A relação do médico Vitor Luiz Rocha com a Cannabis medicinal começou ainda nos bancos da faculdade. Foi durante as aulas sobre neurologia que ele teve o primeiro contato com estudos científicos que investigavam os efeitos da planta no tratamento da epilepsia — especialmente em casos refratários, quando os medicamentos tradicionais não apresentavam os resultados esperados. Naquele momento, o tema ainda era cercado por dúvidas e preconceitos, mas os dados científicos chamaram sua atenção.
“Os primeiros artigos já mostravam melhora significativa em sintomas, e aquilo despertou meu interesse científico.”
Em seguida, novas publicações passaram a abordar possíveis benefícios em quadros de demência e no Alzheimer, ampliando o campo de investigação e aplicação terapêutica. Para o Dr Vítor, aquele foi o ponto de virada: a Cannabis deixava de ser apenas um assunto polêmico para se tornar uma possibilidade clínica concreta, respaldada por evidências. “Foi aí que percebi que o alcance terapêutico poderia ser muito maior”, diz.
Aprofundamento
Movido pela curiosidade científica e pela responsabilidade médica, ele decidiu se aprofundar no tema. Após a graduação, buscou cursos com foco em prescrição de Cannabis medicinal, sempre guiado por literatura científica e diretrizes internacionais. Seu foco era compreender não apenas os potenciais benefícios, mas também segurança, indicações precisas, posologia e possíveis interações medicamentosas.
“O mais importante é compreender indicação, dose e acompanhamento. Não se trata de algo empírico, mas baseado em evidência”, ressalta o médico.
Ao longo dessa jornada, consolidou a percepção de que a Cannabis poderia atuar tanto como alternativa terapêutica quanto como tratamento adjuvante — ou seja, associada a medicamentos convencionais. Em muitos casos, a proposta não era substituir totalmente outras abordagens, mas complementar estratégias já existentes, visando à redução de sintomas e à melhora da qualidade de vida.
A prática clínica e os principais quadros atendidos
Na rotina do consultório, Vítor passou a observar resultados especialmente relevantes em pacientes com ansiedade, depressão, cefaleias crônicas, dores persistentes, fibromialgia e diferentes condições neurológicas. Em grande parte dos casos, tratava-se de pessoas que já haviam tentado múltiplas abordagens terapêuticas sem sucesso significativo.
Ele destaca que o objetivo central do tratamento com Cannabis medicinal é a redução de sintomas — muitas vezes em pacientes que convivem há anos com sofrimento contínuo. “São pessoas que já passaram por diversos medicamentos, enfrentaram efeitos colaterais ou respostas insuficientes. Quando encontram na Cannabis uma alternativa viável, o impacto na qualidade de vida pode ser expressivo”, afirma.
O caso que marcou sua trajetória
Entre os inúmeros atendimentos, um caso em especial marcou sua carreira. Uma mulher de 40 anos convivia com crises recorrentes de ansiedade e um estado quase constante de nervosismo, acompanhado de palpitações e dificuldade para lidar com demandas cotidianas. Ela já havia utilizado diferentes classes de psicotrópicos, incluindo antidepressivos, sem melhora significativa — o que a levou, inclusive, a abandonar o tratamento.
“Curiosamente, foi ela quem me perguntou sobre a possibilidade da Cannabis, após ver uma reportagem”, conta. Diante da solicitação, o médico aprofundou a análise do caso, avaliando cuidadosamente indicações, riscos e benefícios. Iniciado o uso da Cannabis, a paciente apresentou melhora progressiva e consistente dos sintomas. Hoje, segundo o médico, o quadro se aproxima de uma remissão quase completa.
Para ele, esse episódio reforçou a importância de ouvir o paciente, considerar novas evidências e manter a prática médica alinhada à ciência e à individualização do cuidado.
Superando o tabu
Quando Vitor se formou, a Cannabis medicinal ainda era vista com forte resistência no Brasil. O histórico de associação exclusiva ao uso recreativo e a abordagem frequentemente negativa na mídia alimentavam o estigma. Muitos pacientes demonstravam receio apenas em mencionar o assunto.
Com o avanço das pesquisas e maior divulgação de resultados clínicos, esse cenário começou a mudar. Relatos positivos, discussões mais qualificadas e o crescimento da indústria regulamentada contribuíram para ampliar o debate. Hoje, segundo Vitor, a procura é significativamente maior e o nível de informação dos pacientes também evoluiu..
Um campo em expansão
Da epilepsia aos transtornos ansiosos, das demências às dores crônicas, a Cannabis medicinal expandiu seu campo de atuação ao longo dos anos. Para o médico, essa trajetória acompanha não apenas o crescimento do mercado, mas principalmente a consolidação de evidências científicas e a experiência acumulada na prática clínica, tanto no Brasil quanto no cenário internacional.
“Hoje, a Cannabis é uma aliada importante em diversas terapias. Não é solução mágica, mas é uma ferramenta terapêutica relevante, com potencial de promover remissão ou redução significativa de sintomas em muitos casos”, resume.
A história do Dr Vítor Rocha com a Cannabis medicinal reflete uma transformação maior: a passagem do tabu para o debate científico, da resistência para a regulamentação, da dúvida para a experiência clínica baseada em evidências. Uma trajetória que continua em evolução — assim como a própria medicina.
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