Cannabis ajuda a tratar sequelas da Covid-19, diz Ana Gabriela Baptista

A fisioterapeuta paulistana conta como a Cannabis está ajudando pacientes após terem alta e como o próprio mercado da Cannabis medicinal pode ser afetado pela pandemia

Ana Gabriela Baptista é uma profissional de sinergias. Como fisioterapeuta, ela liga pacientes a médicos. Como consultora canábica, liga medicina tradicional à fitoterápica. Na pandemia, ela percebe a importância dessas sinergias, tanto no tratamento da Covid-19, quanto na disseminação das terapias canábicas, onde ambas são desconhecidas e por isso exigem cooperação entre profissionais de saúde.

Ana Gabriela está entre esses dois mundos. “Apesar de eu não ter o privilégio de prescrever, eu tenho um privilégio que o prescritor não tem”.

Com essa visão única, a consultora relata as possibilidades do uso de canabinoides para a Covid-19. “O que precisamos é não pensar em como vamos combater o vírus, mas como não vamos deixar o vírus estragar o nosso metabolismo”, explica. “Porque na terapia canabinoide tratamos os sintomas, as sequelas, e com a Covid-19 estamos fazendo a mesma coisa.”

Ana Gabriela vai além e analisa o impacto que a pandemia pode ter nos próprio mercado de Cannabis medicinal no Brasil. “Estou vivendo esse momento de forma única. A pandemia vai mudar inclusive a área conservadora.”

A paulistana se formou em fisioterapia na Universidade de Mogi das Cruzes em 2004. No mesmo ano, começou a especialização em neuro-músculo-esquelética – reabilitação na Santa Casa de Misericórdia SP. Também fez lato sensu no Hospital Albert Einstein, em terapia intensiva pediátrica e neonatal, e atualmente está cursando outro lato sensu em adequação nutricional e homeostase – prevenção e tratamento de doenças relacionadas à idade na Uningá. É acupunturista, fez curso de serviço aeromédico, especialista em fitoterapia. Adora estudar.

Hoje, faz parte de equipes médicas em várias especialidades, sempre unindo fisioterapia, reabilitação e terapia canábica. Ministra cursos, palestras, participa de eventos e de parcerias com empresas e instituições canábicas, é coordenadora de programa de paciente da BrevLar, clínica especializada em saúde do sono, onde faz o gerenciamento do programa médico/paciente na área de reabilitação cardiopulmonar. Foi consultora técnica da Indeov, a primeira empresa de Cannabis medicinal a ter apoio da ONU e é consultora técnica na área de terapia canabinoide, na OnixCann.

Acompanhe um pouco do extenso trabalho da fisioterapeuta

Cannabis & Saúde: Como é seu trabalho com a OnixCann?

Ana Gabriela Baptista: Eu faço todo o suporte para o médico da plataforma de telemedicina que a OnixCann lançará no evento (Medical Cannabis Summit). 

É uma plataforma de telemedicina que a OnixCann vai lançar no evento. O médico vai poder fazer a teleconsulta online, inclusive as prescrições. Durante 60 dias, o uso será  gratuito. Depois, um valor pequeno será cobrado por consulta. E os médicos vão ter a segurança de trabalhar com uma plataforma médica. Eu vou ser a consultora técnica que vai dar esse braço para eles. Se o médico quiser, eu acompanho o começo do tratamento do paciente, até que ele se adapte com o óleo, e avalie como está se sentindo. O foco é a consultoria para o médico. 

Não tem ninguém no Brasil que faça esse tipo de suporte, dentro de uma plataforma, na área de Cannabis Medicinal.

Também vou dar uma aula no evento, com um neurologista que componho a equipe dele, faremos um bate-papo ao vivo.

C&S: Fisioterapeuta prescreve?

AGB: Eu posso prescrever fitoterápicos. Cannabis é fitoterápico. Porém a Anvisa classificou Cannabis como C1, que é controlado. Então o fisioterapeuta não pode prescrever Cannabis medicinal no Brasil. Por isso que, nas consultas, eu fico como assistente do médico. Ele senta na cadeira do lado, nós fazemos a consulta e o médico a prescrição.

C&S: Como surgiu a Cannabis na sua vida?

AGB: Eu já estou há 16 anos na área de reabilitação, de qualidade de vida, cardiopulmonar, terapia intensiva. Eu tenho pacientes com dor, neurológicos, já estava acostumada com esses pacientes refratários em que eu fazia a reabilitação. E aí uma amiga que veio do exterior, a Carolina Nocetti me convidou para trabalhar com ela e comecei assim. Estudei, aprendi, e aí comecei a colocar na minha prática clínica, com os médicos com quem eu compunha equipe como fisioterapeuta. Depois comecei a entrar como consultora técnica nas equipes e auxiliar os médicos. 

