“Cannabis só não funciona se for mal cultivada, mal processada ou mal administrada”, defende neurocirurgiã

Patricia Montagner acusa o desconhecimento, o preconceito e a formação inadequada entre os médicos e conta como a Cannabis está transformando a medicina moderna.

“Decidi abrir cabeças quando vi uma aberta: o cérebro pulsando, vivo, ativo”. A frase é da neurocirurgiã paulista Patricia Montagner, ao contar como descobriu que especialidade seguiria na medicina. A visão, para muitos chocante, que teve quando estudante, definiria também sua postura diante de um segmento ainda preso a tabus e preconceitos. 

Anos depois, já clinicando, descobriria a Cannabis ao ouvir de pacientes dizendo que se sentiam melhor depois de fumar maconha. Abriu a cabeça – desta vez metaforicamente – e pesquisou a planta e diversos estudos que demonstravam sua eficácia. Aprendeu que a Cannabis pode substituir dezenas de remédios alopáticos.

Patrícia passou os últimos 5 anos prescrevendo Cannabis para pacientes com problemas neurológicos ou que precisavam de um médico prescritor, ao mesmo tempo se mantendo antenada com os movimentos do crescente mercado canábico. 

Desinformações e incoerências

De um lado, ela se impressiona com os resultados positivos; de outro, demonstra surpresa com a persistente desinformação da classe médica. Reclama da falta de cursos orientando médicos que queiram prescrever, da quantidade grande de médicos desinformados e preconceituosos e de médicos prescritores que sequer viram uma planta.

Em sua clínica de tratamentos integrados em neurologia, ela trata pacientes refratários ou que precisam de uma longa lista de remédios alopáticos, com 80% de bons resultados com Cannabis, muitas vezes conseguindo tirar todos os medicamentos alopáticos com CBD e THC. E emenda: “os que não tiveram sucesso precisam de ajuste de dose”. 

Patricia Montagner denuncia a hipocrisia das práticas tradicionais de uso de remédios off label (remédios que são registrados para um uso, mas prescritos para outro). Também sua ineficácia, associada com efeitos colaterais importantes. Ela lembra que muitos remédios vendidos há 40 anos ou mais sequer tiveram sua atuação compreendida, mas mesmo assim são usados para tratar sintomas diferentes do proposto no registro.

Ao mesmo tempo, os mesmos médicos que prescrevem remédios sem comprovação científica, relutam em conhecer a Cannabis, que conta com cada vez mais estudos e relatos de sucesso, e muita segurança no uso.

A neurocirurgiã Patricia Montagner passou a prescrever Cannabis após ver seus pacientes voltarem ao consultório com as mesmas dores

Leia a entrevista na íntegra:

Cannabis & Saúde: Você será palestrante no Medical Cannabis Summit. Qual a mensagem que deseja passar?

Patricia Montagner: Vou falar sobre a importância da formação médica na terapia canabinoide.

Há uma carência grande de colegas que tenham experiência e segurança na prescrição desse tipo de medicamento. E está claro para todos que há um desconhecimento da fisiologia do sistema canabinoide, do contexto do uso histórico, ancestral, cultural dessa planta. E também da riqueza dos estudos pré-clínicos que já tem publicados e dos trials, além de testes clínicos saindo com cada vez mais frequência comprovando os benefícios terapêuticos dessa planta. 

C&S: Qual a sua formação?

PM: Eu nasci em Ribeirão Preto, mas me criei em Florianópolis e me considero daqui.

Fiz faculdade de medicina aqui na Federal de Santa Catarina, depois formação em neurocirurgia no Hospital Federal de Bonsucesso no Rio de Janeiro e pela Sociedade Brasileira de Neurocirurgia. Agreguei mais formações, tenho uma formação de Especialista em Administração em Saúde na FGV em São Paulo, e sou certificada pela World Institute of Pain (WIP) para procedimentos minimamente invasivos em dor pelo Fellow of Interventional Pain Practice (FIPP) nos EUA. 

C&S: Como foi o início da sua trajetória profissional?

PM: Me formei em 2008 em medicina, trabalhei um ano e meio, fui para o Rio, me formei em neurocirurgia em 2015, fiquei um tempinho em São Paulo, e vim pra cá abrir a clínica (NeuroVinci). Sou também neurocirurgiã no Hospital da Unimed Grande Florianópolis e médica colaboradora da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (AMA+ME).

C&S: Por que decidiu pela neurocirurgia?

