Cannabis no tratamento do glaucoma: o que a ciência já sabe?

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As primeiras pesquisas voltadas para o uso de Cannabis no tratamento da doença são da década de 70 e mostram o uso de THC como auxiliar na diminuição da pressão intraocular. Glaucoma é a maior causa de cegueira no mundo.

O glaucoma é uma doença que degenera o nervo ótico, que é a ligação entre os olhos e o cérebro, ou seja, o transmissor de informação visual. A enfermidade aumenta a pressão (pressão intraocular ou PIO) sobre esse nervo, que sofre um esmagamento, causando um estreitamento do campo visual. Isso afeta primeiramente a visão periférica, podendo levar a uma cegueira total.

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Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2018, a estimativa seria de 80 milhões de pessoas afetadas pela doença no mundo naquele ano e aproximadamente 900 mil no Brasil.

Quem acomete

Os pesquisadores ainda não descobriram exatamente o que causa a doença, mas identificaram grupos com maiores riscos para o desenvolvimento da mesma.

É uma das principais causas de cegueira em pessoas acima de 60 anos, juntamente com a catarata, mas acomete também pessoas mais jovens. Filhos de portadores da doença têm pelo menos 6 vezes mais chance de desenvolver glaucoma do que pessoas sem histórico familiar.

Segundo o Ministério da Saúde, em latinos e afrodescendentes a prevalência da doença é bem maior do que em relação aos caucasianos. A aceleração até a cegueira também é mais elevada nesses dois grupos.

Asiáticos e portadores de hipermetropia, devido a características anatômicas dos olhos, também podem ser mais acometidos pela doença.

Tipos de glaucoma e sintomas

Existem vários tipos de glaucoma. Os dois principais são os primários de ângulo aberto e de ângulo fechado. O primeiro é o mais comum e representa cerca de 80% dos diagnósticos. Ele é assintomático e atinge pessoas a partir de 40 anos, daí a importância de acompanhamento com oftalmologista regularmente.

Neste caso, a pressão intraocular sobe lentamente devido a drenagem irregular do humor aquoso, que é um líquido que gera a secreção e é drenado constantemente num olho saudável. Geralmente a perda de visão começa nos extremos do campo visual e, se não for tratada corretamente, acaba por comprometer toda a visão.

Já o glaucoma primário de ângulo fechado, ou agudo, ocorre quando o ângulo de saída do humor aquoso é totalmente e repentinamente bloqueado e o fluído não consegue ser drenado.

Quais são e como funcionam os tratamentos tradicionais

O tratamento convencional é realizado com colírio de uso contínuo e, em alguns casos, existe a opção de aplicação de um laser (trabeculoplastia seletiva), ambos para redução da pressão intraocular.

“Existem quatro classes de colírios que podem ser usados isolados ou combinados. Beta bloqueadores, análogos de prostaglandina, alfa agonista e inibidores da anidrase carbônica. Todos de uso contínuo”, explica a Dra. Roberta Andrade e Nascimento, especialista em glaucoma pela Unifesp.

Os medicamentos podem alterar a pressão intraocular, agindo em diferentes vias de circulação do humor aquoso. Uma importante via de saída é a malha trabecular, uma treliça de tecido conjuntivo e células. O fluido passa através desse tecido, para um pequeno canal e sai do olho, onde se junta à corrente sanguínea.

Ainda que a maioria dos pacientes recorra aos colírios, podem ser observados efeitos colaterais, como “hiperemiahiperemia, sensação de corpo estranho. Alguns têm efeito colateral sistêmico, como boca seca, tosse”, exemplifica a Dra. Roberta.

Existem também opções cirúrgicas para controlar a pressão intra-ocular elevada, quando medicamentos orais e colírios não resolvem. Mas, segundo a Sociedade Brasileira de Glaucoma, “diversas complicações podem ocorrer no período pós-operatório”…”Infecção, descolamento hemorrágico de coroide, glaucoma por bloqueio angular, entre outras, podem ter resultado desfavorável independente da ação do cirurgião¹”.

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THC x CBD, o que realmente funciona?

Existem casos de pacientes que optam por usar o CBD, porque sente algum ou mais efeitos colaterais com o uso de medicamentos convencionais. Muitos citam que o uso do colírio de Cannabis alivia a dor de cabeça causada muitas vezes pela alteração na visão. Mas estamos citando apenas alívio dos sintomas, não um tratamento em si do glaucoma. Qual exatamente o efeito dos fitocanabinoides sobre a doença?

As primeiras pesquisas voltadas para o uso de Cannabis no tratamento de glaucoma remontam da década de setenta. Mostram o uso de THC (tetraidrocanabinol) como auxiliar na diminuição da pressão intraocular, tanto em pacientes com glaucoma quanto em pessoas com PIO normais.

Estudos posteriores revelaram que os pacientes com intolerância aos efeitos do THC poderiam usar o CBD para melhorar os níveis de pressão e estabilizar a doença.

Hoje em dia há uma variedade de marcas que comercializam tanto o óleo para uso sublingual quanto pílulas, mas principalmente colírios de cannabis para alívio de diversos sintomas do glaucoma.

No entanto, estudo recente conduzido em ratos pelos pesquisadores da Universidade de Indiana e publicado no Investigative Ophthalmology & Visual Science demonstram que o CBD pode piorar o quadro, aumentando a pressão e bloqueando o efeito benigno do THC.

Um outro estudo na Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, encontrou resultados semelhantes. A pressão diminuiu em pacientes que usaram apenas 5 mg de Delta-9-THC e aumentou nos participantes que tomaram 40 mg de CBD.

Diversas pesquisas vêm demonstrando que o THC tem realmente o poder de diminuir a pressão intraocular. O problema é que é preciso mantê-la sob controle por 24 horas, 7 dias por semana e o THC só faz efeito por 3 ou 4 horas.

Fica inviável uma dosagem contínua, principalmente pelos efeitos psicoativos, principalmente levando em conta que a maioria dos pacientes é idosa. Então, por que não usar o colírio de Cannabis para combater o glaucoma?

Mas e o colírio?

“Existem versões em colírio, mas os componentes precisam penetrar tanto a água quanto o óleo, que são os componentes da lágrima, ou seja, a molécula do ativo precisa ser lipofílica e hidrofílica, o que não acontece na do THC”, esclarece o Dr. Kurt Schwiesow, especialista em glaucoma pela Universidade de
Wisconsin.

Apesar da notícia não muito animadora, durante os testes no Reino Unido os pesquisadores descobriram que o THC baixa a PIO quando ativa o neuroreceptor CB1 especificamente, o que pode levar a novos estudos sobre um futuro colírio eficiente e seguro para quem sofre de glaucoma.

Vamos aguardar as futuras pesquisas.

Fontes
¹ https://www.sbglaucoma.org.br/wp-content/uploads/2017/06/capitulo3-consenso-sbg-cirurgia-glaucoma.pdf
² https://www.sciencedaily.com/releases/2018/12/181217151537.htm
³ https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16988594

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