C&S: Onde adquiriu seu conhecimento técnico sobre a planta?

AGB: Por meio da literatura, com livros e artigos. Também assisti várias aulas nacionais e internacionais. Bem autodidata, porque não temos ainda especialização nessa área ainda.

Tem um livro americano que foi traduzido para o português, que tem que ser livro de cabeceira para médicos que queiram prescrever nessa área. Chama-se Desvendando o Sistema Endocanabinoide Através do CBD. Para quem não conhece, ele dá um panorama de tudo. 

C&S: Como é esse seu trabalho nas equipes médicas?

AGB: Eu participo de equipes nas áreas de neurologia, oncologia, geriatras, pediatras, dermatologistas. Atendo pacientes de Cannabis e acompanho esses pacientes em várias áreas de atuação, diferente dos médicos especialistas. Eu preciso do médico para prescrever e ele precisa de mim por causa do meu conhecimento, porque eu estudo há muito tempo, sou bem dedicada à minha área profissional. E esse acompanhamento do paciente, essa dinâmica de estar lado a lado não é perfil médico e falta tempo da parte deles.

Você passa na consulta, ele te dá um remédio X e você faz o retorno dali a alguns meses. O que eu faço é eu estar aqui todo dia no whatsapp, com o paciente, para dividir um momento bom, uma coisa ruim, um mal estar, qualquer coisa que o paciente sinta. Eu estou disponível para dar um suporte, um acolhimento. O meu trabalho é o suporte ao médico, compondo a equipe dele, mas assistindo o paciente. O foco é no paciente.

Covid-19 e Cannabis

View this post on Instagram

Desde o início da pandemia, o protecionismo médico surgiu quando as nações lutavam por seus próprios estoques de equipamentos de proteção individual e ventiladores. As vacinas para a COVID-19 podem ser o próximo passo, pois já existe o perigo de uma guerra de ofertas de vacinas, com os governos competindo por um número limitado de doses, muito antes de uma vacina chegar ao mercado. Elevado investimento em pesquisa e desenvolvimento de vacinas resultou em mais de 150 candidatos à vacina, dez atualmente em ensaios clínicos, sendo o candidato mais avançado a AZD1222, desenvolvida pela Universidade de Oxford.  • • O acordo é de que 30 milhões de doses serão reservadas para as pessoas no Reino Unido até setembro, como parte de um acordo para entregar 100 milhões de doses no total. O governo dos EUA também quer garantir 300 milhões de doses para uso no país. Mas a questão é a busca por um acesso igual às vacinas.  • • Em junho, França, Alemanha, Itália e Holanda formaram a Inclusive Vaccine Alliance para convencer as empresas farmacêuticas a tornar as vacinas para a COVID-19 acessíveis aos membros da UE. Uma parte das vacinas será disponibilizada para países de baixa renda, inclusive na África, porém, que quantidade terá essa parcela, quais países se beneficiarão dela e quem tomará essas decisões ainda é uma dúvida. • • Muitos países de renda média podem ficar de fora, alguns líderes políticos pediram que as vacinas sejam um bem público global, uma vacina popular, disponível para todos. Ainda há a questão de quem terá acesso prioritário, é preciso acertar a governança dessas decisões, caso contrário haverá a diminuição da capacidade de manter a pandemia sob controle. • • Referência: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)31405-7/fulltext • • © Copyright, todos os direitos reservados a Ana Gabriela Baptista – Imagem e conteúdo de autoria intelectual, não podendo ser copiladas. 2020 • • #covid19 #covidbrasil #vacina #vacinacovid #qualidadedevida #bemestar #saude #reabilitacao

A post shared by Ana Gabriela Baptista 👩🏼‍⚕️ (@baptistaanagabriela) on

C&S: Você tem um programa de reabilitação para pacientes Covid-19?

ABG: Sim, eu desenvolvi um programa de reabilitação cardiopulmonar para pacientes pós alta hospitalar para Covid-19. Não tem protocolo internacional pós alta hospitalar. Eles falam da importância da reabilitação, mas ninguém criou um protocolo ainda. Os pacientes estão fazendo exercícios para expandir o pulmão, melhorar a força dos músculos respiratórios. Para reduzir as sequelas. 

C&S: O seu trabalho parece ser fundamental para entender as sequelas da Covid-19.

