Um estudo publicado na revista científica Molecules trouxe novas evidências sobre o potencial dos compostos da Cannabis no tratamento da esclerose múltipla.
Desta vez, o foco não estava nos canabinoides mais conhecidos, como o canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC). Os pesquisadores analisaram suas formas “ácidas”: o ácido canabidiólico (CBDA) e o ácido tetrahidrocanabinólico (THCA).
A pesquisa analisou como essas substâncias agem na inflamação do sistema nervoso. Os resultados chamaram atenção pela redução da inflamação e pela melhora dos sintomas.
O que o estudo observou sobre CBDA e THCA na esclerose múltipla
Os cientistas realizaram testes em células e em animais. Os principais achados foram:
- • Redução de substâncias inflamatórias no cérebro
- • Menor ativação de células de defesa que atacam o sistema nervoso
- • Menor entrada de células imunes na medula espinhal
- • Melhora dos sintomas neurológicos, especialmente com o uso do CBDA
Entendendo a esclerose múltipla
A esclerose múltipla é uma doença autoimune. Ou seja, o próprio sistema imunológico passa a atacar o sistema nervoso central. Isso provoca inflamação e danos à mielina (a “capa protetora” dos neurônios). Com o tempo, pode levar à perda de funções neurológicas.
Os tratamentos atuais tentam conter essa reação do sistema imunológico.
Os resultados do estudo sugerem que o CBDA pode atuar justamente nesse ponto da esclerose múltipla, ajudando a reduzir a inflamação no cérebro e na medula espinhal.
Além disso, o estudo reforça a ideia de que compostos menos explorados da Cannabis podem ter efeitos terapêuticos promissores.

O que são as formas ácidas dos canabinoides
A planta Cannabis produz naturalmente o CBDA e o THCA. Eles são as formas ácidas dos canabinoides CBD e THC, respectivamente. São como se fossem as versões “originais” dos compostos na planta.
Quando essas substâncias são aquecidas (como ao vaporizar) ou durante processos industriais, ocorre uma transformação chamada descarboxilação. Nesse processo, eles perdem uma parte da sua estrutura química e se convertem em CBD e THC.
Tanto o CBDA quanto o THCA não causam efeitos psicoativos, como euforia ou mudanças na percepção.
O estudo sugere que essas formas ácidas dos canabinoides podem ter propriedades terapêuticas próprias, diferentes das versões já conhecidas. Isso aconteceria porque:
- • Possuem uma estrutura química que facilita a interação com certas proteínas do corpo
- • Podem atuar de forma distinta no sistema imunológico
- • Em alguns casos, podem ser mais eficazes na redução da inflamação
Como esses compostos agem no organismo
Durante a inflamação, o organismo produz moléculas que funcionam como mensageiros do sistema imunológico. Algumas delas aumentam o processo inflamatório.
No estudo, os pesquisadores observaram que os canabinoides ácidos, especialmente o CBDA, reduziram a atividade de enzimas que intensificam a inflamação (iNOS). Também diminuíram uma citocina associada à progressão da esclerose múltipla (IL-17A).
Além disso, houve menor ativação da microglia e dos astrócitos, células importantes nesse processo inflamatório.
Como o estudo foi feito
Nos testes com animais, os compostos foram administrados em uma dose de 10 mg/kg por dia. O tratamento começou após o surgimento dos sintomas e durou sete dias.
Os canabinoides utilizados eram isolados com alto grau de pureza e mantidos em condições controladas para evitar alterações químicas.
Como é o tratamento com canabinoides para esclerose múltipla
Atualmente, o uso de medicamentos à base de Cannabis na esclerose múltipla é mais comum para o alívio dos sintomas, como:
Esses efeitos são associados principalmente ao CBD e ao THC, que são as formas mais estudadas.
O estudo traz uma perspectiva ao sugerir que os canabinoides na forma ácida, principalmente o CBDA, podem atuar diretamente na inflamação da esclerose múltipla e não apenas nos sintomas.
Esses dados incentivam o desenvolvimento de novas formulações que mantenham essas formas da planta.
Como utilizar medicamentos à base de Cannabis
Apesar dos resultados promissores, não é possível aplicar diretamente na prática clínica. Ainda são necessários novos estudos em humanos e com medicamentos já utilizados na esclerose múltipla.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis mediante prescrição médica.
Pessoas interessadas nesse tipo de tratamento devem sempre buscar orientação de um profissional de saúde qualificado.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta com médicos experientes na prescrição de canabinoides.