Dr. Lauro Pontes explica as relações entre Cannabis, psicologia, saúde mental e vício

Professor de Psicologia e coordenador de pós-graduação sobre sistema endocanabinoide, Pontes participa nesta semana do Medical Cannabis Summit
Lauro Pontes, da Abracannabis

O professor Dr. Lauro Pontes é pesquisador desde 2014 na área de Cannabis terapêutica e foi um dos fundadores da ONG Abracannabis, uma das primeiras associações de pacientes do Brasil. Ele também é autor de uma tese de doutorado que virou livro Maconha terapêutica: controvérsias, versos e vivências.

O pesquisador também é o coordenador do primeiro curso de extensão universitária sobre sistema endocannabinoide do país, que evoluiu para uma pós-graduação em Cannabis Medicinal, em dezembro de 2019. 

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Nesta quinta-feira, Lauro Pontes irá participar da 2ª edição do Medical Cannabis Summit, um seminário online e gratuito voltado a medicina canabinoide no Brasil. O professor irá participar de uma palestra sobre o papel das associações de pacientes no Brasil ao lado do Padre Ticão.

Mas antes, ele conversou com o portal Cannabis & Saúde para contar um pouco mais da sua trajetória. O professor falou sobre a fundação da Abracannabis e a importância dessas entidades para o acesso à medicamentos derivados da planta no Brasil. Também explicou sobre a relação da Cannabis no âmbito da psicologia social, da neurofisiologia, da redução de danos e controle de vício.

O doutor ainda contou mais sobre seu livro, comentou o PL 399/15 e o que a audiência pode esperar da sua participação no evento. Confira!

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Quem é o Lauro Pontes e por que você decidiu se dedicar o estudo da Cannabis?

Sou psicólogo formado em 2000 pela Uerj. Sou cria da Uerj. Fiz mestrado e doutorado lá também. Fiz especialização, enquanto me formava em hipnose e programação neurolinguística no Hospital Miguel Couto. Trabalhei o tempo todo como psicólogo clínico. Fiz vários cursos na área de saúde durante esse tempo até acabar meu doutorado em 2017.

Então, esses 17 anos foram de estudo em muitas áreas da saúde, estudei bioquímica, fisiologia do corpo humano, medicina indiana, medicina chinesa, fitoterapia. Eu me interessei pelo tema da Cannabis depois que já estava fazendo meu doutorado, que seria a priori em deep web. Meu mestrado foi pesquisa em tecnologia, o impacto na sociedade do ato de burlar, a pirataria. Mas eu achei a deep web muito complicado, não de acessar, pois fui consultor de informática, mas do que eu via lá. Não é fácil lidar com aquilo.

Então eu decidi mudar o tema. Vi uma reportagem em um jornal sobre uma rede de cultivadores de maconha que faziam óleo para dar às pessoas. Esse movimento me chamou atenção porque é uma forma de burlar uma lei injusta. Eu fui atrás, mandei e-mail para o repórter que me indicou o advogado e amigo Emílio Figueiredo. Entrei em contato com ele, que me introduziu em todas as frentes daquela época e fui me especializando depois disso.

Você é doutor em psicologia. De que forma a Cannabis e a psicologia se cruzam?

A Cannabis tem todo um aspecto psicossocial envolvido na história dela, tanto da sua proibição como a forma como essa proibição foi praticada na nossa sociedade no mundo todo. A história da Cannabis, a necessidade da redenção histórica dela, a relação perversa de controle e repressão com a população negra no Brasil e tb e com os hispânicos nos EUA, um mecanismo de controle social, que é o controle das drogas, mas também o controle das raças e das etnias. Isso tem tudo a ver com a psicologia social.

Eu também consigo trazer a maconha no âmbito da psicologia no que tange à neurociência, à neurofisiologia. Porque para muito dos quadros que eu acompanho no consultório, principalmente a ansiedade, que é talvez o carro chefe das dezenas de condições que surgem na prática clínica, o óleo de integral rico CBD é uma terapêutica muito eficaz. Sendo professor de fisiologia e conhecendo o sistema endocanabinoide, dá pra dizer que essa será a prática terapêutica de um futuro não muito distante. CBD e os outros canabinoides presentes no óleo integral atuam diretamente nos mecanismo neuroquímicos de ansiedade e coma psicoterapia o resultado é muito interessante. É um auxiliar tremendo. Outro exemplo é a fibromialgia tem sua melhor forma de tratar com com CBD e terapia também. Porque é uma questão de fundo emocional profunda da estrutura psíquica muito presente nas histórias de vida femininas em nossa sociedade.

