Uma universidade pública brasileira vai conduzir o que pode ser o estudo clínico mais longo do mundo sobre o uso de medicamentos à base de Cannabis para a prevenção do Alzheimer.
O Laboratório de Cannabis Medicinal e Ciência Psicodélica (LCP), da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), abriu inscrições para voluntários participarem de uma pesquisa com duração de 20 anos. O foco é a prevenção da condição, e não no tratamento de quem já foi diagnosticado.
A pesquisa se chama COONFIA e é coordenada pelo professor de Farmacologia Clínica Francisney Nascimento, com a colaboração da biomédica Maria Victoria Luz Gonçalves e do neurologista Elton Gomes da Silva.
Um caminho diferente dos estudos já existentes
Estudos com canabinoides e Alzheimer não são novidade, mas até agora eles se concentraram em pacientes já diagnosticados.
O que a UNILA propõe é ir além: acompanhar pessoas saudáveis, com histórico familiar da condição, antes que qualquer sintoma apareça. Para Francisney Nascimento, a pesquisa seguirá um caminho pioneiro.
“Já existem estudos internacionais que acompanham filhos de pacientes com Alzheimer e pesquisas sobre o uso de canabinoides em idosos que já têm a doença. No entanto, até o momento, não há estudos clínicos que tenham avaliado o uso prolongado e preventivo de canabinoides em pessoas com maior risco genético para o Alzheimer”, afirma Nascimento.
O LCP já havia publicado anteriormente um estudo indicando que o uso de medicamentos à base de Cannabis pode ser uma opção segura e eficaz para complementar o tratamento do Alzheimer.
A nova pesquisa avança mais um passo: investigar se o uso contínuo de baixas doses pode prevenir ou retardar o aparecimento da doença.

O fator genético no Alzheimer
O Alzheimer é a forma mais comum de demência. Atualmente, os especialistas distinguem dois tipos principais, diferentes tanto na idade de início quanto nas causas.
O Alzheimer de início tardio é o mais comum, representando cerca de 99% dos casos. Costuma se manifestar após os 65 anos e resulta de uma combinação de fatores. A genética é um deles, mas não age sozinha.
Outros fatores que elevam o risco são:
- • Estilo de vida sedentário
- • Tabagismo
- • Dieta inadequada
- • Condições de saúde cardiovascular mal controladas, como hipertensão e diabetes
Outro fator relevante é a chamada reserva cognitiva. Trata-se da capacidade que o cérebro desenvolve ao longo da vida por meio de educação, atividade intelectual e social. Essa reserva pode ajudar a retardar o surgimento dos sintomas.
O Alzheimer de início precoce é mais raro e corresponde a cerca de 1% dos casos. Pode se manifestar entre os 30 e os 60 anos e tem uma causa predominantemente genética. Por isso, filhos de pessoas com essa forma da doença têm risco significativamente maior de desenvolvê-la.
O estudo da UNILA pretende acompanhar, ao longo de duas décadas, pessoas com histórico familiar de ambas as formas da doença.
Quem pode participar e como o estudo será feito
O perfil buscado inclui pessoas entre 45 e 65 anos que tenham ao menos um pai ou mãe biológica com diagnóstico confirmado de Alzheimer. No entanto, pessoas sem histórico familiar também podem se inscrever para integrar os grupos controle.
Os voluntários serão divididos em quatro grupos. Dois serão compostos por filhos de pacientes com Alzheimer e participarão de um ensaio randomizado duplo-cego controlado por placebo. Metade receberá um medicamento à base de Cannabis com proporções iguais de canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC). A outra metade receberá placebo.
Os outros dois grupos, formados por pessoas com e sem histórico familiar, não receberão nenhuma substância. Eles participarão apenas do acompanhamento clínico.
Esse modelo é considerado o padrão mais rigoroso em pesquisa clínica, pois nem os participantes nem os pesquisadores sabem quem está recebendo o tratamento com canabinoides.
Acompanhamento ao longo de 20 anos
A cada seis meses, todos os participantes passarão por:
- • Consultas clínicas
- • Coletas de sangue
- • Coletas de líquor
- • Questionário de avaliação cognitiva
- • Questionário sobre qualidade de vida
O estudo também vai monitorar outros fatores associados ao risco de Alzheimer durante os 20 anos.
Como se inscrever
As inscrições estão abertas e são gratuitas. Os interessados podem acessar o formulário online pelo endereço redcap.link/COONFIA ou entrar em contato pelo WhatsApp (45) 92003-5435.
É necessário ser alfabetizado e ter disponibilidade para comparecer presencialmente ao campus da UNILA, em Foz do Iguaçu (PR), onde serão realizados os exames e aplicados os questionários.
Por critérios de segurança, não podem participar:
- • Pessoas com doenças hepáticas ou renais
- • Pessoas com histórico de psicose ou epilepsia
- • Gestantes ou lactantes
Outras informações também estão disponíveis pela página do laboratório no Instagram: lcp.unila.

O que estudos anteriores já observaram
Um estudo publicado em 2025 investigou o uso de doses baixas de CBD para prevenir o surgimento do Alzheimer em modelos animais.
O tratamento preventivo apresentou benefícios relevantes, entre eles:
- • Proteção da memória e de habilidades sociais
- • Redução do acúmulo de beta-amilóide e tau fosforilada
- • Menos inflamação no cérebro
- • Regulação de genes relacionados ao risco da doença
Os cientistas também observaram que o receptor CB1 do sistema endocanabinoide desempenha papel importante nesses efeitos protetores.
O uso de medicamentos à base de Cannabis no Brasil
Pesquisas anteriores já sugeriam que derivados da Cannabis podem complementar o tratamento de pessoas diagnosticadas com Alzheimer.
Entre os benefícios observados estão:
- • Melhora da memória e da cognição
- • Redução dos episódios de agitação
- • Rotina menos estressante para cuidadores
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos com canabinoides, desde que haja prescrição médica.
Portanto, se você ou alguém próximo deseja incluir essa abordagem na rotina de cuidados, busque orientação profissional.
Na plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com médicos experientes nesse tipo de prescrição.