A prescrição de canabidiol (CBD) no tratamento da epilepsia vem se tornando uma realidade em diferentes contextos clínicos. Estudos demonstram que medicamentos à base desse composto ajudam a reduzir a frequência e a intensidade das crises, especialmente em pacientes resistentes aos tratamentos convencionais.
Pesquisas também vêm mostrando que a inclusão de pequenas quantidades de delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) pode potencializar o efeito antiepiléptico do CBD. No entanto, os efeitos psicoativos do THC geram preocupação entre profissionais da saúde, sobretudo no tratamento de crianças e de pessoas com outras condições psiquiátricas ou de saúde mental.
Para superar esse desafio, pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, decidiram investigar o potencial do canabigerol (CBG), outro composto da Cannabis que não provoca efeitos psicoativos relevantes e que vem despertando interesse da comunidade científica por seus efeitos terapêuticos.
CBG: potencial reconhecido
O CBG, em geral, aparece em baixas concentrações nas plantas Cannabis. Ainda assim, estudos recentes indicam que esse canabinoide possui propriedades únicas, atuando em diferentes sistemas do organismo. Entre seus possíveis efeitos estão a ação sobre receptores ligados à inflamação, à comunicação entre neurônios e ao controle da excitabilidade elétrica do cérebro.
Apesar desse potencial, até recentemente havia poucos dados sobre o papel do CBG na epilepsia e sobre como ele poderia atuar em combinação com o CBD.

Testando a combinação e isoladamente
Para realizar o estudo, os pesquisadores utilizaram um modelo amplamente empregado para testar medicamentos anticonvulsivantes, conhecido como modelo de eletrochoque máximo (MES). Esse método simula crises semelhantes às convulsões tônico-clônicas observadas em humanos.
Nos testes, os animais foram divididos em três grupos, que receberam:
- • CBD isolado;
- • CBG isolado;
- • uma combinação de CBD e CBG em diferentes proporções
Os cientistas avaliaram tanto a capacidade das substâncias de impedir a ocorrência das crise quanto a presença de possíveis efeitos adversos.
CBD + CBG: quando a soma funciona melhor
Os resultados mostraram que o CBG, quando administrado isoladamente, já apresenta efeito anticonvulsivante, com potência semelhante à do CBD. No entanto, os efeitos foram mais expressivos quando os dois canabinoides foram utilizados em conjunto.
A combinação de CBD e CBG, especialmente na proporção 1:1, reduziu em mais de 50% a dose de CBD necessária para proteger contra as crises nesse modelo de epilepsia. Segundo os autores:
- • O CBD se tornou mais eficaz quando administrado junto com o CBG;
- • Foi possível obter o mesmo efeito anticonvulsivante com uma dose menor de CBD.
Por outro lado, os pesquisadores observaram que a toxicidade aumentou de forma preocupante em doses muito elevadas da combinação. Ainda assim, os efeitos adversos permaneceram baixos dentro das faixas consideradas terapêuticas.
A análise estatística indicou que a interação entre CBD e CBG na epilepsia é aditiva, e não sinérgica. Isso significa que os compostos somam seus efeitos, provavelmente porque atuam por mecanismos de ação semelhantes.
Quais mecanismos explicam o efeito anticonvulsivante
De acordo com os autores, os benefícios observados do CBD e do CBG na epilepsia estariam relacionados principalmente aos seguintes mecanismos:
- • Bloqueio de canais de sódio dependentes de voltagem, que, quando excessivamente ativos, facilitam o surgimento das crises.
- • Ativação de receptores PPARγ, associados ao controle da inflamação e da excitabilidade neuronal.
- • Modulação dos canais TRPV1, envolvidos na comunicação entre neurônios e na resposta a estímulos intensos.
Como tanto o CBD quanto o CBG atuam sobre esses sistemas, a combinação tende a reforçar o efeito anticonvulsivante, sem os efeitos psicoativos associados ao THC.

Tratamentos seguros com canabinoides para epilepsia
Os autores destacam que os resultados ainda são pré-clínicos, mas oferecem uma base científica importante para o desenvolvimento de futuros estudos em humanos. A combinação de CBD e CBG pode representar uma estratégia para reduzir a dose necessária de CBD, diminuir a incidência de efeitos adversos e ampliar as opções terapêuticas para pessoas com epilepsia.
No Brasil, é importante destacar que produtos à base de Cannabis ricos em CBG só estão disponíveis pela via da importação, regulamentada pela RDC 660 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Para fazer esse tipo de tratamento, o órgão exige prescrição médica, além de acompanhamento contínuo.
Portanto, se você ou alguém próximo deseja incluir medicamentos à base de Cannabis no tratamento, busque orientação especializada. Na nossa plataforma de agendamento, é possível marcar consultas presenciais ou por telemedicina com profissionais experientes na prescrição de canabinoides, garantindo um acompanhamento responsável e seguro.













