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Entre regulação, ciência e mercado: o que os eventos de 2025 mostraram sobre a Cannabis no Brasil

Entre regulação, ciência e mercado: o que os eventos de 2025 mostraram sobre a Cannabis no Brasil

Da ciência à política pública, os eventos acompanhados pelo Cannabis e Saúde em 2025 revelam um setor em processo contínuo de amadurecimento

Publicado em

30 de dezembro de 2025

• Revisado por

Jornalista e pós-graduada em Filosofia e Literatura, com 13 anos de experiência em comunicação, conteúdo e estratégias digitais. Atuou como repórter, redatora, roteirista, ghost writer e head de conteúdo. Especialista em Thought Leadership e storytelling, acredita no poder das narrativas para conectar pessoas e ideias.

Ao longo de 2025, os eventos acompanhados pelo Portal Cannabis & Saúde funcionaram como espaços de leitura do estágio real do setor  no país. Em comum, esses encontros ajudaram a deslocar o debate sobre Cannabis no Brasil para um terreno mais concreto. Ao longo do ano, temas como regulação, pesquisa e produção deixaram de aparecer como promessas difusas e passaram a ser discutidos a partir de seus limites operacionais, impactos reais e consequências práticas.

Vista em linha do tempo, a agenda do ano aponta para um processo contínuo de amadurecimento — feito de disputas normativas, consolidação científica e tentativas de organizar uma cadeia que já opera, mas ainda sob marcos provisórios.

Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal 2025: protagonismo científico, prática clínica e os limites impostos pela regulação

Realizado em maio, o Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal (CBCM), ocupou um lugar estratégico no calendário de 2025 ao reunir, em um mesmo espaço, profissionais da saúde, pesquisadores, parlamentares, agricultores e representantes do setor produtivo. A 4ª edição do evento deixou claro que o Brasil já opera em um patamar avançado no campo da medicina canabinoide e do cultivo — ainda que siga condicionado por entraves legais e estruturais.

Nos módulos dedicados à saúde e à produção agrícola, o congresso evidenciou um setor em plena atividade. A densidade dos debates e o engajamento do público refletiram a consolidação da Cannabis como tema relevante nas agendas científica, política e econômica, afastando de vez a ideia de um campo experimental.

No campo da política pública, o painel sobre a Cannabis medicinal no SUS de São Paulo expôs com clareza o descompasso entre avanço legislativo e implementação prática. Embora o estado tenha sido pioneiro ao regulamentar a distribuição de produtos à base de Cannabis pelo SUS, a política segue restrita a três síndromes raras, atendendo um número ainda limitado de famílias. As discussões reforçaram que a produção científica nacional já oferece subsídios para ampliar esse acesso com responsabilidade, mas que decisões administrativas continuam sendo o principal fator limitante.

A prática clínica também ganhou protagonismo. As discussões do módulo MedCan deslocaram o foco dos Canabinoides isolados para uma compreensão mais ampla do Sistema Endocanabinoide e de abordagens integrativas, evidenciando uma medicina que trata o paciente como um ecossistema.

A Cannabis apareceu, nesse contexto, não como solução única, mas como ferramenta inserida em estratégias terapêuticas mais complexas e personalizadas.

No eixo agrícola, o módulo Agro & Tech Cannabis, realizado em parceria com a Embrapa, aprofundou o debate sobre o cultivo nacional como elemento estruturante do setor. A mensagem predominante foi direta: não há acesso sustentável nem soberania produtiva sem produção nacional viável. Técnicas de manejo, modelos de negócio e custos de produção foram discutidos de forma prática, deslocando o tema do cultivo do campo da expectativa para o da execução.

Ao reunir mais de 100 palestrantes e um público diverso, o CBCM reafirmou que o Brasil dispõe de base científica, experiência clínica e capacidade produtiva para ocupar posição de destaque no cenário da Cannabis medicinal e industrial. O congresso deixou claro, no entanto, que o avanço do setor depende menos de novas descobertas e mais da capacidade de remover entraves regulatórios que já não acompanham o estágio alcançado.

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WNTC 2025: encaminhamentos regulatórios em um setor que exige precisão

Realizado em junho, o We Need to Talk About Cannabis (WNTC) aprofundou os impasses expostos  e se consolidou como espaço de mediação técnica e política. Em sua edição mais madura, o congresso reuniu os principais atores da formulação regulatória, científica e industrial em torno de uma pauta em inflexão.

A revisão da RDC 327 estruturou o eixo central do evento. A proposta de transição mais clara entre produtos de Cannabis e medicamentos, a possibilidade de renovação da autorização sanitária e a ampliação de vias de administração apontaram para uma tentativa de resolver aquilo que a norma tratou, desde a origem, como provisório.

O pano de fundo regulatório atravessou também os painéis de mercado, que buscaram analisar dados de vendas e projeções sem descolar da realidade operacional do setor. A comunicação técnica apareceu como instrumento estratégico — não apenas para quebrar estigmas, mas para sustentar a confiança em um campo que depende de dados, rastreabilidade e consistência narrativa.

Ao longo da programação, a discussão sobre cultivo, produção nacional de IFAs e soberania tecnológica ganhou densidade. A legalidade do cultivo para fins científicos e medicinais, reconhecida pelo STF, deslocou o debate para o campo da regulamentação funcional. A mensagem foi clara: sem segurança jurídica, a produção nacional segue restrita ao discurso.

A Cannabis veterinária emergiu como uma das frentes mais sensíveis do evento. A possibilidade de registro de medicamentos junto ao MAPA abriu oportunidades, mas também explicitou a necessidade de pesquisa clínica robusta e responsabilidade ética. O WNTC encerrou o dia reafirmando seu papel como espaço de encaminhamento — um congresso que não termina no último painel, mas se projeta nas decisões que vêm depois.