PM: Eu decidi que eu queria abrir cabeças na primeira vez que eu vi uma cabeça aberta. Foi encantador. Descobri que o cérebro pulsa. Eu era estudante de medicina, fazendo o sétimo período, frequentando o centro cirúrgico e entrei numa sala em que estava rolando uma neurocirurgia. Vi pela primeira vez na minha vida um cérebro exposto e pulsando, vivo, ativo, e ali eu decidi que eu queria fazer aquilo. Naquele momento. 

C&S: Fale sobre sua clínica, a NeuroVinci.

PM: Sempre foi um sonho, voltar para Florianópolis, que a é minha cidade de consideração, e ter o meu lugar, minha independência, autonomia profissional. Nunca quis depender de ninguém. Chamei algumas pessoas chave para participar desse projeto, esse sonho de oferecer um lugar bacana, para que as pessoas portadoras de transtornos neurológicos tenham uma referência.

É muito comum as pessoas com sequela de AVC, por exemplo, não saber por onde começar. Vai no neurologista em um lugar, a fisioterapia é em outro, a fonoaudióloga é do outro lado da cidade, esses profissionais não se conhecem, não interagem entre si, não acompanham o caso em conjunto. A NeuroVinci nasceu desse sonho de ofertar, num lugar confortável, agradável, uma equipe completa e multidisciplinar. 

C&S:  Por que usar a Cannabis? 

PM: Foi a necessidade da vida, porque quando eu terminei a minha formação em neurocirurgia e comecei minha vida profissional, autônoma, independente, naturalmente começaram a surgir no meu consultório muitos pacientes portadores de dor crônica, principalmente dor da coluna vertebral, e a gente tem a formação de neurocirurgia, procedimentos de crânio e coluna, e o pessoal se sente muito seguro em ter a opinião, a conduta, o planejamento terapêutico de um neurocirurgião.

E eu sempre me deparava com situações em que eu já havia esgotado o arsenal terapêutico habitual, de fármacos, que a gente usa nos pacientes. Antidepressivos, ansiolíticos, indutores do sono, hipnóticos, analgésicos desde os mais simples, comuns, anti-inflamatórios, até derivados de opióides, enfim, tinha sempre aqueles casos em que a gente ficava chovendo no molhado, sem muita coisa realmente que agregasse valor ao tratamento e mudasse de forma impactante a qualidade de vida desses pacientes.

C&S:  Como foi a descoberta da Cannabis? 

PM: De forma muito gradual, alguns pacientes me trouxeram que poderia ser uma possibilidade terapêutica usar derivados de Cannabis, porque eles me traziam a informação. Olha, quando eu fumo um baseado, eu me sinto melhor. E aquilo foi despertando em mim uma curiosidade de entender o por quê.

Em paralelo, um colega com quem temos uma parceria de trabalho, professor de neurologia da USP, Dr. Paulo Bittencourt, que já tinha estudado os benefícios terapêuticos da planta já lá na década de 80, muitos anos atrás. Mas nunca teve a abertura e a oportunidade pra usar na prática.

Foi uma conjunção de fatores, a gente também, esses acasos da vida, a gente cruzou com um rapaz que é simplesmente sensacional, na forma como ele enxerga a planta, cultiva a planta, processa a planta como medicamento, ele tem, na minha opinião, a melhor medicação artesanal do país.

Ele acabou aparecendo no nosso consultório, através de outro conhecido, outro paciente, a gente começou a prescrever a medicação dele. Ele planta e produz de forma artesanal, e ajuda pessoas próximas que tem essa necessidade e que não tem condições de acesso a importados.

Foi por volta de 2015, exatamente no momento em que eu podia prescrever. De lá pra cá, as coisas têm crescido de forma exponencial, criamos uma curva de aprendizado muito grande na prescrição, de uma forma muito objetiva, acadêmica, científica, séria, responsável.

Então, mesmo sendo uma medicação artesanal, buscamos parcerias para fazer análise laboratorial desse produto, para ter certeza do conteúdo, da segurança de que era um produto de qualidade. Se tinha contaminante, processo físico, químico, biológico, e que estava entregando aquela miligramagem de canabinóides, de CBD ou THC. Então, desde o começo, nós construímos um caminho muito sério e acabou colhendo um resultado muito assertivo. 

C&S: Ele tem autorização para plantar?

PM: Ele faz parte desse grupo de associações que entraram com processo de legalização, de judicialização, hoje no país a gente só tem duas associações. A Abrace (Associação Brasileira de Apoio Cannabis e Esperança) e a Apepi (Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal), que ganhou um habeas corpus coletivo. Ele faz parte da Ama+Me, que tem sede em BH e acabou criando essa parceria em Santa Catarina. 

C&S: Você teve preconceito?

