Resumo do primeiro dia do Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal

Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal

Veja um pouco do que rolou de melhor no primeiro dia do Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal, parte da Medical Cannabis Fair

Começou nesta terça-feira (3) o Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal, principal evento do setor no Brasil que é realizado dentro da Medical Cannabis Fair, reunindo mais de 70 participantes ao longo de quatro dias. Tanto a feira canábica fazem parte da Medical Fair Brasil, a versão brasileira da MEDICA, a maior da indústria médico-hospitalar do mundo, que está sendo realizada no Expo Center Norte, em São Paulo, até sexta-feira (6).

O portal Cannabis e Saúde esteve lá para acompanhar tudo que rolou no Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal e traz um resumo com alguns dos trechos mais interessantes das palestras do primeiro dia de evento, cuja temática era as aplicações da Cannabis no cuidado da saúde dos pacientes.

A história do sistema endocanabinoide e sua farmacologia

O neurocientista Renato Filev foi o responsável pela primeira palestra do dia sobre “A História do Sistema Endocanabinoide e sua farmacologia”. Ele traçou uma linha do tempo sobre a relação humana com a Cannabis, que data de 12 mil anos atrás, com os primeiros indícios de domesticação da planta e todo o processo que a levou de importante matéria-prima e medicamento até a proibição, ainda na primeira metade do século passado, com base em argumentações racistas.

Em seguida, sobre a “redescoberta” da Cannabis medicinal, iniciada por Raphael Mechoulan ainda na década de 60,com o isolamento do THC e CBD, enquanto o mundo via o surgimento da Guerra às Drogas, iniciada pelo governo dos EUA. 

Destacou os trabalhos de Helen Turner, especialista em biologia celular e molecular, que caracterizou os receptores canabinoides e desvendou parte do mecanismo de ação do sistema endocanabinoide, como um neurotransmissor retrógrado. Um trabalho seguido por Vincenzo Di Marzo, químico biomolecular, que mapeou as vias metabólicas do sistema endocanabinoide expandido.

“Eu gostaria de destacar a característica complexa do sistema endocanabinoide. Cada indivíduo apresenta e expressa essas moléculas (os fitocanabinoides) de maneira muito singular, atrelado ao sistema endocanabinoide”, disse. “É importante prestar muita atenção para qual canabinoide e qual o perfil da pessoa que vou oferecer essa terapia.”

Os cuidados nas interações medicamentosas e vias de administração

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Renata Monteiro

Renata Monteiro que é mãe e paciente de uso medicinal da Cannabis, farmacêutica, pós-graduada em Cannabis medicinal, homeopatia, cosmetologia, gestão em indústria farmacêutica e especialização em ciência psicodélica, deu sequência aos trabalhos.

De início trouxe uma informação que contraria o que muitos pensavam. São das infrutescências, não das inflorescências, que se extrai os princípios ativos medicinais da Cannabis, de acordo com uma pesquisa realizada em 2021. O destaque, no entanto, foram alertas sobre a interação entre os fitocanabinoides e medicamentos alopáticos.

“A Cannabis é totalmente segura em comparação com os opioides, antidepressivos, mas é preciso ter bastante atenção com a combinação desses medicamentos”, afirmou. “Alguns medicamentos podem inibir a enzima que metaboliza o CBD, resultando no acúmulo de canabidiol no corpo. Outros medicamentos, como anticonvulsivantes, agem de maneira oposta, acelerando o metabolismo do CBD pela enzima e resultando na redução da biodisponibilidade de CBD.”

Segundo Monteiro, a Cannabis pode potencializar os efeitos de opiáceos, benzodiazepínicos, fluoxetina e de anticoagulantes e a administração em conjunto requer cuidado.

Desafios nos tratamentos neurológicos com canabinoides

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Luís Otávio Caboclo

Em sua palestra, o neurologista e neurofisiologista clínico Luís Otávio Caboclo remontou um histórico do uso de Cannabis para tratamento de distúrbios neurológicos, como a epilepsia em destaque. Relembrou, por exemplo, que em 1840, um médico irlandês, William O’Shaughnessy, escreveu um artigo sobre seus experimentos com o extrato da Cannabis para o controle de convulsões em uma criança na Índia.

No entanto, ele afirma que estudos ainda mais antigos já falavam sobre Cannabis no tratamento de espasticidade e dor crônica. Paralisada pela proibição, os estudos só retornaram na segunda metade do século passado, com destaque para o cientista brasileiro Elisaldo Carlini e sua pesquisa sobre os efeitos antiepiléptico do canabidiol. 

Hoje, as evidências científicas e casos clínicos demonstram o benefício dos canabinoides para tratamento de gliomas cerebrais e doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. 

“A epilepsia está bem fundamentada. Os tumores cerebrais são uma área promissora, assim como as doenças neurodegenerativas. São doenças que precisamos desesperadamente de um tratamento, mas não temos para nenhuma. Então, se existe uma possibilidade, ela deve ser buscada.”

Os avanços no tratamento de dores através dos canabinoides

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Pedro Pierro, neurocirurgião funcional, destacou a condição que afeta, em números conservadores, 20% da população brasileira: a dor crônica. Existem limitações na medicina para o tratamento da dor. Opioides, quando mal administrados, carregam o risco de desenvolver vício e overdose. A Cannabis surge como alternativa.