Antigamente o mantra proibicionista fora de que a maconha era porta de entrada para as drogas. Mas hoje sabe-se que o álcool é essa porta de entrada e que a maconha pode ser inclusive uma porta de saída. Como a Cannabis pode ser usada no tratamento da dependência química?

Na verdade, essa questão da dependência química precisa ser atualizada para um entendimento de uso e abuso das substâncias e entender a pessoa usuária abusiva e não dependente química que reduz algo complexo e inerente a experiência subjetiva do individuo  apenas a reações químicas. Essa expressão está um tanto datada e errada em minha opinião. Ela limita, é inssuficiente.

O usuário abusivo, compulsivo, precisa ser tratado em cima de suas questões emocionais que o levam até esse comportamento. Não há naturalidade no vício. Excluindo ativações epigenéticas da minha fala, o uso abusivo é uma enorme construção dentro da estrutura emocional de cada indivíduo. E esse comportamento que é abusivo, e que não precisa necessariamente ser só das drogas, vai denotar uma característica comportamental da psique dessa pessoa. Isso precisa ser enfrentado.

A gente tem que entender que a droga em si não faz nada, quem faz o uso constante e abusivo é o ser humano. Eu costumo dizer que droga não é radioativa. O carro não mata. Quem mata é o motorista bêbado e irresponsável, usuário abusivo de álcool, por exemplo.

E a maconha, nesse caso, pode ser de grande ajuda porque pode fazer com que a pessoa diminua esse aspecto da compulsão, diminuindo ansiedade e a necessidade do substituto emocional, que é o objeto do vício, ajudando a pessoa a lidar com esses enfrentamentos. e claro, fazendo terapia(s) em conjunto. às vezes, dependendo do caso, de alopatia também, num trabalho em conjunto, multidisciplinar de preferencia, acolhendo o usuário e seu entorno afetivo, para fazer a pessoa melhorar e sair desse quadro profundo de desequilíbrio, um óleo integral rico em cbd com baixo teor de THC pode ajudar muito nessas recuperações.

E, sim, tinha essa crença (na verdade um factoide, parte do movimento da proibição) de que a maconha era porta de entrada. Isso é uma mentira, não tem outra palavra para usar e que hoje a gente sabe, tem estudos, eu mesmo uso um estudo nas minhas aulas, de que na verdade se pode usar a maconha para efeito de redução dos danos de todas as drogas, não só do próprio álcool, inclusive da própria maconha.

Se houver uso excessivo de maconha, o sentimento bom levemente euforizante, vai dar lugar à paranoia, a uma sensação de mal estar, dor de cabeça, nada demais é bom, tudo em excesso faz mal, até água tem dose letal. Mas uma curiosidade importante é que a maconha é uma das pouquíssimas substâncias, talvez a única, que não tem dose letal. Porque a gente não tem receptor no tronco encefálico, não causa parada cardiorrespiratória. A overdose te põe para dormir depois da paranoia e confusão mental e você vai acordar com muita dor de cabeça, muito mal estar. Drogas em geral é caso de saúde é educação, nunca deveria ser caso de polícia. Acerscento que nos dias de hoje os estudos sobre AD/RD estão muito avançados, técnicos e mostram que outras questões antes deixadas de lado, são extremamente importantes, como a questão do setting de uso da droga, o humor do usuário no momento do uso e outras variáveis.

A AbraCannabis é uma das associações pioneiras no Brasil, são mais de 5 anos. O que levou vocês a criarem a ONG e qual o trabalho desenvolvido?

Eu sou um dos fundadores, atualmente um colaborador. Deixei a coordenação executiva que exerci de 2018 até dia 31 de outubro agora, em função dos meus outros compromissos profissionais com a OnixCann e com a pós-graduação que a gente está construindo junto com a Anima.

A Abracananbis surge do nascimento de outra associação, que foi a Ama+Me, fundada em dezembro de 2014 aqui no RJ e em conjunto com os movimentos dos ativistas do Brasil. Mas ali se percebeu uma intenção diferente na condução da direção das associações. No grupo que funda a Abracannabis existia mais essa pegada do plantio individual, de você fazer o seu próprio remédio. Nosso lema sempre foi “Plantar É Fazer Justiça com as Próprias Mãos”. 

Num entendimento de que há espaço para todas as versões, um grupo meio que se separou e dali mesmo já nasceu um embrião. Em março de 2015, surgiu e foi fundada a AbraCannabis. São 5 anos completados no dia 8 de março, data da fundação em homenagem ao Dia da Mulher, já que a planta é fêmea e o movimento surge do amor e do cuidado maternal. A ONG foi criada com esse intuito de levar justiça, de fazer com que a planta seja libertada, que as pessoas se tornem livres para produzir seu próprio remédio.