PM: Eu sentia necessidade de oferecer algo que tivesse melhor resultado. Era extremamente frustrante pra mim ver pacientes no retorno, que não melhoravam com o arsenal terapêutico habitual. Surgiu de mim também a necessidade de buscar alternativas. Da mesma forma, na minha formação cirúrgica, eu observo resultados muito limitados com cirurgias de coluna, e nunca quis entrar nessa seara de forma banalizada, como muitos colegas entram, porque não vejo resultado objetivo, prático, na melhora da qualidade de vida dos pacientes. Eu busquei uma especialização em outros procedimentos minimamente invasivos para coluna que processem melhores resultados, e eu tenho observado isso. 

Eu tenho certificação internacional pelo World Institute of Pain, eu faço isso muito no meu dia a dia com meus pacientes. Muitos colegas acabam operando, colocando parafuso, enfim. Por perceber que as técnicas cirúrgicas habituais, convencionais, não estavam trazendo resultados, na qualidade de vida, melhora de fato, é que eu procurei uma alternativa. Não é possível, eu não quero ficar colocando parafuso nos meus pacientes, que não melhoram, não ficam bem. E a Cannabis veio nesse sentido, só que em relação aos medicamentos. Trocar antidepressivo, anticonvulsivante, derivado opióide, é mais do mesmo. Eu precisava de alternativa farmacológica também. 

C&S: Pacientes aceitam bem o uso da Cannabis?

PM: Não tem preconceito. As coisas aconteceram muito rápido, e a gente se tornou referência aqui na região, e inclusive pessoas de outras cidades, estados, procuram a gente pra consultar. Elas chegam sedentas por um médico que prescreva e que saiba o que está prescrevendo, e que conheça mesmo o assunto, tenha experiência. As pessoas já vêm procurando. 

C&S: Como você obteve seu conhecimento a ponto de se tornar uma referência?

PM: Tem que ser muito autodidata, porque, infelizmente, mesmo a nível internacional, os cursos deixam a desejar. Mesmo centros locais, que são expoentes no uso da Cannabis, eles ainda não conseguiram estruturar um formato realmente prático e funcional de passar esse conhecimento. Então, eu li muitos artigos, sigo colegas mais experientes fora do país, acompanho o trabalho deles, em redes sociais, eventos, congressos. Fui pra Califórnia este ano, fiz um curso na Oaksterdam University, a primeira universidade totalmente voltada para Cannabis do mundo. Uma semana inteira de curso. É um dos poucos do mundo que realmente tem todo um currículo voltado para essa planta. Mesmo isso que eu encontrei, que é uma referência para o pessoal do meio, todo mundo conhece, é voltado pro pessoal do cultivo. Não voltado para médicos prescritores. Então até isso foi um pouco frustrante.

C&S:  Falta formação para o médico?

PM: Tinha que ter um curso para médico prescritor, com outro enfoque. Esse é o tipo de conhecimento que, para quem quer realmente entender do assunto, prescrever com propriedade, é importante. Tem muita gente que diz que prescreve, que é expert em Cannabis, que nunca viu uma planta na vida. Não sabe nem como faz o óleo. Nunca viu processar um óleo. A minha concepção de ter conhecimento do assunto, é entender o que acontece da semente até o produto envasado. 

C&S: Há perdas na eficácia se não for assim.

PM: A Cannabis é assim (eu tenho um jargão já): quando a planta não funciona, ou ela foi mal cultivada, mal processada ou mal administrada. Com certeza houve falha em alguma das três etapas. Todas são fundamentais. E é importante o médico saber como essa planta foi cultivada, porque se ela foi mal cultivada, se ela está contaminada por algum agente químico, físico, o resultado final vai ser ruim, e ainda pode fazer mal, o que não é raro no meio.

Mesmo nos EUA, onde a terapêutica já é bastante disseminada, lá não é medicamento, é suplemento alimentar. Boa parte das pessoas que está prescrevendo, não sabe nem diferenciar hemp (cânhamo) de outras formas da Cannabis, o que diferencia hemp do restante. Será que hemp é o melhor perfil para medicamento à base de Cannabis? Onde estão estas propriedades terapêuticas da planta? Tem um monte de gente que não sabe que é na flor. Que os canabinóides estão nos tricomas das flores femininas. Não precisa ser um expert em botânica, mas precisa entender o básico da planta pra vc poder escolher um produto à base de Cannabis. 

C&S: Quem são seus colegas de referência?

