Médicos Prescritores

Janeiro Branco: psiquiatra fala sobre experiência com Cannabis medicinal

O psiquiatra Fernando Calderan começou a estudar a Cannabis medicinal para tratar o Parkinson de seu pai. Hoje, são seus pacientes que se beneficiam no cuidado com a saúde mental

Formado em psiquiatria em 2004, o médico Fernando Calderan viu a Cannabis medicinal entrar em sua rotina fora de seu consultório. Seu pai desenvolveu doença de Parkinson e, além dos tremores, o assistia sofrendo com fortes dores musculares, dificuldades para dormir, e toda uma deterioração em sua qualidade de vida.

Em busca de algo que atendesse a condição , o psiquiatra investiu na Cannabis. “Meu pai tem Parkinson há mais de 15 anos e, com a evolução, ele começou a ter complicações decorrentes da doença. Com o canabidiol, eu tratei as consequências do Parkinson, as dores que ele gera. Houve uma redução do tremor e a sensação de bem-estar melhorou. A qualidade do sono melhorou. O que me deixou bastante animado em relação ao uso de canabidiol.”

Com os bons resultados, se pôs a estudar. “Eu sempre tratei a Cannabis como mais um recurso, uma possibilidade, mas não tinha cursos de formação como tem hoje. Eu fui autodidata. Aprendi na raça, indo buscar em laboratórios que forneciam, pesquisando na internet, em sites médicos e trabalhos científicos.” 

Logo, a Cannabis chegou a seu consultório. Afinal, seus estudos e entusiasmo foi acompanhado do aumento na  divulgação das propriedades medicinais da Cannabis, com a liberação da Anvisa para que os médicos pudessem prescrever. Logo, mais e mais pacientes passaram a chegar em seu consultório em busca dessa nova opção de tratamento. 

“As pessoas buscam principalmente para fugir da medicação psiquiátrica. Os efeitos colaterais desses medicamentos são bastante conhecidos. Na libido, a parte sexual fica bastante comprometida. No ganho de peso”, conta. “Eu acreditei na vantagem de ter menos efeitos colaterais. Até pode ter, como sonolência, mas geralmente é manejado. Não gera abstinência. Se você parar de tomar, não vai passar mal. Não fica com dependência do óleo.”

E é justamente a possibilidade da redução do uso de medicamentos o que mais o animou em relação ao uso da Cannabis. “É o melhor benefício. Principalmente em relação ao sono. É possível trocar um medicamento com mais efeitos colaterais pelo óleo, que gera um impacto bem melhor sobre a saúde de uma maneira geral.”

Benefícios da Cannabis medicinal na psiquiatria


De acordo com Calderan, além do sono, ansiedade e dores crônicas são os sintomas em que mais se vê resultados com o uso da Cannabis. “Ele não trata depressão. Não existem trabalhos comprovando ser eficaz para depressão, a não ser uma melhora secundária. O paciente começa a se sentir menos ansiedade, melhora a qualidade de vida, e acaba tendo uma melhora global na saúde da pessoa.”

Há cinco anos prescrevendo, o psiquiatra já acumula uma grande quantidade de pacientes sob tratamento com os fitocanabinoides. “Eu tenho uma paciente com 83 anos que chegou com um quadro de demência e estava tendo uma evolução muito ruim. Uma agitação grande, delírios, agressividade, dificuldade de sono”, relata.

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“Hoje, com uma dose relativamente baixa, está bastante estável. Diminuiu todos esses sintomas, houve uma melhora na qualidade de sono, voltou a se alimentar e ganhou peso, consegue fazer contato visual e manter uma conversa minimamente organizada. Melhorou muito a qualidade de vida. É um quadro que chama atenção.”

O psiquiatra acredita que cada vez mais a medicina canabinoide estará presente nos consultórios psiquiátricos. “Pela década de 1950, 60, a gente tem os primeiros medicamentos psiquiátricos e, desde então, o que a gente tem é mais do mesmo. A gente busca novos medicamentos com menos efeitos colaterais, que proporcionem uma melhor qualidade de vida, com mais integração à sociedade e eu acho que o canabidiol traz uma possibilidade nesse sentido.”

Janeiro branco: “uma alternativa mais saudável”


“O sistema endocanabinoide é uma descoberta recente. A gente tem receptores em todo o corpo e o que se descobriu é que ele funciona como um regulador corporal”, continuou Calderan. “Não quero usar a palavra ‘revolucionário’, mas é uma outra via. Uma nova forma de tratamento que se apresenta como um recurso dentro da saúde mental que é mais próximo do natural, porque é um fitoterápico. Nesse momento de tanta incerteza, que vemos um aumento do consumo de psicofármacos, vemos que é um recurso muito mais saudável em relação ao efeito colateral quando usado de forma correta.”

Diante tanto potencial, o psiquiatra recomenda que seus colegas de profissão busquem conhecer mais sobre essa promissora opção de tratamento. “Estudar a história da Cannabis e como ela foi criminalizada e banida é uma forma importante de entender porque ela surgiu e porque ela esteve ausente esse tempo todo”, afirma.

“É uma substância como tantas outras dentro da medicina que tem origem de plantas. Não é novidade usar plantas para curar, tratar e melhorar a vida das pessoas. Então eu acho que os colegas devem pelo menos conhecer. Nem que seja para optar por não tratar com a Cannabis, mas para ter uma visão crítica sobre o assunto.”

Felipe Floresti

Editor, repórter e jornalista especializado em Cannabis Medicinal

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