Maconha é que nem boldo, você tem que ter direito de ter um pé em casa e usar da forma como você quiser dentro de casa. O seu lar é inviolável. Maconha é uma planta, com o seu remédio ali, pronto nela… A gente tem esse trabalho de levar atendimento médico para as pessoas de forma gratuita. Atualmente a grande função da Abra é essa, no nosso site tem também o nosso curso completo. Eu dou aula com outros professores. A ABRA vive do amor dos seus membros, num trabalho muito ético de todos q passaram pela diretoria desde a fundação até hoje em dia. Honramos o nosso estatuto. 

E o trabalho hoje em dia versa em dar essa assistência médica para se conseguir autorização da Anvisa e estimular as pessoas a plantarem seu próprio remédio, ajudando com a técnica e todo suporte possível para fazer com que a pessoa possa ter esse direito adquirido na Justiça para ter um Habeas Corpus. É uma associação bem voltada ao lado social. E claro que encaminha os pacientes que não tem condição de plantar a outros óleos, porque tudo é uma questão de lugar, tem espaço para todo mundo.

Foto da fundação da ABRACANNABIS em 8 de março de 2015.

Você é coordenador do primeiro curso de extensão universitária sobre Sistema Endocannabinoide do país. Que curso é esse é para que tipo de profissional ele é voltado?

Em janeiro de 2019, eu criei um curso de férias sobre sistema endocanabinoide na Santa Úrsula, onde sou professor do curso de psicologia até hoje. No próprio ano de 2019 eu criei uma extensão universitária que dava esse mesmo curso, mas com uma quantidade de horas maior.

Depois disso, como foi um grande sucesso, eu resolvi criar uma pós-graduação em nível lato sensu, uma especialização em sistema endocanabinoide. Estava tocando esse curso na Santa Úrsula, já com a minha parceira de coordenações  a Dra Jackeline Barbosa em dezembro de 2019, lanço esse curso ainda na USU, isso foi numa sexta feira. Esse lançamento faz surgir o Marcelo Galvão (CEO da OnixCann), por indicação do Ricardo Ferreira (prescritor pioneiro de Cannabis no Brasil), que dá o meu contato para ele e num papo muito auspicioso, 2 dias depois ele me convida a levar esse curso num sentido mais ampliado para a parceria com a Anima, que é um grupo de educação de padrão muito alto, padrão ouro.

Então eu topo essa empreitada, interrompo o lançamento na USU e começamos a trabalhar firme visando lançar em março. Mas aí veio a pandemia, tudo parou. Agora estamos em vias de lançar de uma forma online semipresencial um curso espetacular.

Vai ser um curso muito interessante, não vai ter igual no Brasil, são 420 horas/aula, um curso completo que vai envolver todas as áreas, num padrão inédito, super contemporâneo e com os melhores profissionais do Brasil, as pessoas mais gabaritadas, para formar médicos e profissionais de saúde nesse assunto.

Conte mais sobre o seu livro “Maconha terapêutica: controvérsias, versos e vivências” 

Ele é fruto da minha tese. Quando acaba a tese, a gente passa um período de muita aversão ao texto escrito (risos) da defesa do doutorado e tudo mais. Então eu levei um tempinho, passei um ano sem mexer na tese, em 2018 comecei um movimento para tornar ele um livro.

Contratei uma editora. A gente fez todo um trabalho com copydesk, fez uma conversão para uma linguagem acessível ao público. Por um lado, eu pude colocar coisas que eu tive que tirar do texto acadêmico, como uma linha do tempo. Em fevereiro de 2019, eu lancei o livro com uma tiragem de 200 exemplares. E felizmente, ou infelizmente, está esgotado! Só tenho mais três exemplares aqui comigo. Mas é possível comprar como e-book.

Vou construir um site onde vou disponibilizar o PDF de graça, e quem quiser pode dar uma contribuição voluntária. E se quiser comprar o livro físico, a Amazon imprime on demand. Quero ver se consigo fazer isso até o Natal!

O livro fala sobre toda a parte histórica, desde os princípios. É um apanhado dos meus quatro anos de pesquisas, a estrutura da Abracannabis, meu lugar de pesquisa central do trabalho. Traz um relato humano dos pacientes, contando uma história de 12 mil anos até agora. É um livro humano, sobre sensibilidade, questões sociais e que agora vai estar aí para todo mundo!