Cannabis Connection 2025: mercado em expansão e a urgência de estrutura

Em novembro, o Cannabis Connection aprofundou a discussão sobre a organização da cadeia produtiva. Os dados apresentados apontaram crescimento no número de prescritores e na capilaridade das prescrições, mas também evidenciaram gargalos persistentes, especialmente na formação médica e na diversificação das especialidades envolvidas.

O cultivo nacional voltou ao centro do debate, agora associado ao planejamento do cenário pós-regulamentação. Representantes da Embrapa, do MAPA e da Anvisa reforçaram que o desafio já não reside na viabilidade técnica, mas na articulação entre normas, pesquisa e setor produtivo.

A leitura predominante foi a de um mercado que cresce, mas opera sob limitações estruturais. Sem avanços regulatórios coordenados, o risco é perpetuar um modelo dependente de importação e com impacto direto no acesso dos pacientes.

Cannabis Business Hub 2025: o cânhamo como linguagem comum entre economia verde e política pública

Realizado na mesma semana da ExpoCannabis Brasil, o Cannabis Business Hub funcionou como um ensaio concentrado do debate que ganharia escala nos dias seguintes. Enquanto a COP30 reunia lideranças globais em torno de metas de descarbonização, o encontro, em São Paulo, deslocou a discussão para um plano mais pragmático: como o cânhamo pode se inserir, de forma concreta, na agenda ambiental e econômica brasileira.

Ao reunir empresários e investidores, o evento evidenciou uma mudança relevante no discurso do setor. O cânhamo deixou de ser apresentado apenas como alternativa promissora e passou a ser tratado como vetor produtivo mensurável, capaz de articular inovação, sustentabilidade e desenvolvimento nacional.

Os dados apresentados pela Kaya Mind deram materialidade a esse debate. As projeções de mercado — que estimam até R$ 26 bilhões em movimentação para o setor da Cannabis no país — ajudaram a posicionar o cânhamo como uma nova fronteira econômica, com potencial específico de gerar bilhões em receita, centenas de milhares de empregos e arrecadação tributária significativa. A comparação direta com commodities consolidadas, como soja e milho, reforçou a leitura de que o entrave central já não é técnico ou produtivo, mas regulatório.

O argumento ambiental atravessou toda a programação. A capacidade do cânhamo de capturar grandes volumes de CO₂ por hectare, demandar menos água e se integrar a sistemas de rotação de culturas foi apresentada não como abstração ecológica, mas como vantagem competitiva em um cenário de transição verde. A coincidência simbólica com a COP30 reforçou essa sobreposição de agendas: enquanto o mundo discute metas, o setor canábico brasileiro busca apresentar caminhos operacionais.

A presença de representantes do poder público foi tratada como sinal de amadurecimento institucional. O diálogo entre Estado, investidores e setor produtivo apareceu como condição necessária para que o cânhamo deixe o campo da expectativa e passe a integrar políticas públicas de desenvolvimento econômico, ambiental e agrícola.

Como evento oficial da ExpoCannabis Brasil, o Cannabis Business Hub antecipou a tônica que marcaria a feira: um setor que tenta se reposicionar não apenas como mercado emergente, mas como parte de uma estratégia mais ampla de sustentabilidade e inovação. Ao fazer essa conexão, o encontro ajudou a enquadrar o cânhamo como elemento central — e não periférico — da nova economia verde em disputa.

ExpoCannabis Brasil 2025: ciência nacional, cânhamo industrial e ampliação do vocabulário do setor

A ExpoCannabis Brasil marcou um deslocamento importante na agenda do ano. O evento ampliou o vocabulário do setor ao articular Cannabis medicinal, cânhamo industrial, pesquisa científica e bioeconomia em um mesmo evento.

A expectativa pela regulamentação do cultivo do cânhamo, prevista para 2026, funcionou como eixo estruturante das discussões. A presença da Embrapa e a formação de uma comissão científica, com dezenas de trabalhos acadêmicos apresentados, reforçaram o papel da pesquisa nacional como base para o desenvolvimento do setor — não apenas como validação posterior.

 


Os debates sobre produtividade agrícola, uso integral da planta, economia circular e impacto ambiental indicaram uma tentativa de integrar a Cannabis a agendas mais amplas, como sustentabilidade e política industrial. O evento mostrou um setor que começa a se enxergar para além do uso terapêutico, sem perder de vista os desafios regulatórios que ainda condicionam esse avanço.

Frente Parlamentar da Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial: da agenda ao orçamento

O encerramento do ano ocorreu em dezembro, com a reunião da Frente Parlamentar da Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial da Assembleia Legislativa de São Paulo.

A destinação de R$ 1,25 milhão em emendas parlamentares para projetos em saúde pública, pesquisa científica, agricultura, odontologia, bem-estar animal e cuidados paliativos materializou pautas debatidas ao longo de 2025. SUS municipal, agroecologia, formação profissional e pesquisa aplicada passaram a contar com financiamento direto.

O gesto político não resolve os entraves estruturais do setor, mas sinaliza uma mudança de estágio: parte do debate começa a se traduzir em política pública concreta.

O ano em retrospecto

A linha do tempo dos eventos acompanhados pelo Cannabis e Saúde em 2025 revela um setor que deixou de operar apenas no campo da expectativa e passou a lidar, de forma mais direta, com suas próprias exigências. Regulação, ciência, mercado e política pública aparecem cada vez mais interdependentes — e menos tolerantes a improvisos.

Não se trata de um ano de soluções definitivas, mas de consolidação de perguntas mais precisas. O que vem a seguir dependerá da capacidade de transformar encaminhamentos em normas, dados em políticas e expansão em estrutura. Em 2025, ao menos, os termos desse debate ficaram mais claros.

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