Cannabis & Saúde

Como a Cannabis pode ajudar no tratamento da insônia

Crédito: wokandapix

As propriedades anti-inflamatórias e ansiolíticas do CBD e as analgésicas do THC são grandes aliados para lidar com o distúrbio

Com a autorização da prescrição de remédios à base de canabidiol e THC no Brasil, em 2016, a Cannabis tornou-se nos últimos anos uma opção de tratamento, inclusive para pessoas com insônia. Médicos especialistas têm contado com o respaldo de novos estudos científicos na área para embasar os resultados já vistos na prática.

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Pesquisas recentes sugerem que a administração sistêmica de Canabidiol (CBD) aumenta o tempo total de sono e que o Delta-9 tetra-hidrocanabinol (THC) pode diminuir a latência do sono, mas também prejudicar a qualidade do mesmo no longo prazo. Além disso, há evidências de que os canabinoides podem ajudar a reduzir sintomas do transtorno do estresse pós-traumático, distúrbios do sono e pesadelos.

A insônia, ou seja, a dificuldade de adormecer ou de permanecer dormindo, compromete a qualidade de vida, altera o humor, diminui a disposição e ocasiona a queda no desempenho físico e mental. Entretanto, o distúrbio é normalmente visto pelos terapeutas como o sintoma de uma doença e não a principal patologia.

A causa da insônia está ligada a fatores bem conhecidos, como estresse traumático, ansiedade, depressão, dor crônica, mal hábitos, mudança de ambiente, horário de trabalho, viagens etc.

Sabe-se que a Cannabis melhora os transtornos do sono porque tanto o THC quanto o CBD atuam em receptores do sistema endocanabinoide, aumentando a biodisponibilidade da anandamida (neurotransmissor cujo nome deriva da sensação que produz: ananda em sânscrito pode ser traduzido como felicidade suprema).

Este já conhecido conjunto de endocanabinoides, receptores e enzimas trabalha como sinalizadores entre nossas células e os processos do corpo. E é responsável pela homeostase, promovendo o equilibro entre os nossos sistemas, favorecendo a modulação dos neurotransmissores (serotonina, dopamina, endorfina, entre outros), e dos processos fisiológicos, como apetite, dor, inflamação, resposta a estresse, motivação/recompensa, humor, memória e…. qualidade do sono!

Sob orientação médica

“É fundamental identificar primeiramente a patologia de base do paciente, escolher o tipo especifico do canabinoide a ser administrado e ir fazendo a titulação da dose até chegar a dosagem ideal. Cada paciente tem um sistema endocanabinoide diferente, então cada dose será única e exclusiva daquele paciente”, resume Ailane Araújo, médica especializada em Medicina Integrativa e Cannabis Medicinal, diretora do CBRMC ( Centro Brasileiro de Referência em Medicina Canabinoide) umas das fundadoras e professora do curso prático de capacitação Medica em Cannabis Medicinal e pesquisadora sênior do sistema Endocanabinoide e do papel terapêutico dos Fitocanabinoides em diversas patologias.

“A avaliação é feita de forma integral. Após esta primeira fase, em que conhecemos as causas da insônia, começamos um tratamento personalizado, dependendo da patologia de base, mas focado em promover a saúde e a qualidade de vida, proporcionando o bem-estar, através de uma alimentação ideal, reposição de micronutrientes, desintoxicação quando necessário, manejo do estresse, higiene do sono, regulação hormonal e estilo de vida. Quando o tratamento incluiu a administração de CBD + THC , full spectrum, ou CBD puro, pode ocorrer reações adversas e interações medicamentosas, por isso é importante conhecer a história do paciente e ir fazendo a titulação da dose”, explica ela.

No caso de pacientes em acompanhamento médico, deve existir um cuidado minucioso para que a dosagem seja adequada ao tratamento. “Tratamos pessoas com diferentes históricos, por isso é importante começar com uma concentração baixa, acompanhar os relatos dos pacientes e assim ir progredindo, ajustando a dosagem, até chegar à dose ideal para aquele conjunto de sintomas. O paciente responde melhor quando se submete a este método detalhado, que pode durar algumas semanas”, adiciona.

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THC pode agravar a insônia

As propriedades anti-inflamatórias e ansiolíticas do CBD e as analgésicas do THC, assim como o efeito entourage (sinergia entre compostos fitoterápicos), são grandes aliados quem sofre com a insônia. Mas, em alguns casos, o THC pode render o efeito contrário: ansiedade.

“Fui diagnosticado com ansiedade, e isso gerava a minha insônia. Desde 2018, comecei a procurar coisas que baixassem minha adrenalina, meu ritmo acelerado, e a estudar o uso terapêutico da Cannabis”, conta Bruno Lorencini, de 35 anos.

“O uso do óleo de CBD sublingual associado à eliminação de atividades físicas e cafeína à noite e exercícios de respiração. Isso fez com que eu sentisse a melhora do quadro geral de ansiedade e insônia.”

Assim como outros usuários, Bruno tem dificuldade em encontrar medicamentos legais e recorre à maconha fumada para obter os efeitos. “Não gosto do efeito do THC porque às vezes me acelera”, relata ele.

A Dra. Ailane Araújo explica que a maconha geralmente usada no Brasil não traz todos os benefícios da planta para o tratamento da insônia. “Ela não é pura, mas um prensado com muitas misturas. Além disso, quando fumada, a combustão libera diversos componentes tóxicos, como alcatrão e dióxido de carbono, entre outras substancias prejudiciais. A fumaça, sabe-se, aumenta os riscos de câncer de boca, garganta e pulmão. Essa maconha possui também altas concentrações de THC, o que pode levar de aumento da ansiedade a pânico e surtos psicóticos”, explica a médica. “Mas hoje no Brasil existem produtos seguros (com certificado de análise) disponíveis para importação, como cápsulas, spray, óleo, pasta e bálsamo”.

Os estudos publicados sobre o tema também indicam que futuros ensaios clínicos bem controlados, randomizados e duplo-cegos são altamente necessários. “Estamos capacitando com cursos práticos os profissionais da saúde que trabalham ou queiram trabalhar com a Cannabis medicinal. São médicos , veterinários e dentistas. Assim, teremos mais critérios na administração e no acompanhamento dos pacientes”, conclui a Dra. Ailane Araújo, professora titular do Curso de Capacitação Médica em Medicina Canabinoide certificada pelo Medical Marijuana Inc..

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