Experiências Saúde

“No mesmo dia, já era outra pessoa”, conta filho de paciente com Parkinson, após tratamento com Cannabis

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“No mesmo dia, já era outra pessoa”, conta filho de paciente com Parkinson, após tratamento com Cannabis

Resultados do óleo de Cannabis foram tão positivos no tratamento de seu Evaldo, morador do interior de São Paulo, que o médico do idoso, antes reticente, virou um estudioso do uso medicinal da planta.

Em pouco mais de dois minutos, um vídeo que mostra uma pessoa em um estágio avançado do Parkinson levou o advogado Evaldo Lopes Jr. das lágrimas à esperança. Era novembro de 2018, quatro anos desde que seu pai começou a apresentar tremores na mão.

Se deparar com o prognóstico da doença lhe parecia muito assustador, mas acabou mudando a vida de toda sua família. Só aceitar a existência da doença já tinha sido um processo. Evaldo Lopes, 68 anos, morador de Marília, no interior de SP, passava por um momento difícil financeiramente, e todos atribuíram os primeiros sintomas da doença ao estresse. Os problemas passaram, mas a tremedeira só crescia.

“Hoje, pensando com tranquilidade, a gente já sabia. Não queria admitir”, lembra seu filho, Evaldo Jr, 35.

Atendido pelo SUS, teve a confirmação do diagnóstico e, junto, veio o tratamento. “O problema é que o efeito colateral do remédio às vezes é parecido com algum sintoma da doença”, conta Evaldo Jr.

No caso de seu pai, foi a perda da memória recente. Apesar de ser um sintoma comum, tomar o Biperideno fez o quadro piorar. Mudou para o Prolopa e a memória melhorou, mas, segundo seu filho, não fez muito mais que isso. “Para te falar verdade, você não vê efeito nenhum. Não sei se fez efeito ou não. Ele continuou na mesma. Não diminui a tremedeira, não deu um ânimo.”

“O Parkinson tem um outro sintoma terrível, que é uma prisão de ventre absurda. Não é possível que não tenha nada, nenhum chá natural, que possa ajudar?”. Foi nessa busca que encontrou o vídeo de Larry Smith.

“Meu pai vinha tremendo pouco até, mas eu vi um vídeo de um senhor que tremia inteiro, dos pés à cabeça, não falava. Não se movimentava direito. É fora do normal. E eu não sabia, mesmo meu pai já tendo Parkinson, que a doença evoluía nesse nível”, lembra Evaldo Jr.

“Eu comecei a ver esse vídeo e na hora eu me emocionei, chamei minha mulher. ‘Amanda, meu pai vai ficar desse jeito?’ A Amanda é enfermeira. Ela fez aquela cara de ‘pode acontecer’. Fiquei em choque”.

Mas o vídeo não tinha acabado.

“No final, o cara usa uma substância, que não sabia ainda o que era, e poucos minutos depois esse
senhor está conversando.”

Era a Cannabis o que causou uma transformação no cara do vídeo. Se funcionava em um caso tão grave, poderia muito bem melhorar a vida de seu pai.

“Foi o que deu start em tudo.”

Evaldo Jr. começou a implantar a semente na cabeça do seu pai. Toda notícia que encontrava sobre o assunto, dava um jeito de fazer seu pai ver. Até que um dia, em tom de brincadeira, disse que ia arrumar um pouco para ele. Evaldo topou, e uma semana depois, apareceu com o óleo extrato integral de Cannabis.

As mãos de Evaldo se acalmaram.

“Meu pai tomou e, cara, foi uma coisa absurdamente maluca. No mesmo dia, já era outra pessoa”, lembra. “A questão do Parkinson não é só tremor. Ele atinge forte a parte emocional da pessoa. Ele dá uma depressão feia. No segundo dia, meu pai já tava fazendo brincadeira, pulando na cama.”

O problema era como conseguir mais óleo para dar sequência ao tratamento. Foi buscar um médico na internet, e encontrou o Dr. Adolfo Almeida, que prescreve Cannabis, mas atende no Rio de Janeiro. As consultas foram por videoconferência. “Ele pediu muito mais exame, informação, que qualquer médico que já fui pessoalmente.”

Almeida passou a acompanhar seu pai e, por via das dúvidas, Evaldo Jr. pediu a um outro médico, amigo seu, mas que não sabia nada sobre Cannabis medicinal, para seguir de perto a saúde do pai. Diante da permanência dos resultados animadores, decidiram pedir à Anvisa a autorização para a importação do medicamento.

A resposta positiva veio em 45 dias, mas não resolvia de vez o problema. Faltava dinheiro para comprar o remédio.

“Quando percebi que não ia conseguir bancar o tratamento, eu pensei que tinha que ter outra alternativa. Ou vou viver do mercado negro? Viver correndo risco, com medo de ficar plantando dentro de casa?”, questiona Evaldo.

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Evaldo Jr e a noiva, Amanda, no começo da produção de Cannabis (arquivo pessoal)

“Quer dizer, se eu tiver dinheiro para importar o óleo da indústria, eu sou 100%, do bem! Agora, se eu plantar e fizer em casa com um custo quase zero, eu sou bandido.”

Descobriu que duas mães de Marília, cujos filhos dependem da Cannabis medicinal, haviam conseguido um Habeas Corpus (HC) que permitia o cultivo a matéria-prima do remédio que necessitavam, em casa. Advogado, foi em busca do seu direito.

Pouco mais de 5 meses depois de conseguir a autorização da Anvisa, a justiça liberou em dezembro de 2019 o plantio de Cannabis.

“O problema é que estamos à mercê de interpretações subjetivas. O procurador que analisou nosso caso deu um parecer totalmente favorável. O delegado da Polícia Federal de Marília, que também precisou dar um parecer, e foi show de bola”, conta.

“Mas eu conheço um caso em que pessoa pediu o HC, e a juíza mandou a polícia fazer busca e apreensão na casa do cara. Você, de doente, pode passar a traficante em uma assinatura. É uma loteria.”

“Quando eu recebi a notícia do meu HC, eu fiquei muito feliz. Fui contar para minha mulher, ela saiu pulando. Imediatamente depois eu senti um aperto. É uma vitória doce, mas tem o fundo amargo. Eu fiz a minha parte, mas só porque tenho condição. Tive um privilégio. Se tivesse que comprar o serviço (do advogado) ou o remédio, não tinha como”.

Agora, com autorização para cultivar até 19 pés de Cannabis por ano, Evaldo Jr. aguarda as plantas crescerem para produzir o óleo. Enquanto isso, sem um acesso regular ao óleo, seu pai passa longos períodos sem tomar o remédio.

Nesses períodos, mal consegue sair da cama – o que o impossibilitou de dar entrevista. Mesmo assim, antes mesmo das flores, já colhem frutos.

“A autorização ajudou na interação familiar. Meu pai ficou feliz com a estufa. Sempre vem e pergunta: ‘como estão minhas plantinhas?”.

Já seu amigo médico, depois que começou a acompanhar o caso, “foi convertido”, como conta Evaldo Jr., e está estudando para também receitar Cannabis medicinal.