PM: Ethan Russo, um dos maiores expoentes do mundo, experiente, domina todos os assuntos relacionados à planta. Ele quem esteve à frente da concepção do Sativex da GW Pharmaceuticals, o primeiro medicamento de Cannabis regulamentado do mundo. Ele era consultor da GW na época. 

Tem um colega nos EUA que tem um expertise muito legal, eu gosto muito da abordagem prática dele, chamado Dustin Sulak. Também tem uma clínica na Califórnia, que eu acompanho, do David Berman.

C&S: Tem ideia da quantidade de pacientes para os quais prescreve?

PM: Aqui na Neurovinci temos 650 pacientes usando Cannabis. 

C&S: Qual a taxa de sucesso?

PM: Eu ainda não trabalhei esses dados todos, estou num processo de terminar, inclusive isso dá um trabalho bem interessante, porque tem um número grande, talvez um dos maiores do país. Por alto, dá para dizer que ajuda, no mínimo, a 80% dos pacientes. E aqueles que ainda não ajudei, eu entendo que talvez eu não tenha acertado a dose ou o perfil de canabinoides que ele precisa. Até porque é como qualquer remédio, tem uma curva de aprendizado. Hoje eu acerto muito mais que em 2015. 

C&S: E como você e os pacientes lidam com a decepção quando não funciona?

PM: Hoje já estou descolada disso. Já aviso o paciente que tem um período de adaptação da medicação, de ajuste de dose, tem que ter paciência nas primeiras semanas. Eu ajusto expectativas. A gente recebe casos muito graves, há patologias com péssimos prognósticos. A gente sabe que as pessoas criam muitas expectativas com relação ao tratamento, a gente tem que ser absolutamente transparente com relação aos resultados, para as pessoas não acharem que vai ter uma cura, um milagre. Não é isso, e também Cannabis não é para tudo. Não vai tratar hipotireoidismo com Cannabis, não vou falar para paciente com câncer deixar de usar quimioterápicos na terapia para usar Cannabis. 

C&S: E como é a interação da Cannabis com medicamentos tradicionais?

PM: Nesse sentido, até pela minha formação de neurocirurgiã, eu sou um pouco mais agressiva nas condutas. Sou mais destemida. Eu não tenho medo de tirar psicotrópicos, remédios controlados. Eu tive experiência para lidar com esse tipo de remédio, pela minha formação, e também estou habituada a lidar com complicações bem mais severas do que uma desintoxicação medicamentosa, então eu sou bem agressiva no ajuste farmacológico. Talvez, por isso, experimente resultados mais exuberantes em curto prazo.

C&S: Vários médicos ainda se recusam a receitar Cannabis. Qual o motivo?

PM: Olha a hipocrisia: se você for olhar na bula de um antidepressivo, você vai ver que ele não foi registrado com um grande número de estudos controlados, randomizado, duplo cego, com controle a longo prazo, efeitos colaterais e segurança terapêutica. É assim com a maioria dos medicamentos controlados que a gente usa, antidepressivos e anticonvulsivantes. Qual é o médico que receita gabapentina para crises convulsivas? Todo mundo prescreve para dor crônica, para dor neuropática, mas foi registrado, aprovado, para epilepsia. São remédios que estão há muito tempo no mercado, e a gente aprende na faculdade que é o habitual. Acaba usando off label (1). Vai olhar a bula, para quê que foi aprovado, qual o registro. Abre um anticonvulsivante e vai olhar qual a indicação. Vários dizem que não está esclarecido o mecanismo de ação. Aí o pessoal vem com hipocrisia, ai, ninguém sabe como a Cannabis funciona. Ora, não se sabe das drogas que estão aí há 50, 60 anos no mercado.

C&S: Quais doenças costuma tratar na clínica?

PM: É bem variado. Eu uso muito a Cannabis nos pacientes cirúrgicos, que ficaram com alguma sequela neurológica. Tem desde paciente que sofreu traumatismo crânio encefálico e operados de tumor cerebral até quadros crônicos de coluna, operados que ficam com dor crônica, Alzheimer, Parkinson, autismo, fibromialgia, etc. Então é bem variado, mas geralmente tramitam na esfera da neuro. Esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica, doenças neurológicas em geral. Mas também tem paciente que eu acompanho com câncer de pulmão, que não conseguiu nenhum médico que prescreva Cannabis pra ele, tem também paciente com doença de Crohn, linfoma, câncer de mama.

C&S: Fale sobre os efeitos colaterais.

PM: Depende do perfil de óleo. Os ricos em CBD em geral são muito bem tolerados. A gente só observa efeitos colaterais desagradáveis com doses muito altas. Nesses casos, o paciente pode ficar um pouco mais sonolento, prostrado, um pouco mais indisposto para fazer suas atividades do dia a dia. Mas isso em doses mais altas, no período de ajuste de dose do CBD. 

