Como falar com seu médico sobre Cannabis medicinal?

Mães que pesquisaram sobre os efeitos do canabidiol no controle de convulsões precisaram insistir com os médicos de seus filhos para que eles receitassem os derivados da Cannabis no tratamento   

A Cannabis medicinal tem se tornado um assunto de cada vez mais interesse de público e mídia. Segundo a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Pubmed, principal buscador de literatura médica, teve um aumento de cinco vezes mais artigos científicos sobre canabidiol de 2000 e 2019. Apesar disso, a dúvida de como abordar o tema com o médico é recorrente.

Certas epilepsias não respondem aos medicamentos convencionais. Este é o caso de Noah, de 4 anos, portador da Síndrome Congênita do Zika Vírus. A mãe dele, Karly Kelly, iniciou o uso do canabidiol em 2017, sem apoio neurológico.

“Quando fui conversar com a medica ela não aceitou, mas insisti e ela impôs a condição de que o óleo fosse importado”, contou.

Karly lembra que a neurologista não acreditou na Cannabis medicinal e suspendeu o óleo de CDB.

“Não acertávamos a dosagem e ela (médica) disse: vamos parar porque não funcionou com ele (Noah)”, completou.

Após a primeira tentativa, o menino voltou à rotina de muitas convulsões e internações diárias. Noah tem epilepsia refratária, de difícil controle com fármacos tradicionais.

“Ele já fez uso de quase todos os alopáticos para a doença, dieta cetogênica…chegou a tomar cinco anticonvulsivos ao mesmo tempo e ainda tinha crises”.

Segundo a mãe, o filho vivia dopado, não interagia muito e dormia nas terapias.

CBD e THC

A mãe de Noah conta que sempre pesquisou muito sobre Cannabis medicinal, conversava com famílias adeptas ao canabidiol e acreditava na possibilidade do tratamento com óleo de CDB dar certo para o filho.

“Então voltei a conversar com a neurologista, porque a última opção seria um implante, e eu não queria submeter ele (Noah) a isso”, reforçou.

Karly pediu a médica para testar um óleo rico em THC (tetrahidrocannabinol) – principal substância psicoativa da Cannabis. Enfática, argumentou sobre os estudos de canabidiol e THC como água no corpo, mas para a médica, a substância “deixava a criança doidona”, dava “barato”.

“Falei: eu vejo ele (Noah) doidão com todos esses medicamentos (alopáticos) e me responsabilizei se algo desse errado”.Karly também contou para neurologista relatos de outros pacientes com Cannabis medicinal.

“Eu queria dar uma chance ao meu filho para ele ficar acordado, interagir, e não viver dormindo, cheio de medicação”, declarou.

“Lembrei que um dia a médica me falou que se ele (Noah) tivesse umas oito convulsões por dia já estava bom, pelo diagnóstico dele era impossível zerar”, completou Kerly.

Atualmente Noah, de 4 anos, portador da Síndrome Congênita do Zika Vírus, faz uso de dois óleos, um rico em CDB e outro em THC, além dos alopáticos Keppra e Lamitor. O que a neurologista considerava impossível aconteceu: o menino passou um dia e muitos outros sem convulsão.

“Que medicação fitoterápica é essa?”, perguntou médico

Karly Kelly não foi a única a acreditar no óleo de canabidiol. O pai de uma paciente do neurologista funcional Pedro Pierro neto fez o mesmo. A criança, também portadora de epilepsia refratária além de outras síndromes, foi encaminhada para uma cirurgia com o objetivo de controlar as convulsões em 2014, quando tinha 4 anos.

O neurologista reforçou: o pré-operatório e os exames são feitos com muita cautela, para a família entender os riscos e benefícios do tratamento cirúrgico.

“E fazendo isso, de repente essa criança melhorou. Na época eu não sabia explicar, mas, de 30 crises que a menina tinha ao dia, ela passou a ter duas convulsões por semana”, contou.

De acordo com Pedro Pierro, a paciente ficou completamente fora do protocolo cirúrgico e foi reencaminhada ao médico que a acompanhava.

Três meses depois, próximo ao fim daquele ano, o pai da criança procurou Pierro no consultório. A menina estava internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) devido a uma pneumonia. O responsável pela paciente pediu que o neurologista fosse ao hospital com a intenção de retomar uma medicação fitoterápica.

“Eu olhei no prontuário da criança e não tinha nenhuma medicação fitoterápica que eu tivesse passado”, contou Pedro Pierro. Após o neurologista dizer que não sabia do que se tratava, o pai da paciente confessou: ele estava usando um óleo à base de Cannabis na criança.

Dr. Pedro Pierro Neto

Foi o ‘start’ para a Cannabis medicinal

“Na hora eu levei um susto, falei que ele (pai) podia perder a guarda da menina caso alguém soubesse, que ele estava usando algo sem embasamento científico, dei uma lição de moral no pai”, relatou o neurologista.

“Realmente eu não tinha esse conhecimento, mas era uma criança que chamava a atenção porque tinha melhorado sem nenhuma outra conduta”, pontuou Pedro Pierro. Coincidentemente, na mesma semana, voltou ao hospital para realizar um procedimento e visitou a paciente.

“Na conversa, lógico que o pessoal da UTI não ia permitir essa medicação (óleo de CDB), estamos falando de 2014”, disse o neurologista. Pedro Pierro concedeu alta a criança para que ela voltasse para a enfermaria e lá fosse observada.

“Bem, a paciente voltou para a enfermaria, a família continuou dando o óleo (de CDB) e realmente as crises convulsivas começaram a regredir”, lembrou Pedro.

Esse episódio foi como um “start” para o neurologista. A partir daí, ele passou a estudar sobre a Cannabis medicinal e começou a ir a outros países para se manter atualizado sobre o assunto.

A paciente, atualmente com 11 anos, tem consultas anuais para renovar o pedido do óleo Revivid – livre de THC – e apenas um alopático, em dose reduzida. Ela passa meses sem crises e tem somente convulsões ocasionais.

Compartilhe!
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on whatsapp
Share on email