AGB: Sim, eu estou numa parte fundamental das duas áreas: tanto a da área pulmonar, quanto da terapia canabinoide, porque os pacientes na pandemia estão desesperados, depressivos, perderam parentes, têm ansiedade, depressão, quadro de dor que exacerbou devido ao estresse, dificuldade financeira, incertezas, pacientes psiquiátricos, neurológicos, tudo isso está estressando. Na área da Cannabis também, está sensível, porque mexeu com todo mundo. Então, nas duas áreas que estão bombando, eu estou. 

Eu durmo 4 horas por noite, trabalho o dia inteiro, sábado e domingo também. Sou apaixonada por isso, se eu ficar um dia parada, doeria dentro de mim. 

C&S: Todos os médicos parceiros gostam da terapia?

AGB: Tenho médicos resistentes. Eles não prescrevem porque gostariam de ter mais conhecimento científico, com mais peso. Eu tenho médicos cientistas que receitam meu trabalho porque entendem que os pacientes estão melhorando com essa técnica. Mas alguns deles não prescrevem, porque, para eles se sentirem mais à vontade, precisariam de mais embasamento científico, mais pesquisa, um tempo maior de tratamento. 

Eu tenho um caso interessante, um médico importante que teve um paciente que, mesmo ele achando que não tinha embasamento suficiente, acabou receitando pelo compassivo, por ter ficado numa situação sem melhora do quadro do paciente, e acabou usando a Cannabis nas consequências da quimioterapia. O paciente melhorou o sono, apetite, fadiga, qualidade de vida. Ele ainda não prescreveu para um segundo caso, mas brinca que daqui a pouco vira prescritor. Mesmo tendo dificuldade de pesquisa e trabalhos fortes, a melhora do paciente sem risco de morte é mais importante.

C&S: A grande resistência dos médicos é a falta de estudos clínicos?

AGB: Sim, falta de pesquisa clínica de qualidade. Hoje qualquer um escreve um paper e joga na revista. E a revista aceita porque isso tem custo. Isso acaba sendo muito sensível para médicos pesquisadores, chefes de grandes centros, tradicionais na ciência. 

C&S: Você acha que a insegurança que a pandemia levantou, pode ajudar de alguma forma as terapias com Cannabis?

AGB: A Covid-19 trouxe isso também e deixou todo mundo de perna bamba, porque de tudo o que estudamos, nesse caso não sabíamos de nada, tudo novo. Até hoje, não há medicamentos para matar o coronavírus, ou para evitar que o vírus se replique, com comprovação científica. Eu vejo as minhas duas áreas de atuação, reabilitação da Covid-19 e Cannabis medicinal, se cruzarem nesse momento. Porque a terapia canabinoide trata os sintomas, as sequelas, e com a Covid-19 estamos fazendo a mesma coisa, tanto na UTI, quanto fora dela. Com o paciente na casa dele, fazendo programa de reabilitação, estamos tratando os sintomas, as sequelas.

C&S: Como é a recuperação na Covid-19 com a Cannabis?

AGB: Eu não sei se é coincidência, precisamos estudar mais essa bioquímica do óleo no vírus, mas, dos meus pacientes mais graves, nenhum fazia uso do óleo de Cannabis.

Tem até tem um estudo clínico que vai começar com os profissionais da saúde, foi aprovada pela Anvisa. Eles vão dar o óleo para ver como o medicamento procede frente ao coronavírus.

Os que eu tenho que fazem uso de óleo rico em canabinoides, a maioria não adquiriu a Covid-19, e os que tiveram, foi numa forma bem branda, alguns até assintomáticos. E pacientes idosos, com comorbidade, não somente pessoas jovens. O que entendemos é que esse óleo modula todos os sistemas do corpo, ele dá um equilíbrio. Temos receptores endocanabinoides no corpo todo, e o vírus atinge vários receptores. Tenho pacientes de Covid-19 que tem comprometimento maior renal, outros mais pulmonar, outros vascular. Tanto a Covid-19 quanto a terapia canabinoide atuam no corpo todo. 

Ao mesmo tempo em que o vírus destrói todos os sistemas, o óleo faz o contrário. Ele modula, é antioxidante, melhora a dor, a coagulação, é analgésico e anti-inflamatório.

C&S: A pandemia pode ter um impacto no uso da Cannabis?

AGB: Estou vivendo esse momento de forma única. A pandemia vai mudar inclusive a área conservadora, presa na ideia de que você tem que tomar um remédio X para sarar, que você tem que fazer um estudo de 10 anos para colocar o remédio na prateleira. Nós estamos vendo, com a Covid-19, preconceitos caírem, novas informações chegam o tempo todo. A pandemia trouxe vantagens para a área da Cannabis, que é restrita e mais sensível por conta do preconceito. A pandemia veio para mostrar que as coisas são bem diferentes. 

