No Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico, celebrado em 8 de julho, a Cannabis também entra no centro da conversa.
Em uma área ainda marcada por estigmas, receio e debates sobre regulação, pesquisadores brasileiros têm ajudado a transformar dúvidas em conhecimento científico.
Para mostrar a diversidade desse campo, o Cannabis & Saúde ouviu três profissionais que atuam em diferentes frentes de pesquisa, da educação e do desenvolvimento em Cannabis medicinal. São eles: Aline Gonçalves Goulart, Lorrany Teixeira e Rafael Mariano Bitencourt.
Suas trajetórias mostram que a ciência sobre a Cannabis não depende de uma única área do conhecimento.
Três pesquisadores, diferentes olhares sobre a Cannabis

Aline Goulart é mestre em Medicina Veterinária Convencional e Integrativa. Ela atua em educação, pesquisa e desenvolvimento de Cannabis medicinal aplicada ao cuidado animal.
Sua trajetória representa uma frente em expansão no Brasil: o uso de derivados da Cannabis na medicina veterinária.

Lorrany Teixeira é mestranda em Química dos Produtos Naturais e Ecologia. Sua atuação envolve fitoquímica, técnicas de análise em laboratório, pesquisa científica aplicada e consultoria.
Atualmente é curadora científica da ExpoCannabis. Ela traz o olhar da química, dos produtos naturais e da inovação para o debate sobre Cannabis.

Rafael Bitencourt é doutor em Farmacologia e atua desde 2005 em pesquisas com Cannabis medicinal. Tem dois livros publicados, além de artigos científicos.
Ele traz a perspectiva de quem está nos laboratórios e na universidade.
Onde as evidências sobre Cannabis são mais fortes
Rafael destaca que o Brasil tem um papel histórico nesse campo. O professor Elisaldo Carlini foi um dos pioneiros nos estudos com canabidiol, o CBD, incluindo pesquisas clínicas em epilepsia na década de 1970.
“Antes de a Cannabis medicinal virar pauta global, a ciência brasileira já estava abrindo essa trilha”, lembra o farmacêutico.
Segundo Rafael, as evidências mais robustas estão no tratamento de epilepsias refratárias. É o caso, especialmente, das síndromes de Dravet, Lennox-Gastau e do complexo da esclerose tuberosa. Além disso, ele menciona evidências importantes para dor crônica em adultos, espasticidade associada à esclerose múltipla e náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia.
Na área veterinária, explica Aline, as evidências mais consistentes estão relacionadas ao controle da dor crônica, da epilepsia refratária e aos cuidados paliativos.
“Ainda estamos em processo de construção desse conhecimento, mas hoje já existe uma base científica muito sólida do que havia há poucos anos”, destacou a veterinária.

As perguntas que a ciência quer responder
Lorrany aponta uma frente de expansão na pesquisa com Cannabis: os canabinoides menores, substâncias produzidas pela planta em pequenas quantidades. Ela cita pesquisas sobre o THCV, porém ainda é uma área de estudo em etapas iniciais.
“Ainda faltam estudos relacionados a esses outros canabinoides que não são produzidos majoritariamente na planta”, ressaltou.
Rafael lembrou que algumas áreas são promissoras e precisam de estudos mais robustos. Ele cita condições como depressão, ansiedade e TDAH.
Segundo ele, existem estudos observacionais, relatos clínicos e estudos iniciais sugerindo benefícios. No entanto, ainda faltam pesquisas maiores, mais controladas e com acompanhamento de longo prazo.
“Esse tipo de pesquisa ajuda a separar esperança legítima de entusiasmo precoce”, disse o investigador.
Na medicina veterinária, Aline chama atenção para as diferenças entre espécies. Cães, gatos, equinos e animais silvestres podem responder de formas diferentes aos canabinoides.
Por isso, ainda é necessário definir doses, tempo de tratamento e combinações entre canabinoides e terpenos.
Por que pesquisar Cannabis no Brasil ainda é um desafio
Para Rafael, que coordena o Laboratório de Neurociência Comportamental da UniSul, pesquisar no Brasil já é, por si só, “um ato de resistência”. No caso da Cannabis, esse desafio ganha camadas extras.
Segundo ele, muitas vezes o pesquisador precisa dedicar energia para explicar que está fazendo ciência séria antes mesmo de avançar na pesquisa.
Lorrany destaca que a publicação da RDC 1.012 em 2026 representa avanços importantes, especialmente para estudos com plantas com maiores concentrações de ∆9-tetrahidrocanabinol, o THC. No entanto, ela afirma que o caminho continua burocrático.
Aline relata que enfrenta obstáculos relacionados ao acesso a produtos para pesquisa, financiamento e processos burocráticos. Ainda assim, ela observa que o preconceito vem diminuindo à medida que a produção científica cresce e apresenta resultados consistentes.
“A pesquisa científica é o principal instrumento para orientar políticas públicas e decisões regulatórias. Quanto maior a produção de evidências nacionais, maior será nossa capacidade de desenvolver protocolos adaptados à realidade brasileira, estabelecer diretrizes clínicas e oferecer segurança tanto aos profissionais quanto aos tutores.”
Ciência ajuda a orientar cuidado, regulação e acesso
Para nossos pesquisadores homenageados, a ciência nacional tem papel decisivo na construção de um acesso mais seguro e responsável à Cannabis no país.
Para Lorrany, o conhecimento científico contribui inclusive na relação entre médicos e pacientes.
“Quando um profissional de saúde fala sobre o tratamento com Cannabis, a primeira coisa que ele tem que fazer é educar o paciente. Visto que somos um país altamente proibicionista, que não está aberto ao diálogo da questão da política de drogas.”
Rafael destaca ainda o papel da ciência junto aos órgãos reguladores para construir políticas públicas mais inteligentes.
“O caminho mais responsável está no acesso com cuidado, regulação com inteligência, pesquisa com rigor e humanidade com os pacientes.”
Na medicina veterinária, Aline destaca a importância da formação profissional e do combate à desinformação.
Mais dados, menos preconceito
Neste 8 de julho, é dia de reconhecer que o futuro do uso medicinal da Cannabis depende de mais ciência, mais dados, mais informação e mais diálogo.
Em uma área ainda cercada de preconceitos e expectativas, o trabalho dos cientistas é essencial para estabelecermos uma relação mais saudável com a Cannabis.

Como buscar tratamento com medicamentos à base de Cannabis
No Brasil, a Anvisa autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis mediante prescrição médica. Se você ou alguém próximo deseja incluir derivados da planta no tratamento, busque orientação profissional.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar consultas presenciais ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de terapia.