Quem utiliza medicamentos à base de Cannabis e precisa de cirurgia pode enfrentar uma questão complexa: a interação entre canabinoides e a anestesia pode alterar a quantidade de anestésico necessária e aumentar a dor no pós-operatório.
Um estudo publicado na revista Minerva Anestesiologica traz, pela primeira vez, um protocolo prático com orientações específicas para pacientes e para os médicos que prescrevem derivados da Cannabis.
Por que anestesiologistas e prescritores precisam trabalhar juntos
Apesar do crescimento no número de pacientes que utilizam medicamentos à base de Cannabis com prescrição médica, inclusive para tratar dor crônica, ainda existem poucos dados sobre a relação entre canabinoides e anestesia.
O estudo, realizado por pesquisadores de quatro instituições italianas, analisa essa combinação. Os cientistas reuniram as evidências disponíveis e propuseram um guia passo a passo para o acompanhamento de pacientes que utilizam derivados da Cannabis antes, durante e após cirurgias.
A principal conclusão é que os anestesiologistas e os médicos prescritores de canabinoides precisam se comunicar mais do que ocorre atualmente.
A análise aponta a necessidade de planejamento antecipado e integração entre as equipes médicas.
A necessidade de mais anestésicos e analgésicos
Para os pesquisadores italianos, a comunicação entre anestesiologista e prescritor é fundamental devido às interações já descritas entre anestésicos e derivados da Cannabis.
De acordo com o estudo, pessoas que utilizam produtos com canabinoides precisam de mais morfina ou medicamentos equivalentes nas primeiras 24 horas após uma cirurgia.
Em alguns estudos mencionados pelos autores, o consumo de opioides chegou a ser até 30 vezes maior entre usuários frequentes de produtos à base de Cannabis.
Uso medicinal ou recreativo não apresentam mesmas características
O estudo faz uma distinção entre pacientes que utilizam Cannabis com acompanhamento médico e pessoas que fazem uso adulto. Embora os compostos ativos sejam os mesmos, principalmente o THC e o CBD, o perfil clínico é diferente.
Geralmente, os pacientes em uso terapêutico têm dose estável e acompanhada por profissional da saúde. Além disso, utilizam produtos padronizados, com comportamento mais previsível no organismo. Em geral, também possuem histórico clínico documentado, o que facilita a avaliação antes da anestesia.
Já o usuário recreativo geralmente consome produtos com composição variável e com concentrações elevadas de THC.
Além disso, o consumo pode ocorrer junto com outras substâncias, como álcool, sedativos ou estimulantes. Isso torna as respostas anestésicas mais imprevisíveis.
Os autores reforçam que tanto usuários medicinais quanto recreativos tendem a omitir ou minimizar o consumo, o que pode representar um risco adicional.
Como os canabinoides interferem na anestesia
Os efeitos dos compostos da Cannabis ocorrem, em grande parte, por sua interação com o sistema endocanabinoide. CBD e THC atuam sobre receptores desse sistema, especialmente CB1 e CB2.
O CB1 regula neurotransmissores como GABA, glutamato, adrenalina e serotonina. Esses são justamente alguns dos sistemas sobre os quais os anestésicos também atuam.
Quando administrado por via oral, o medicamento com THC ou CBD interfere em enzimas do fígado responsáveis por processar e eliminar medicamentos. Essas enzimas pertencem ao sistema conhecido como citocromo P540.
Na prática, os canabinoides podem alterar a velocidade com que o organismo metaboliza opioides, benzodiazepínicos, antieméticos, anticoagulantes e corticosteroides usados no perioperatório.

Cinco passos para preparar pacientes em tratamento com Cannabis
O estudo coloca o médico prescritor em papel ativo no planejamento cirúrgico do paciente. A responsabilidade não é exclusiva do anestesiologista, especialmente porque este profissional muitas vezes não tem conhecimentos específicos sobre canabinoides.