Na parte da terapia integrativa, funcional, onde eu trabalho com fitoterapia, práticas integrativas, eu acho que o que a gente mais precisa é não pensar em como vamos combater o vírus, mas como não vamos deixar o vírus estragar o nosso metabolismo. 

Ninguém sabe tudo sobre a Cannabis, e ninguém sabe tudo sobre o coronavírus, todo mundo consulta todo mundo. Isso trouxe uma humildade. Se eu for dermatologista e for prescrever Cannabis  para meu paciente que tem uma dermatite, e esse paciente tem esquizofrenia, eu vou ter que conversar com o psiquiatra. A medicina canabinoide une os profissionais. Como na Covid-19. Os pacientes que eu estou reabilitando, tem pulmão, a  parte motora, neuromotora, sequelados. Os médicos querem saber, entender, é tudo novo. Eu tenho paciente de Covid-19 com Guillain-Barré, que ficou tetraparético (Nota do editor: forma de paralisia incompleta de nervo ou músculo dos nervos superiores e inferiores que não perderam inteiramente a sensibilidade ou o movimento). E eu estou reabilitando, pondo na prancha, fazendo exercícios. E o pneumologista e o neurologista querem saber como ele está. 

Então, eu acho que essas duas áreas em que eu tenho o privilégio de atuar (a reabilitação na pandemia e terapia canabinoide) têm muita sinergia, e vieram para mostrar que têm muito para trazer de novo, o que na medicina tradicional jamais conseguiríamos.

Cannabis medicinal na prática

C&S: Como funciona essa sinergia entre a fisioterapeuta e os médicos?

AGB: Apesar de eu não ter o privilégio de ser prescritora, eu tenho o privilégio que o prescritor não tem, eu posso até ajudar a mãe a organizar o melhor momento da criança tomar o óleo. Porque eu sei o comportamento dela, eu faço a reabilitação, o exercício, eu sei como ela é na escola, eu tenho contato com a professora, com a fonoaudióloga, eu consigo fazer esse acolhimento do paciente para o médico, porque ele não vive isso. 

E eu trago a humanização para os médicos. 

C&S: Qual a importância da Cannabis para tratar patologias?

AGB: Depende de cada área. Dor crônica, atuam no limiar da dor no sistema nervoso central. Pacientes acabam não sentindo tanta dor como tinham antes, relatam que têm a dor mas nem percebem. Parece que está fora do seu corpo. As crianças e adolescentes com convulsões, têm disfunção de neurotransmissor e os canabinoides também se conectam nos receptores e melhoram a parte de neurotransmissão, diminuindo as crises epiléticas. Isso tem evidência científica, ninguém pode ser contra. A Anvisa apoia o médico, autoriza e apoia a prescrição de canabinoides para epilepsia refratária da criança e do adolescente. 

C&S: Qual a taxa de sucesso nos seus pacientes de Cannabis?

AGB: 95%. Quase não tenho paciente que não melhora. Às vezes eu não consigo atingir a dor da queixa dele. Por exemplo: a dor da queixa é lombalgia. Com Cannabis, você sente melhora da dor, mas o paciente ganha mais mobilidade, dorme melhor, fica mais bem humorado, tem mais paciência. Às vezes ele tem uma pequena melhora da lombalgia, mas como sente uma melhora generalizada, fica feliz. Pois melhorou uma série de outros problemas. 

Posso dizer que tenho 95% dos pacientes satisfeitos e 95% de melhora no quadro geral.

Os pacientes de Parkinson são os mais complicados em termos de resultados. Eles apresentam distúrbios de movimento e precisam de mais uso de THC. A Anvisa bloqueia importação de produtos com THC acima de 0,2%. São os pacientes em que eu menos vejo melhora da queixa principal.  

Mas abandono do tratamento eu só tenho por questão financeira, não porque não tenha melhora clínica.

C&S: Como é a rotina do paciente na hora da compra?

AGB: Depois que o paciente sai da consulta com a equipe, a gente discute, e leva em consideração preço, miligramagem, qualidade, certificações, suporte do fornecedor ao cliente, e escolhe qual o melhor produto.

O apoio ao paciente é muito importante. Por exemplo, se ele tem disfagia, que é dificuldade de deglutir, e você escolher um óleo um pouco mais barato, pela miligrama, terá que se administrado muito volume, dificultando para engolir. Com terapia canabinoide dificulta ter um protocolo com tudo igual, ela é muito individual, por termos um sistema endocanabinoide. Dessa forma, traz de volta o que perdemos com a modernização. O paciente passa em uma consulta muitas vezes rápida, sai com uma prescrição, vai até a farmácia, compra e retorna ao médico depois de muito tempo.

