“A Cannabis é um avanço cultural, precisamos superar o preconceito”, diz o advogado especializado Guilherme Takeshi

Participantes analisaram o cenário atual da Cannabis medicinal durante o painel desta quinta-feira, 13, do Medical Cannabis Summit

Embora o preconceito esteja diminuindo, o problema ainda atinge atrapalha o avanço da Cannabis medicinal no Brasil. Este foi um tema constante do painel “Ansiedade, Insônia, Stress e o uso da Cannabis medicinal”.

Durante a conversa, os participantes analisaram o cenário atual, os benefícios e as dificuldades que o medicamento enfrenta. Em torno deste tópico, comentaram a psiquiatra Ana Gabriela Hounie, a paciente Adriana Reis e o advogado especialista do escritório Reis & Souza Guilherme Takeshi. Eles mostraram que médicos que não conhecem o tratamento se recusam a prescrever, pacientes que precisam não têm acesso à informação, o processo de compra e importação ainda é muito mais difícil do que com remédios tradicionais, e o preço continua proibitivo. 

Ana Gabriela Hounie

“Como lida com o preconceito com pacientes. Eu prescrevo para mais de 400 pacientes. O tratamento médico é assunto privado, mas quando eles falam, o preconceito aparece. Eu sofro pelo desconhecimento de colegas, tenho que entrar em contato para explicar. Tenho um paciente que é figura pública e deu entrevista contando que usa Cannabis. Perdeu patrocínio de empresas por preconceito. E esse preconceito começa na sociedade médica. Cerca de 80% é contra, e diz que não há evidência de eficácia, e é compreensível, porque não têm a prática clínica. Os resultados são evidentes, mas ainda não há estudos clínicos.

Como qualquer medicamento, tem efeitos, mas são muito brandos: sonolência, diarréia. Em doses mais altas, pode afetar o fígado. Mas, na comparação com os medicamentos tradicionais, o canabidiol tem muito menos. Achamos que é um exagero precisar de receita azul. Pessoas de baixa renda acabam comprando produtos que não são confiáveis e perdem no tratamento.”

Efeitos colaterais dos tradicionais

“Os anti-inflamatórios agridem o estômago; com uso crônico, causam úlcera, prejudicam rins, levam até à insuficiência renal e necessidade de transplante. Os benzodiazepínicos, como rivotril, diazepam, lorazepam, causam dependência. E o canabidiol não causa dependência e até ajuda a reduzir a dependência de outras drogas – de maconha, opióides, cocaína, crack. Por causa da ação do sistema endocanabinóide, que é de regulação. Um sistema que a gente tem, que regula todos os outros, o cardíaco, neurológico, neurológico e imunológico. Parece exagero, lógico que não resolve tudo, mas resolve muita coisa.”

Tratamento em conjunto

““O ideal é tratamento em conjunto. Posso ajudar colega a prescrever e trabalharmos em conjunto. Oncologistas, veterinários têm usado nos paliativos, para redução de dor e qualidade de vida. Tem tumores que respondem ao tratamento, diminuem usando quimioterapia mais Cannabis. Mas ainda não tem muitos estudos, então alguns médicos têm receio.

Tenho muitos casos, Tourette refratária, autismo. Até apraxia da fala, onde pacientes sem linguagem oral, começam a falar. Paralisia supranuclear progressiva, que é degenerativa, já vi reversão dos sintomas. Paciente que não andava voltou a andar, não comia e voltou a deglutir comida sólida, não falava e voltou a falar. A Cannabis tem poder neurogênico e anti-inflamatório, ajuda em doenças neurológicas e neurodegenerativas. Sem falar na epilepsia, na insônia,depressão, ansiedade. Ainda não tem muitos estudos que amparem conforme moldes exigidos, mas na prática clínica tem benefícios e lógica de ser.” 

O que mudou na sua vida

“Na prática clínica, houve grandes mudanças. Prescrevo para pacientes que não são da minha clínica, na psiquiatria hoje atendo pacientes com  Parkinson, Alzheimer, com doenças neurodegenerativas, epilepsia (que normalmente são atendidas por neurologistas), e me encantei. Há 5 anos estudo, viajo pelo país dando cursos, treino médicos, participo de grupos de discussão. É uma prática voltada para a cannabis.”

Anvisa e regulamentação

“Hoje a Cannabis não é medicamento, a Anvisa não quis se comprometer a chamar de medicamento, porque teriam que liberar outros usos. O que é contrassenso, porque precisa de prescrição, como se fosse um medicamento controlado.”