Os efeitos colaterais mais comuns do THC são baixar um pouco a pressão arterial e aí a gente observa isso em pessoas de mais idade. Também observamos taquicardia, sensação de aumento de frequência cardíaca, boca seca, psicoatividade positiva, que é diferente de psico toxicidade, sintomas leves de euforia, no sentido de se sentir mais leve, mais relaxado, mais disposto, sentir com mais intensidade prazer sensorial, comida mais gostosa, escutar boa música, sensação de dilatação temporal, nas pessoas ansiosas é muito bem vinda.

Em alguns pacientes, onde há equívoco na dose, ou pacientes hipersensíveis ao THC, a gente tem efeitos colaterais desagradáveis, psico tóxicos. Intensa agitação psicomotora, alucinações visuais, auditivas, insônia, dor de cabeça, casos extremos, até crises convulsivas. Mas é raro.  

C&S: Qual a sua consideração sobre o futuro da Cannabis no Brasil?

PM: Não estamos fazendo nada novo. Não tem motivo para tanta resistência da comunidade médica. É fundamental ceder do preconceito e estudar, porque eu não tenho dúvida de que é um conhecimento disruptivo na nossa medicina, já está transformando. Já tem estudos nos EUA, nos estados em que já está há mais tempo legalizada a Cannabis, onde houve redução na prescrição de opióides de 40% a 60%. Medicamentos anticonvulsivantes, para dor, ansiedade, depressão. 

Eu reduzo 50% dos remédios, mas não é todo mundo que conseguimos fazer o desmame completo, às vezes a gente tem que deixar alguma medicação. Mas conseguimos, na maioria dos pacientes, retirar praticamente tudo e deixar só a Cannabis.

Eu tenho um paciente idoso, que tinha uma folha A4, frente e verso de medicamentos, e tiramos tudo, ficou só com a Cannabis. Tem um relatório do New Frontier que estima que, se 10% da população acometida por dor crônica, dores de câncer e ansiedade, fizessem uso de Cannabis para fins medicinais, isso poderia representar um impacto de 4 bilhões de dólares ao ano para a indústria farmacêutica. E as pessoas só vão começar a entender isso quando começarem a prescrever na prática.

C&S: Há muito lobby da indústria farmacêutica?

PM: Sem dúvida. No começo tinha muito mais. Mas agora eles estão entrando no jogo. A GW entrou no jogo, a Merck está entrando, a gente sabe que a Pfizer vai entrar também. Ninguém é trouxa, está todo mundo de olho. 

C&S: Qual a importância do evento no cenário brasileiro atual?

PM: A iniciativa é muito importante. A gente tem que cada vez mais expor a público, não só para a sociedade civil, mas também para a comunidade médica, a relevância terapêutica dessa planta, desmistificar esses preconceitos, opiniões enviesadas de ignorância, de política, que infelizmente acabam vindo junto com a planta, e são atitudes como essa iniciativa do Medical Cannabis Summit porque ajudam a gente a progredir. 

C&S: Qual seu recado para os mais de 10 mil inscritos para participar do Medical Cannabis Summit?

PM: Cannabis para fins medicinais não é nenhuma novidade. Essa planta tem sido usada para fins terapêuticos desde o início da nossa civilização. Em diferentes épocas, em diferentes áreas do mundo, em diferentes civilizações, a planta foi extensivamente utilizada para fins medicinais. O que mudou é que, da década de 60 pra cá, a gente começou a entender porque a planta funciona. A gente descobriu a fórmula química do THC, do CBD, descobrimos que a gente tem receptor endocanabinóide no nosso cérebro, nos nossos órgãos periféricos, descobrimos que a gente produz substâncias endocanabinóides muito semelhantes aos que a planta apresenta como fitocanabinóide.  E ficou fisiológica e quimicamente explicado porque que a planta funciona. Ninguém está inventando a roda. A planta é referida na primeira farmacopeia do mundo, a chinesa, de 2.600 anos antes de Cristo, para tratar epilepsia, enxaqueca, constipação intestinal. Não há porque ter tanto preconceito e tanta resistência no uso terapêutico dessa planta. É muito mais seguro que opióides, por exemplo.

Patricia Montagner é uma das painelistas do Medical Cannabis Summit em agosto. O evento é online e gratuito. Organizado pela OnixCann e a Transformação Digital, reunirá cerca de 40 profissionais de saúde, direito e sociedade civil. Faça sua inscrição aqui. 
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