes já costumam trazer. E faz algumas mudanças, melhora vitaminas, alimentação, suplementa com ômega 3, e receita a Cannabis. Depois de um, dois meses, pede mais exames para avaliar fígado, rins, taxa de ferro, vitaminas D, B12. Aí Mororó tem a real visão da situação e faz ajustes finos, inclusive nas doses de Cannabis.

Começa devagar, porque o tratamento é individualizado. Semana a semana, aumenta a dose e, acompanha os efeitos e vai ajustando tudo. Mororó retira o remédio que for preciso também em escala. Caso o paciente tenha ficado sonolento, reduz a dose de algum, e se informa o psiquiatra. “É questão de respeito e ética”, diz. Ele ainda reforça que não tira paciente do especialista, trabalha em conjunto. “Com o paciente melhorando, eu ganho mais um (médico) para o time da Cannabis”. 

Mororó avalia que a busca por Cannabis cresceu desde 2017, com uma explosão de 2019 para cá. Com o assunto em alta, o preconceito sendo vencido e a telemedicina, o paciente fica mais confortável. “Peço licença porque estou entrando na casa da pessoa”, se diverte. Mororó faz questão que familiares estejam presentes para entender suas propostas de projeto de vida, já que as dicas beneficiam toda a família. “As mudanças só serão sucesso se todos entenderem, é questão de respeito”. 

Acesso e prevenção

O médico acredita que  o aumento de liminares para que planos e secretarias de saúde custeiem os altos valores de tratamentos com Cannabis vai gerar impacto, e mais cedo ou mais tarde a Anvisa e o Ministério da Saúde vão ter que incorporar a Cannabis. Com tantas liminares, o SUS terá de comprar em escala, com melhores preços.

O único medicamento que poderia ser fornecido tem a matéria-prima importada e custa R$ 2,5 mil, sendo encapsulado no Brasil. O raciocínio de Mororó é que o Ministério da Saúde poderia fazer o mesmo. Ressalta, no entanto, a importância de haver um treinamento para os médicos do SUS, sob o risco de banalização e prescrição equivocada.

Como prescrever Cannabis

Para todos os médicos que querem começar a prescrever, as dicas do professor e pesquisador de Cannabis medicinal na Universidade Católica de Pernambuco são as seguintes:

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  • reveja bioquímica e neurotransmissores, os mecanismos de dor, principalmente nas doenças degenerativas como Alzheimer e Parkinson, e a fitoterapia – planta, composição, saiba o que cada substância é capaz de fazer;
  • conheça os receptores e a neurotransmissão cerebral;
  • aprofunde os estudos em dor, autismo, parkinson, oncologia;
  • entenda os mecanismos que a célula cancerígena precisa para um ambiente propício, e entenda como inibir estes mecanismos.

Medical Cannabis Summit

Mororó foi convidado para falar no evento sobre suas experiências e contar histórias, uma de suas especialidades. “A proposta é levar mais informação de qualidade séria e científica em evidência, e não eminência”. Ele explica que, muitas vezes, a palavra de professores, doutores, autores de livros não é questionada .

Ele classifica o evento como “sensacional”, um presente para toda a comunidade de saúde e a população em geral, trazendo informação de qualidade comprovada e experiência de profissionais que, com carinho, disponibilizam seus conhecimentos. Por ser gratuito, tem o potencial de atingir o máximo de pessoas para escutar e mudar preconceitos. “Não tem relação com uso recreativo, é sobre medicina, doenças, patologias, sobre pessoas que precisam de ajuda”, diz.

Mororó salienta que o sistema endocanabinoide foi a descoberta mais importante na medicina e na bioquímica dos últimos sessenta anos e que, por isso, precisa ser discutida em toda a graduação, em cursos e treinamentos. Ele lamenta que um país do tamanho do Brasil tenha tão poucos prescritores, sendo que há tantos brasileiros precisando de tratamento.

“Quem tem dor tem pressa, que tem Alzheimer, Parkinson, autismo, doenças autoimunes tem pressa. Informação é o que transforma, e é isso que a Cannabis faz, modulando informação de qualidade”, finaliza.

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