A Cannabis trouxe a proximidade, aquele médico antigo muito próximo do paciente, acolhedor, onde a família via um amigo, estava lá nos momentos difíceis, e não só na sua mesa no consultório. Essa terapia trouxe para os médicos jovens, que são mais modernos, uma medicina que eles não conheciam. Os mais práticos não gostam muito porque leva mais dedicação e tempo.

Mas outros, grande parte, estão gostando muito. Acham diferente, mais humano. A terapia canabinoide trouxe essa assistência médico-paciente que eu sempre tive na área de reabilitação, mas na medicina estava se perdendo.

C&S: Como funciona o desmame de remédios sintéticos?

AGB: Os médicos com que atuo nunca têm o desmame como primeira opção, nem criam expectativa no paciente de tirar os sintéticos, porque não sabem como o paciente vai responder. Mas eles acabam precisando mexer na dose ou desmamar. Por exemplo, eu tenho uma paciente que tomava muito antiglicemiante, e também tinha Alzheimer. Ela começou a usar o óleo, precisou tomar doses altas de Cannabis, e começou a se sentir melhor. Como o óleo trabalha a parte de insulina e glicemia, tiveram que mexer na Metformina (sintético para diabetes). 

Alguns pacientes de Parkinson acabam usando menos Prolopa (antiparkinsoniano), depressivos que usam 3, 4 remédios, quando fazem a terapia canabinoide acabam ficando com um só. 

Não é o foco principal, mas muitas vezes acabam até desmamando mesmo. 

Eu deixo os médicos decidirem por eles. Mas, como eu acompanho o paciente, eu consigo dar uma ideia. Olha, doutor, o paciente está tendo queda na pressão, será que ele precisa manter essa dose de anti-hipertensivo?

C&S: Como você lida com os diferentes tipos de médicos e pacientes?

AGB: Tenho pacientes que vêm da rede social, com pouco dinheiro, sofrendo, mas animados com a possibilidade do tratamento com Cannabis, mas não podem pagar pelo tratamento. Isso dói. Alguns pacientes mais simples, quando eu falo da média de valor para tratamento com Cannabis, dizem que gastam mais que isso com remédio, internação, e acabam entrando no tratamento.

Pacientes graves são os que estão com doença avançada, alimentação especial, nas doenças neurodegenerativas, têm um custo mais alto a longo prazo, porque são doenças neurodegenerativas que vão limitando. O óleo vai melhorando, dando qualidade de vida, mas chegam casos avançados que não tem mais onde conectar no cérebro, então melhoram pouco.

C&S: Quais as limitações no tratamento com Cannabis?

AGB: A maior limitação mesmo é a financeira. Tenho pacientes que vêm da rede social, com pouco dinheiro, sofrendo, mas animados com a possibilidade do tratamento com Cannabis, mas não podem pagar pelo tratamento. Isso dói. Alguns pacientes mais simples, quando eu falo da média de valor para tratamento com Cannabis, dizem que gastam mais que isso com remédio, internação, e acabam entrando no tratamento. 

Pacientes complicados também são os que têm situação avançada, alimentação especial, nas neurodegenerativas. Esses têm um custo mais alto a longo prazo, porque são doenças neurodegenerativas que vão limitando. O óleo vai melhorando, dando qualidade de vida, mas chega uma hora que não tem mais onde conectar. Melhora muito pouco. 

C&S: Qual a sua mensagem para os mais de 10 mil inscritos no Medical Cannabis Summit?

AGB: É muito bom que vocês estejam participando do evento para adquirir o conhecimento. Ainda mais gratuitamente, para todos. Que vocês estejam dispostos a se engajar. Eu acredito que o conhecimento é sempre o primordial. Porque as oportunidades vêm, e se você tiver o conhecimento, você tem tudo. Não adianta eu ter o óleo e não saber usar. Não adianta eu ter o dinheiro e não procurar. Porque a gente não tem que só viver. Tem que ter uma vida de qualidade. Na melhor forma que pudermos, dentro das nossas limitações e capacidades. Parabenizo a todos que participarão do evento.

Ana Gabriela Baptista será uma das painelista do Medical Cannabis Summit em agosto. O evento é online e gratuito. Organizado pela OnixCann e a TD Digital, reunirá cerca de 40 profissionais de saúde, direito e sociedade civil. Faça sua inscrição aqui. 
Compartilhe!
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on whatsapp
Share on email