Expo Cannabis: O que o Uruguai pode ensinar ao Brasil?

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Tão longe e tão perto. Essa é a sensação do público brasileiro ao ingressar no centro de exposições de Montevidéu para a Expo Cannabis Uruguay. Tão perto no espaço – são só 800 km de Porto Alegre (RS) – mas tão distante no tempo: já são 8 anos de legalização da maconha. E as flores desse mercado pujante são colhidas durante a feira, que rolou de 3 a 5 de dezembro.

Logo ao entrar no primeiro pavilhão, dezenas de plantas cheirosas, floridas e bem ornamentadas recepcionam o viajante. Dentro da feira, empresas mostram as últimas novidades desse setor em ciência e tecnologia: das genéticas mais elaboradas de sementes aos modernos aparelhos de extração, tanto para fins medicinais como de uso adulto.

Cosméticos com CBD, bebidas e alimentos com CBD e roupas com 100% fibra de Cannabis eram outras possibilidades presentes na feira e também na economia do país.

Do lado de fora, a praça de alimentação, as torneiras de chopp – algumas com terpenos de maconha ou CBD – e o palco com bandas locais davam mais a impressão de um festival de música do que um evento de negócios. Mas o business era intenso lá dentro.

A feira tem o foco no uso adulto – são a esmagadora maioria dos estandes. Mas o medicinal e o industrial começaram a ganhar espaço nos últimos 3 anos – garantindo um pavilhão só para esses setores. Desde 2013, o país concedeu 150 licenças de cultivo, mais de 80% delas para fazendas de cânhamo. As demais são para fins medicinais e uso adulto. Ao todo, são 164 empresas dedicadas ao setor.

Hoje o Uruguai é o maior exportador de flores padrão farmacêutico para a Suíça, que por sua vez é a maior produtora de CBD da Europa.

Mas esse posto deve ser ultrapassado com facilidade pelo Brasil.

“Temos que aproveitar que o Brasil não legalizou ainda”


“Nós aqui no Uruguai temos que aproveitar enquanto o Brasil não é legalizado, porque vocês vão legalizar. E quando esse dia chegar, vocês se tornarão os maiores produtores de Cannabis do mundo”, prevê Mercedes Ponce de León, diretora da ExpoCannabis e maior referência no assunto hoje no país.

O governo calcula que o mercado de consumo de maconha movimenta US$ 40 milhões (R$ 164 milhões) ao ano. No Brasil, esse valor pode chegar a R$ 26 bilhões

“O Uruguai tem muito a ensinar ao Brasil. O processo pelo qual eles passaram conseguiu separar muito bem as duas coisas. Aqui o mercado medicinal é bem estabelecido, e o de uso adulto também. Os dois setores não brigam entre si. Tenho certeza que o Brasil em breve chegará nesse cenário e também terá uma feira como essa”, acredita o empresário Jaime Ozi, vice-presidente do grupo brasileiro OnixCann e presente na feira.

Uma questão de saúde pública


Além disso, o Uruguai pode ensinar ao Brasil que a legalização não causou aumento relevante, nem no consumo, nem na criminalidade. A regulamentação da venda da maconha em 2017 reduziu o mercado ilegal da droga em 25%, segundo o próprio governo, e diminuiu a violência ligada à comercialização. O sucesso da política é tão grande que o próprio governo patrocina a Expo Cannabis e considera o evento de interesse nacional.

Mas o principal é esse: a legalização garante qualidade e procedência dos produtos aos usuários. Uma questão de saúde pública. Se no Brasil a única opção é o prensado repleto de fungos, urina, químicos e metais pesados, no Uruguai o usuário sabe qual a genética da planta e até a porcentagem de canabinóides que está consumindo. Ele pode optar por uma planta que dê energia, que disperte a criatividade ou para relaxar à noite.

E claro, gerando empregos e impostos, enquanto no Brasil esse mercado continua um monopólio do crime organizado. É claro que a legalização da maconha não vai resolver o problema da guerra às drogas, mas é um começo.

Se ao entrar no parque de exposições de Montevidéu a sensação era de estar tão perto e tão longe ao mesmo tempo do Brasil, ao deixar a Expo Cannabis Uruguay o sentimento é de que falta pouco para o nosso país finalmente abandonar o proibicionismo e entrar de vez no Século 21.

Quase todos os nossos vizinhos já legalizaram alguma forma de plantio. E nós, que fomos o último país do mundo a abolir a escravidão de pessoas, seremos também os últimos a legalizar essa planta?

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