Cannabis & Saúde

Número de médicos passa de 500 mil no Brasil, mas faltam profissionais longe das capitais

Desse universo, menos de 1% já prescreveu alguma medicação com Cannabis
medicina

O Brasil tem hoje mais do que o dobro de médicos que tinha no início do século. Em 2000, eram 230 mil. Em 2020, eles somam 502.475 profissionais. Nesse período, a relação de médico por mil habitantes também aumentou significativamente. Passou de 1,41 para 2,4. É o que mostra o estudo Demografia Médica no Brasil 2020, resultado de uma colaboração entre o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Universidade de São Paulo (USP). Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (13).

Em 2019, apenas 1100 médicos prescreveram medicamentos com Cannabis no Brasil, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. isso cerca de 0,2% de profissionais. O portal Cannabis & Saúde aguarda um levantamento atualizado da Anvisa para 2020.

A proporção de médicos por habitantes no Brasil é superior à do Japão e se aproxima dos índices dos Estados Unidos (2,6), Canadá (2,7) e Reino Unido (2,8). “Temos médicos em número suficiente para atender a população brasileira, o problema está na distribuição. Assim como outros profissionais, os médicos estão concentrados nos grandes centros”, argumenta o presidente do CFM, Mauro Ribeiro.

Segundo mostra o estudo, em estados das regiões Sudeste e Sul e em cidades mais desenvolvidas a proporção é muito maior do que a razão de 3,5 médicos por mil habitantes, que é a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nas capitais brasileiras, essa média fica em 5,65 médicos por grupo de mil habitantes, sendo que as maiores concentrações foram registradas em Vitória (13,71), Florianópolis (10,68) e Porto Alegre (9,94).

Dados do último Século

Nos últimos 100 anos, o aumento no número de médicos foi 5 vezes maior do que o de habitantes. Em 1920, ponto de referência do estudo, existiam 14.031 médicos no país. Um século depois, a quantidade é 35,5 vezes maior. No mesmo período, a população do país aumentou 6,8 vezes, passando de 30 milhões para 210 milhões de habitantes.

Projeção 

A perspectiva é que a proporção de médicos por grupos de 1.000 continue crescendo, já que esses profissionais trabalham em média 40 anos e anualmente cresce o número de novos formandos. Estima-se que, em 2024, 31.849 novos médicos entrem no mercado de trabalho. A projeção feita pelo professor Milton de Arruda Martins, da USP, é que daqui a 45 anos o Brasil tenha cerca de 1,5 milhão de médicos para aproximadamente 250 milhões de habitantes.

Para o CFM, está claro que a formação desenfreada de novos médicos vai impactar o mercado de trabalho. Porém, a preocupação maior da entidade é com a qualidade dos novos formandos, principalmente àqueles oriundos das faculdades que não oferecem campos de estágio, hospitais de ensino e outras condições para a boa formação. “Nosso temor é com a saúde da população, que está sendo atendida por médicos formados em escolas desestruturadas e sem locais de prática”, argumenta.

Desigualdade na distribuição dos médicos dificulta o acesso da população aos cuidados em saúde

Ao avaliar os dados do estudo, se percebe que há distribuição desigual entre as regiões do país e entre as áreas metropolitanas e o interior. As áreas mais afetadas são as menos desenvolvidas, as mais distantes e as de difícil provimento (com altos índices de violência, por exemplo).

Enquanto a média nacional é de 2,38 médicos por 1.000 habitantes, há lugares, como Vitória (ES), onde a proporção é de 13,71, enquanto em municípios com até 5 mil habitantes, são 0,37 médicos por mil habitantes. Porém esse problema não afeta apenas a presença do médico, o estudo Demografia Médica já revelou em edições anteriores que nos locais sem cobertura também não há profissionais de outras categorias, inclusive da área da saúde.

“Localidades com esse perfil – população pequena, sem atividade econômica definida ou com baixos indicadores de desenvolvimento humano – não atraem e fixam profissionais. Neles, o mercado não se autorregula. Assim, cabe ao Estado, por meio de políticas indutoras levar e manter médicos e outros profissionais nestas áreas. Para isso devem ser oferecidas condições de trabalho e remuneração adequadas”, disse o 1º vice-presidente do CFM, Donizetti Giamberardino.

Melhora

Contudo, apesar de poucas iniciativas do setor público neste sentido, todas as regiões brasileiras apresentaram melhora na relação médico e população atendida. Porém, como ressaltam os representantes do CFM, persistem as distorções percebidas na Demografia Médica 2011 e mantidas em todas as edições seguintes. Ao analisar o quadro, percebe-se que o Norte (1,30) e Nordeste (1,69) apresentam uma média menor do que o índice nacional, enquanto o Sul (2,68), Centro-Oeste (2,74) e Sudeste (3,15) exibem um desempenho melhor.

Pela primeira vez na série histórica, nenhum estado apresentou razão menor do que um (1) médico por mil habitantes. Em todo o país, apenas quatro estados apresentam proporção de médicos por mil habitantes inferior a metade da média nacional, ou seja, 1,2. Por outro lado, outros sete relatam um desempenho acima de 2,4 médicos por mil habitantes. Os destaques são Distrito Federal, com 5,11, seguido por Rio de Janeiro (3,70) e São Paulo (3,2).

Capitais e grande centros concentram a maioria dos médicos brasileiros

A Demografia Médica no Brasil 2020 confirma o que o CFM denuncia há anos: há falta no país de políticas públicas que fixem os médicos e demais agentes de saúde no interior do país. Isso fica evidente na análise dos números. Enquanto nas 27 capitais a média é de 5,65 médicos por mil habitantes, nas cidades do interior é de 1,49. Enquanto abrigam 23,8% da população, as capitais concentram 54,2% dos médicos

As maiores taxas nas capitais estão em Vitória (13,71), Florianópolis (10,68), Porto Alegre (9,94) e Recife (8,18). Já Macapá (AP) e Rio Branco (AC) têm as menores taxas (1,77 e 1,99, respectivamente), apresentando, inclusive, um percentual menor do que a média nacional geral.

No comparativo entre as regiões, as capitais do Norte têm 2,94 médicos por mil habitantes, seguidas pelas capitais do Nordeste (5,30), Centro-Oeste (5,44), Sudeste (6,15) e Sul (8,35).

Para Mauro Ribeiro, os números mostram a necessidade de uma política que fixe o médico no interior e nos pequenos municípios. “O médico precisa ter segurança financeira e de infraestrutura, além de uma rede de referência e contrarreferência. Sem essas condições, é quase impossível fixar qualquer profissional em alguns locais”, argumenta.

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