Diretor de ONG defende a criação de um núcleo das associações de pacientes

"As associações poderiam ser a Fórmula 1 do mundo canábico. Ou seja, podemos ser o ambiente de pesquisa e teste com universidades, órgãos de pesquisa, setores da agricultura, ciência e tecnologia, criando assim uma sinergia produtiva em toda essa cadeia", propõe Pedro Sabaciauskis, presidente da Santa Cannabis
Pedro Sabaciauskis (E), presidente da Santa Cannabis, e Cassiano Teixeira, diretor da Abrace Esperança, em João Pessoa

“As ONGs poderiam ser a Fórmula 1 do mundo canábico. Ou seja, podemos ser o ambiente de pesquisa e teste com universidades, órgãos de pesquisa, setores da agricultura, ciência e tecnologia, criando assim uma sinergia produtiva em toda essa cadeia”, propõe Pedro Sabaciauskis, presidente da Santa Cannabis

Na última década, surgiram e se multiplicaram pelo Brasil diversas associações de pacientes que fazem uso de Cannabis medicinal. No início, foi pela falta de uma regulamentação e de acesso aos medicamentos derivados da maconha e que tratam diversas doenças. Mas em 2020 essas entidades continuam com a mesma relevância, já que a regulamentação aprovada pela Anvisa não atendeu as demandas dessas ONGs, nem dos pacientes atendidos por elas.

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Cada associação de pacientes tem as suas peculiaridades. Tem aquelas autorizadas pela Justiça a cultivar Cannabis, como a Apepi (RJ) e a Abrace (PB). Existem as que ensinam os associados a cultivar e extrair o próprio remédio, as que focam na obtenção de Habeas Corpus para cultivo individual e ainda as que trabalham na chamada desobediência civil pacífica, facilitando o acesso a óleos artesanais. É o caso, por exemplo, da Santa Cannabis, de Santa Catarina. 

O presidente da Santa Cannabis é o empresário do setor de transportes de Florianópolis Pedro Sabaciauskis. Ele entrou nesse mundo depois que a avó dele, a dona Edna, portadora de Parkinson em estágio avançado, voltou a falar, a cozinhar e até a tricotar graças ao óleo extraído da planta.

Pedro conta que, após os resultados com a dona Edna, muitos amigos e parentes pediam óleo para ele. O Pedro, porém, adquiriu o produto através de uma ONG lá do Ceará, a Abracam, que também trabalhava na desobediência civil. O diretor da entidade cearense orientou então que o Pedro criasse uma ONG em Santa Catarina, já que não havia nenhuma na Região Sul. Pouco mais de um ano depois, a Santa Cannabis já atendeu mais de 300 pacientes.

Nesse período, Sabaciauskis deu de cara com todas as dificuldades que essas entidades enfrentam:

“Tudo é dificuldade. A primeira certamente é a falta de apoio dos governantes, que deveriam ser os primeiros a reconhecer os benefícios sociais e de saúde que as associações trazem aos pacientes brasileiros. Depois vem a impossibilidade de testar os óleos artesanais, a falta de recursos, o preconceito e, claro, a proibição ao plantio.”

Por isso, ele propõe a união das associações de pacientes do Brasil como forma dos pacientes associados garantirem seus direitos, que são basicamente acesso às medicações a preço justo ou o cultivo individual.

Pedro Sabaciauskis irá falar mais sobre essa proposta durante o Medical Cannabis Summit, seminário online e gratuito que acontece de 10 a 14 de agosto. Mas antes, ele conversou com o portal Cannabis & Saúde. O evento reunirá cerca de 40 profissionais de saúde, direito e sociedade civil. Você pode se gratuitamente aqui.

Confira abaixo a entrevista

Pedro e Margarete Brito, diretora da Apepi, ONG do Rio de Janeiro

Quem é o Pedro Sabaciauskis? Qual a tua trajetória antes de se envolver com a Cannabis?

Sou paulistano radicado em Florianópolis e empresário do setor de transporte há 20 anos. Tenho longa experiência com entidades associativas, já que fui presidente da Amofloripa, a associação dos Motoboys da grande Florianópolis durante 10 anos e diretor do Sindicargas, o sindicato dos transportes, por outros 5 anos.

E por que você decidiu fundar a Santa Cannabis?

Surgiu da necessidade da minha avó, a dona Edna, que tem Parkinson e estava em estado avançado já. Ela teve resultados rápidos e incríveis com essa planta, e eu me senti na obrigação de falar pra mais gente sobre os benefícios da Cannabis. E a única chance de fazer isso com segurança era através de uma ONG, já que Santa Catarina não tinha nenhuma associação de pacientes.

Eu consegui o óleo pra minha avó com uma ONG lá do Ceará, a Abracam. Só que muita gente me pedia o óleo pra um amigo ou um familiar. E o diretor da Abracam, o Thomas, me sugeriu criar uma ONG aqui Santa Catarina, já que não tinha nenhuma na Região Sul.

