Uma pesquisa publicada recentemente na revista Lung destacou o papel do sistema endocanabinoide, especialmente do receptor canabinoide tipo 2 (CB2), na redução das lesões pulmonares causadas pela COVID.
Os cientistas norte-americanos testaram o composto HU308, um agonista seletivo do CB2, em um modelo animal de infecção pelo SARS-CoV-2, e observaram melhora na função pulmonar, redução da inflamação e menor ativação das células do sistema imune ligadas às formas graves da doença.
Quando a inflamação sai do controle
A COVID-19 pode desencadear a chamada “tempestade de citocinas” nos pulmões, termo usado para descrever uma resposta inflamatória exagerada no organismo.
Citocinas são proteínas que coordenam a defesa do corpo, mas, quando liberadas em excesso, podem causar danos graves aos tecidos.
Nos casos mais graves, essa inflamação descontrolada pode evoluir para síndrome do desconforto respiratório agudo. Nessa condição, os pulmões deixam de oxigenar o sangue adequadamente, além de contribuir para falência de vários órgãos.
Embora as vacinas tenham reduzido drasticamente hospitalizações e mortes, ainda há necessidade de terapias que controlem a inflamação nos pacientes que desenvolvem formas graves da doença.
O sistema endocanabinoide e o receptor CB2 na COVID
O sistema endocanabinoide é um conjunto formado por receptores, moléculas produzidas pelo próprio corpo e enzimas que regulam diversos processos, como dor, inflamação, sono e resposta imune.
Entre seus principais componentes estão dois receptores:
- • CB1, mais abundante no cérebro.
- • CB2, presente principalmente em células do sistema imunológico.

O CB2 é especialmente interessante porque sua ativação está ligada a efeitos anti-inflamatórios sem provocar efeitos psicoativos, como alterações na percepção e sensação de euforia.
Como a COVID grave envolve inflamação intensa nos pulmões, os pesquisadores buscaram um alvo capaz de modular essa resposta exagerada. O CB2 foi escolhido porque está presente em células de defesa, como macrófagos e neutrófilos, e por já ter sido associado à regulação da inflamação em outros estudos.
Como o experimento foi feito
Os pesquisadores usaram um modelo animal da infecção pelo vírus SARS-CoV-2 que reproduz vários aspectos da inflamação observada na COVID em humanos. Uma hora após a infecção, os animais receberam HU308 e foram avaliados por 48 horas.
Como um agonista do CB2, o HU308 atuou em múltiplas frentes no modelo de COVID:
- • Reduziu a entrada de células inflamatórias nos pulmões;
- • Diminuiu a produção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-1ß e TNF-α;
- • Aumentou os níveis de IL-10, citocina com efeito anti-inflamatório;
- • Bloqueou as vias inflamatórias NF-κB e STAT3, mecanismos moleculares que funcionam como “interruptores” da inflamação;
- • Limitou a ativação excessiva de neutrófilos;
- • Restaurou a atividade da proteína Nrf2, responsável por ativar mecanismos antioxidantes e proteger os tecidos contra danos inflamatórios.
Em conjunto, os dados indicam que a ativação do CB2 pode diminuir a resposta inflamatória exagerada desencadeada pelo vírus.

Já existem substâncias que ativam o CB2?
É importante destacar que o HU308 é um composto sintético usado apenas em pesquisas e não é um medicamento disponível para tratamentos.
Hoje, os compostos mais estudados capazes de interagir com o sistema endocanabinoide e o receptor CB2 vêm da planta Cannabis, como:
- • Tetrahidrocanabinol (THC): é um agonista parcial tanto do CB1 quanto do CB2.
- • Canabinol (CBN): tem afinidade fraca pelo CB1 e maior pelo CB2.
- • Tetrahidrocanabivarina (THCV): pode atuar como agonista de CB2 e seu comportamento depende da dose.
Além disso, o terpeno beta-cariofileno, presente em algumas variedades de Cannabis e em especiarias como pimenta-preta, é um agonista seletivo do CB2.
Próximos passos da pesquisa
Os autores reconhecem que mais estudos são necessários e os próximos passos incluem testes de segurança e ensaios clínicos em humanos.
Se os resultados se confirmarem, o receptor CB2 pode se consolidar como um novo alvo terapêutico para controlar a inflamação excessiva em doenças respiratórias virais, como a COVID.
Evidências anteriores já apontavam esse caminho
A ideia de que o sistema endocanabinoide pode ser um alvo terapêutico na COVID já foi avaliada anteriormente por pesquisadores. Estudos já indicavam que a modulação desse sistema poderia ajudar a controlar a resposta inflamatória exagerada associada às formas graves da doença.
Uma análise observacional com pessoas que consumiam produtos à base de Cannabis encontrou taxas menores de infecção grave por COVID. De acordo com os autores, os consumidores de canabinoides apresentaram menor necessidade de intubação, menor mortalidade e tempo reduzido de internação hospitalar quando comparados a não consumidores.
Outro trabalho apontou benefícios potenciais do uso de medicamentos à base de Cannabis na redução de sintomas da chamada COVID longa. Essa condição é caracterizada pela persistência de sintomas como fadiga, dor e distúrbios do sono após a fase aguda da infecção.
É importante destacar que esses resultados indicam um potencial terapêutico, mas que ainda exigem ensaios clínicos robustos para confirmação.
A regulamentação no Brasil
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza a importação e a comercialização de produtos à base de Cannabis sob prescrição médica.
O uso desses medicamentos deve sempre ocorrer com acompanhamento profissional, considerando indicação clínica, dose adequada e possíveis interações medicamentosas.
Portanto, se você ou alguém próximo deseja experimentar os benefícios dos canabinoides, busque orientação médica. Na plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com profissionais experientes nesse tipo de abordagem.