O protocolo sugerido pelos pesquisadores é direcionado para os prescritores com cinco passos:
1. Ser proativo na comunicação com a equipe cirúrgica
O prescritor deve, ao saber que o paciente será operado, se comunicar ativamente com o anestesiologista e, se possível, com o especialista em dor envolvido. Algumas informações são essenciais:
- • Formulação e proporção CBD/THC;
- • Dose diária total em miligramas;
- • Quantas vezes ao dia toma o medicamento;
- • Há quanto tempo usa;
- • Se o paciente já apresentou sintomas de abstinência ao interromper o uso.
2. Orientar o paciente sobre o que fazer antes da cirurgia
De acordo com o estudo, a conduta depende do tempo disponível antes do procedimento.
Se há uma semana ou mais: é o cenário mais favorável. Uma redução gradual e supervisionada pode ser considerada.
Se há entre 72 horas e 7 dias: o intervalo mínimo recomendado entre o último uso e uma cirurgia eletiva é de 72 horas. Os compostos da Cannabis ficam acumulados no organismo por até 5 dias após o último uso. A suspensão deve ser gradual, não abrupta.
Se há menos de 24 horas: não se recomenda interromper o uso. A abstinência abrupta em tão curto prazo pode causar mais risco que o uso contínuo. Deve se avaliar o adiamento da cirurgia.
Portanto, pacientes em uso medicinal da Cannabis com acompanhamento profissional não devem interromper o tratamento abruptamente.
3. Prevenir a síndrome de abstinência de Cannabis
O prescritor pode se antecipar indicando ao anestesiologista e à equipe hospitalar quando o paciente tem risco de apresentar sintomas associados à retirada do medicamento.
Na síndrome de abstinência de Cannabis reconhecida pelo DSM-5 e pela CID-11, os sintomas surgem entre 12 horas e 3 dias após a interrupção. Os sintomas mais comuns são irritabilidade, ansiedade, insônia e agitação.
4. Opções de grau farmacêutico para o período de internação
Caso o paciente utilize produtos artesanais, pode ser difícil a entrada desses itens no hospital. Por isso, os pesquisadores recomendam alternativas farmacológicas que podem ser utilizadas no período de internação.
Medicamentos à base de canabinoides sintéticos podem ser úteis nessas situações, como dronabinol e nabilona.
5. Planejar o retorno ao tratamento após a cirurgia
O estudo recomenda que o prescritor se coordene com a equipe hospitalar para planejar a retomada do tratamento com canabinoides após a alta. Essa transição da analgesia aguda de volta ao regime anterior precisa ser supervisionada.

O que fazer se você usa produtos à base de Cannabis e vai passar por uma cirurgia
Não esconda o tratamento: diga qual é a formulação, a dose diária e há quanto tempo usa.
Converse com o prescritor antes da cirurgia: assim que souber que vai precisar de cirurgia, entre em contato com o médico que acompanha o tratamento com canabinoides.
Não interrompa o uso por conta própria: qualquer ajuste no uso deve ser discutido e supervisionado pelo médico prescritor.
Formas de uso: o estudo aponta que o uso inalado pode trazer riscos respiratórios, como hiperreatividade brônquica e laringoespasmo. Portanto, considere a possibilidade de mudar temporariamente para uma formulação oral.
Atenção para pacientes oncológicos: por estarem sob tratamento, as interações medicamentosas podem ocorrer e o acompanhamento deve ser reforçado.
O acesso aos tratamentos com canabinoides no Brasil
O estudo deixa claro que a comunicação entre profissionais é essencial, mas ainda é exceção. Médicos que prescrevem derivados da Cannabis precisam incluir orientação para preparação para cirurgias como parte do cuidado continuado do paciente.
Pacientes precisam entender que informar sobre o uso do seu medicamento não é um risco, e sim uma proteção.
No Brasil, o uso de medicamentos à base de Cannabis deve ser feito com orientação profissional, seguindo as regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Portanto, se você ou alguém próximo deseja iniciar um tratamento com derivados da planta, é necessário ter uma prescrição médica.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com profissionais experientes nesse tipo de terapia.