Qual a situação da Cannabis medicinal em Santa Catarina?

Ainda é delicada, mas estamos avançando com a Santa Cannabis, levando informação e solução para os pacientes que têm ou buscam indicação para uso. Acredito que Santa Catarina tem um grande potencial produtivo através da agricultura familiar, que é vocação do Estado. E poderemos usar a associação como uma espécie de berço para projetos sociais junto ao estado. Isso poderia ser feito através de parcerias com entidades como a Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) e a UFSC, por exemplo.

Quais as maiores dificuldades que as associações de pacientes encontram hoje no Brasil?

E não diria as maiores, eu diria que tudo é dificuldade. A primeira certamente é falta de apoio dos governantes, que deveriam ser os primeiros a reconhecer os benefícios sociais e de saúde que as associações trazem aos pacientes brasileiros. Depois vem a impossibilidade de testar os óleos artesanais, a falta de recursos, o preconceito e, claro, a proibição ao plantio. São tantas dificuldades no dia dia que só as associações conhecem. E esse know how é o grande valor e respeito que as associações deveriam ter da sociedade. 

Durante um congresso sobre Cannabis medicinal em Portugal, você apresentou um projeto de união das associações de pacientes, uma possível federação e até mesmo a criação de um órgão público para a Cannabis. Poderia explicar melhor esse projeto?

Sim. Eu acredito que o caminho mais inteligente e justo para o Brasil seriam os setores envolvidos no processo da Cannabis se organizarem e criarem um “ Núcleo Nacional da Cannabis”. Esse núcleo poderá construir um modelo que regule e crie conexões entre os indivíduos e entidades do setor tanto nos níveis medicinal, industrial e, por que não, recreativo.

Tem que se levar em consideração o trabalho já feito pelas associações, a particularidade de cada região, a tecnologia e o potencial de investimento das empresas estrangeiras de fitoterápicos (com boas práticas), o interesse de cientistas brasileiros em participar desse processo científico mundial que está acontecendo, entre outros motivos.

Para simplificar o exemplo, acredito que as associações poderiam ser a Fórmula 1 do mundo canábico. Ou seja, podemos ser o ambiente de pesquisa e teste com universidades  locais, órgãos de pesquisa, setores da agricultura, ciência e tecnologia. Criando uma sinergia produtiva em toda cadeia.

Dá para fazer. É só querer. Se os setores baixarem a guarda e acharem um ponto em comum de construção, tenho certeza que seria um modelo a ser seguido por muitos pelo mundo, que ainda está apanhando para equalizar os interesses.

Como você enxerga a chegada de empresas estrangeiras de Cannabis no Brasil? Você acha que elas colocam em risco a existência das associações de pacientes?

Olha. Enxergo com bons olhos as empresas que enxergam as associações como parceiras, pois essas sim têm, tanto visão de mercado, mas também a visão social. E o social é inseparável desse mundo novo da Cannabis no Brasil.

Mas não acho que colocam em risco e por vários motivos.

Primeiro porque com essa lei mal feita, a Anvisa não atendeu quase ninguém. Pelo contrário, gerou mais custos e mais dificuldades para as empresas, e com a pandemia, o câmbio alto, a logística cara, isso se agravou. 

Segundo que a falta de regulamentação para as associações e a dificuldade dos pacientes em acessar o remédio por vias comuns, como SUS e planos de saude, faz as associações serem referência na busca de uma solução ao problema. A prova disso é a multiplicação de associações pelo Brasil, hoje são mais de quarenta.

Terceiro porque temos um mercado gigante com três tipos de pacientes. O que quer fazer parte de uma associação, o que quer produzir o seu próprio remédio e o que quer comprar um fitoterápico de uma genética que atenda as suas individualidades biológicas e resolva seu problema.

Existe ainda um quarto paciente, criado por força da lei, que é aquele que foi empurrado para a farmácia, sendo obrigado a comprar um genérico a um preço exorbitante e pode nem trazer os resultados esperados.

Na sua visão, qual a importância do evento Cannabis Medical Summit para o mercado de Cannabis medicinal no país?

Eu entendo como de grande importância nesse momento e muito inteligente, uma vez que congrega várias perspectivas diferentes, inclusive a nossa perspectiva de uma associação, que no fundo são as pioneiras no trabalho de acolhimento. E é por causa delas, de certa forma, que essas discussões estão finalmente se dando. 

Que recado gostaria de dar para as mais de 12 mil pessoas inscritas no evento, na data de hoje?

Que aproveitem a quantidade de informações de alta relevância, com profissionais que são referências em suas áreas e que, após absorver toda essa riqueza, se dediquem a trabalhar e defender esse mundo novo da Cannabis, que tem tudo para moldar um mundo melhor através de três frentes muito generosas: medicinal, industrial (cânhamo) e recreativo (mais uma vez a pergunta, por que não?)

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