A Cannabis é utilizada há milênios no tratamento para a dor e, hoje, as ciências sabem um pouco mais sobre como diferentes fitocanabinoides podem auxiliar na melhora da qualidade de vida dos pacientes.

O CBG, canabigerol, um canabinoide crucial para a síntese de outros canabinoides da planta, age junto ao receptor CB2 para reduzir a produção de óxido nítrico por células macrófagos do intestino e, assim, auxilia no tratamento de doenças inflamatórias intestinais. Ele também possui atuação benéfica em casos de dor neuropática periférica.

O CBC, canabieromeno, é essencial para o efeito comitiva (entourage). No organismo, aumenta a liberação de anandamida, com ação anti-inflamatória e analgésica. Atua em doenças intestinais, como síndrome do intestino irritável, além de ajudar no tratamento da acne.

Isso sem falar dos mais conhecidos, CBD e THC, com ação anti-inflamatória e na redução da percepção da dor, respectivamente. “A dor crônica, no Brasil, tem todas as características de doença, mas não tem nenhuma política pública para lidar com dor crônica”, diz Pierro.

“Se você não olhar para uma forma de tratamento menos perigosa que os opioides, com efeitos colaterais mais controlados, a gente está abrindo mão da qualidade de vida de 20% da população brasileira.”

Novas fronteiras no uso de canabinoides no Transtorno de Espectro Autista

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A neurologista infantil Stella Pinto dos Santos explicou que o autismo deixou de ser uma doença para ser classificada como um transtorno pela evolução do entendimento que não há necessariamente algo de errado com quem é diagnosticado com TEA. São pessoas diferentes que, como todos nós, precisam trabalhar para minimizar as suas dificuldades e maximizar as habilidades.

Sendo assim, não há uma terapia padrão para todos os pacientes. De acordo com os sintomas, pode ser adotado fonoaudiologia, psicologia comportamental, entre outras. Essas abordagens possuem limitações pois dependem do engajamento do paciente e se tornam inviáveis diante sintomas de agressividade e agitação.

Tratamentos farmacológicos tampouco são muito eficazes, além de carregarem efeitos colaterais. Nesse contexto, o canabidiol pode ser uma alternativa, pois já demonstrou ser eficaz no controle da ansiedade, agressividade, pânico, acessos de raiva e comportamentos autolesivos, que são alguns dos sintomas que mais afetam a qualidade de vida de pacientes e familiares.

Também é possível melhorar outros sintomas chave da TEA, como interação social e atenção. “A gente precisa ser corajoso para começar uma terapia nova, uma droga nova, para não ficar conformado com os nossos limites.”

Canabinoides nos cuidados paliativos oncológicos

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Sandra Caires Serrano

Sandra Caires Serrano, médica pediatra e neurologista, foi a responsável pela palestra sobre o uso da Cannabis no tratamento do câncer. Seu foco foi o cuidado holístico ativo ofertado a pessoas que encontram-se em intenso sofrimento relacionado à sua saúde. 

Estima-se que 40 milhões de pessoas no mundo necessitem de cuidados paliativos todos os anos, sendo 78% em países de baixa e média renda. Apenas 14% desse total recebem esse cuidado efetivamente. Os pacientes de câncer representam 32% de todos que precisam dos cuidados paliativos.

Existem evidências substanciais quanto à eficácia dos canabinoides na dor relacionada ao câncer, além de auxiliar no alívio de náuseas e vômitos induzidos pela quimioterapia. Há evidências também para o uso em casos de caquexia, mas os resultados são inconclusivos. Pesquisas ainda demonstram eficiência no tratamento de distúrbios de sono, fadiga, ansiedade e depressão, e ajudam a reduzir a necessidade de opioides. 

“O ideal é que a use medicamentos que tivessem o mínimo de efeito colateral, com o mínimo impacto sobre a qualidade de vida. Quando esses efeitos colaterais são muito impactantes, atrapalham demais a vida da pessoa. Muitos pacientes preferem sofrer de dor e desconforto do que tomar a medicação, de tão mal que a medicação faz”, afirma.

As aplicações dos canabinoides na Medicina Integrativa

Médica e consultora técnica em terapia canabinoide médica, Carolina Nocetti falou sobre a medicina integrativa e como a Cannabis entra neste contexto. Ela explicou que a medicina tradicional se hiperespecializou em pedacinhos do corpo humano, a medicina integrativa segue o caminho oposto, tratando ao mesmo tempo de diversos fatores fundamentais para nossa saúde, nutricional, física e psicológica.

Dentro desse contexto, a Cannabis pode ser utilizada para regular questões pontuais que acabam por prejudicar a qualidade de vida dos pacientes, como dor, insônia, ansiedade, depressão, falta de apetite. No entanto, ela afirma que a Cannabis pode até funcionar, mas pouco adianta se outros aspectos da vida do paciente não acompanharem o tratamento.

Ela resume sua abordagem com a sigla PAM, de pensamento, alimento e movimento. O cuidado com a mente, com o que comemos e com o corpo, por meio de atividades físicas,  devem estar sempre presentes em uma vida saudável. “Não é só Cannabis. É todo um modelo terapêutico em busca da qualidade de vida do paciente.”

Acompanhe o portal Cannabis & Saúde para conhecer o conteúdo do segundo dia do Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal.

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