Adriana Reis

“Sou professora e trabalho com plantas medicinais da caatinga. Sempre fui resistente a tomar alopáticos. Meu filho foi diagnosticado aos 8 anos por equipe multidisciplinar como autista. O psiquiatra disse que não precisaria de intervenção de psiquiatra e medicação. Mas, na adolescência, ele começou a externar o autismo com movimentos repetitivos, problemas de relacionamento interpessoal e sono desregulado, dava pulos. Deu angústia. Eu também tinha com dores, insônia, tomava remédios e não resolvia. 

Até que encontrei o psiquiatra, Dr. Fred Selene, que tirou os remédios e incluiu o CBD. Um belo dia ele falou que eu tinha que cuidar de mim também. Eu tinha crises de pânico de manhã, refluxo, perdi a voz e nada resolvia. Eu comecei a usar o óleo, e tanto eu como meu filho, melhoramos a qualidade de vida. Ele lida melhor com relações interpessoais.”

Remédios tradicionais 

“O medicamento sintético causa mais dano. Quando tratava ansiedade, tive efeitos colaterais mais sérios, e não tinha qualidade de vida. Meu filho, com a medicação tarja preta, depois da estabilização, teve que aumentar a dosagem. 

Já com o canabidiol, a mudança comportamental foi excepcional. E, ao vê-lo bem, já fiquei melhor. Quando usei, fiquei 100% e não fico mais sem. Eu quero muito que os órgãos regulatórios percebam que as pessoas têm direito de ter uma qualidade de vida, o bem estar. Se eu tiver que gritar que eu uso o CBD, eu faço. Quero levar a informação para quem não conhece, e quem não tem acesso. 

A Cannabis mudou tudo. Como mãe, tenho mais paciência nas adversidades, no trabalho e na educação do meu filho. Me sinto muito mais forte, porque não estou dependente.” 

Guilherme Takeshi

“O preconceito impede que as pessoas descubram o medicamento. O que se pode fazer?

O Brasil é signatário de tratados internacionais sobre a matéria, a Constituição dá direito à saúde, fala-se muito de direito à felicidade. Mas há o preconceito com o CBD, vinculado à maconha e o uso recreativo. A legislação de drogas veda o produto. Um avanço cultural foi o uso da Cannabis medicinal. Hoje, há diversos salvo condutos de pais que entram na justiça por não ter tratamento adequado para os filhos. Esses conseguem permissão para plantar em casa, e se cria um mercado informal. Com a Anvisa regulando a matéria, há um ganho social. Mas a Anvisa também veda a publicidade de produtos à base de Cannabis, e limita acesso à informação e à sociedade. Assim, as empresas sérias que investem e tem produto eficaz não conseguem informar a sociedade.”

Legislação atual

“A RDC 327 trata da importação, comercialização e dispensação, a RDC 235 do procedimento de importação por pessoa física de produtos de Cannabis. Ela exige cadastro prévio com prescrição. Feito isso, o paciente tem autorização para importar. 

Elas precisam de aprimoramento e dinâmica, hoje essa autorização sai entre 10 e 20 dias. Ainda que se precise de um tratamento melhor na lei, já vislumbramos um procedimento lícito, que já passa da barreira do preconceito. Resultado: empoderamento do paciente, de escolher o tratamento que é melhor pela sua saúde.

Precisamos superar o preconceito da sociedade e da classe médica.”

O que falta melhorar

“Com a resolução 335, o procedimento ficou mais simples. É cadastro, prescrição, e autorização de importação. O problema é o custeio pelo SUS. Se o SUS se recusar, precisa de medidas judiciais. Também das operadoras de planos de saúde. Porém essa resolução dá autonomia ao paciente para importar o medicamento. 

Agora, imaginava-se que isso baratearia o produto e não é uma realidade. Também teria que se fazer pesquisa e a proibição da publicidade atrapalha. Quanto maior o nível de informação, maior o acesso aos pacientes, o que traria maior aceitação. Quanto maior o número de players no segmento, haverá barateamento dos produtos.”

Preconceito

“Preconceito tem cada vez menos, o que facilita o acesso, movimentação legislativa em prol do segmento. O que contribui com saúde, mas também  pode gerar impacto extremamente lucrativo para a economia. Quanto mais iniciativas como essa, teremos mais pessoas atuantes no segmento.

Quando vamos explicar ao juiz, ainda não é visto com bons olhos. Nos EUA, vemos um 64% de aumento de produtos com cannabis na pandemia porque os americanos estão com ansiedade, em casa. E porque tem publicidade, até porque lá, são suplementos. Aqui, não tem conhecimento e o custo é elevado.” 

Assista ao painel na íntegra

Compartilhe!
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on whatsapp
Share on email