Com o plantio proibido no Brasil, os medicamentos à base de Cannabis são inacessíveis para muitos pacientes. Por isso muito recorrem a óleos artesanais de associações de pacientes. Qual a sua visão sobre a segurança desses óleos artesanais?

Isso na verdade existe grau de controle. Eu mesmo fiz muito óleo para ajudar as pessoas, embora a Abracannabis não fizesse óleo, a gente sempre dava um jeito de ajudar as pessoas. E sempre foi feito com todo cuidado, com orientação de farmacêuticos amigos.

É uma coisa artesanal, mas nem por isso se torna uma coisa contaminada. Não é feito com prensado. É produzido com técnicas agrícolas orgânicas, não tem nenhum tipo de conservante ou veneno, e a forma como a gente faz foi desenhada por uma farmacêutica. E ainda assim a gente, e toda associação, tem equipes que orientam, auxiliam, indicam o que precisa ser comprado.

É muito parecido com fazer cerveja. Você pode comprar cerveja da Ambev, mas você também pode fazer em casa.

Às vezes, pode ser que dê problema, que dê praga no cultivo, que você perca sua produção. E aí também tem que ter o óleo para comprar na farmácia. A questão é que não excludente. Ela é totalmente inclusiva. É como um gráfico de pizza, onde tem que ter pedaço para todo mundo. E tem que ter porque é direito humano, isso não pode ser condicionado.

Eu não conheço nenhuma associação que faça o óleo de forma leviana, mesmo os pacientes que conseguem plantar já tem um know-how até pelo tempo que você tem que ficar para fazer a semente virar uma planta pronta para ir pra colheita e secagem. Então a pessoa vai se especializando, vai lendo. Há materiais infinitos na internet. Eu acho muito válido, o que não tem nada a ver com o mercado dos óleos produzidos pela indústria. Uma coisa não afeta a outra diretamente. O que afeta é a proibição, ruim pra indústria e para a população em geral. O importante é a gente lembrar que é uma planta, ela oferece um produto pronto que não precisa ser processado.

Qual a tua opinião sobre o Projeto de Lei 399/15?

É uma relação de amor e ódio um pouco (risos). Amor porque ele é ótimo por um lado, ele oferece toda uma gama de possibilidades, vai permitir o cultivo associativo, o cultivo por entidade de pesquisa. Só de permitir o cultivo já é um avanço nesse país tão atrasado, tão conservador, tão fundamentalista como o Brasil em termos de sociedade.

Mas por outro lado ele não contempla a justiça social, a causa negra, que é algo que não poderia ser deixado de fora. É hipocrisia deixar a questão negra de fora de um debate sobre maconha. O PL não contempla o cultivo caseiro que é um direito inalienável, o corpo pertence a quem o habita. É o direito da tua autotutela da saúde. O estado não deve legislar sobre o teu corpo. Mas o próprio Paulo Teixeira (do PT-SP, presidente da Comissão da Cannabis na Câmara), e o Ducci (PSB-PR, relator do PL) já dizem que, se colocar isso aí (cultivo doméstico) não passa. Então fica como sempre tudo nessa politicagem. O Brasil não é para amadores.

Sempre digo, desde a época do doutorado que maconha vai ser legalizada no Brasil pelos motivos errados, e o motivo é o mercado, o dinheiro. Não vai ser pelo o que está errado secularmente. Mas tem aquele ditado que diz que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Então é melhor esse projeto do que nada. Eu sou a favor dele nesse sentido e dessa forma, crítica.

Você será um dos painelistas do Medical Cannabis Summit. Para você, qual a importância de um evento como esse no brasil, online e gratuito, e o que a audiência pode esperar da sua participação?

O evento é muito importante. Todo evento de Cannabis é muito importante. Eu procuro assistir a todos, e o Summit é um evento extremamente bem organizado, com pessoas e palestras muito interessantes, gente de fora, o que há de mais contemporâneo no assunto.

Isso é muito importante, por que é um assunto que muda muito rápido. As aulas que eu dava há 3 anos não são as mesmas aulas que eu dou hoje. Então vai ser um grande evento com grandes palestras, eu espero poder contribuir com um pouco do que a gente falou aqui. Minha vivência e meu olhar que é da área de saúde, mas também é do social, de olhar para o pobre, o doente invisível.

É um mercado muito grande a se construir, pouquíssimos médicos indicam Cannabis hoje no brasil. As faculdades de Medicina precisam reescrever seus currículos incluindo o sistema Endocanabinóide. Eu não guardo o saber, a gente já estuda há 6 anos e tem muito o que contribuir. Então espero que gostem da minha participação, que será feita com muito coração!

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