Com o avanço do uso de medicamentos à base de Cannabis no Brasil, cresce também o interesse por evidências científicas sobre os benefícios em condições complexas, como o transtorno do espectro autista (TEA).
Um ensaio clínico conduzido por pesquisadores brasileiros ajuda a esclarecer esse cenário ao investigar os efeitos de um extrato rico em canabidiol (CBD) em crianças com TEA.
O estudo avaliou a eficácia e a segurança do CBD em 60 crianças entre 5 e 11 anos ao longo de 12 semanas.
Os resultados indicam que o tratamento trouxe melhoras importantes em interação social, ansiedade, agitação psicomotora e alimentação.
Também apresentou um perfil de segurança considerado favorável no curto prazo.
Por que buscar novas opções para o tratamento do TEA
O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades persistentes na comunicação e interação social, além de padrões repetitivos de comportamento.
Atualmente, não existem tratamentos capazes de atuar diretamente nos sintomas centrais do autismo. As terapias disponíveis focam principalmente no controle de sintomas associados, como agitação e agressividade.
Como a pesquisa foi feita
Nesse contexto, os pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) conduziram um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo.
Os participantes foram divididos em dois grupos:
- • Um grupo recebeu extrato de Cannabis rico em CBD
- • O outro recebeu placebo
Durante as 12 semanas de acompanhamento, foram avaliados diversos sintomas típicos do TEA, incluindo interação social, ansiedade, concentração, sono, comportamento alimentar e agitação.
Quais foram os principais resultados
Os dados mostraram que o grupo que recebeu CBD apresentou melhora significativa em diferentes aspectos:
- • Interação social (principal achado do estudo)
- • Ansiedade
- • Agitação psicomotora
- • Número de refeições por dia
Além disso, houve melhora na capacidade de concentração, mas apenas em crianças com TEA nível 1.
Por outro lado, não foram observadas mudanças relevantes em áreas como linguagem e comportamentos estereotipados.

Como o CBD pode atuar no TEA
De acordo com os autores, os efeitos observados podem estar relacionados à atuação do CBD no sistema endocanabinoide, um sistema biológico que regula funções essenciais, como sono, resposta ao estresse, humor e apetite.
Essas funções estão frequentemente alteradas em pessoas com TEA.
O CBD atua sobre receptores do sistema nervoso central, o que pode contribuir para:
- • Redução da ansiedade
- • Diminuição da agitação
- • Melhora na resposta social
Essa atuação também pode explicar o aumento no número de refeições.
Aumento gradual na dose do medicamento
O extrato utilizado no estudo tinha concentração de 5 mg/mL, com relação de 9:1 de CBD:THC.
O tratamento seguiu um modelo de aumento gradual da dose:
- • Dose inicial: 3 gotas a cada 12 horas (6 gotas por dia)
- • Ajuste: aumento de 2 gotas por dose, duas vezes por semana, conforme necessidade
- • Dose máxima: até 70 gotas por dia
Esse ajuste progressivo permitiu adaptar o tratamento à resposta individual de cada criança, prática comum em terapias com medicamentos à base de Cannabis.
O tratamento é seguro?
Um dos pontos de destaque do estudo foi o perfil de segurança do tratamento.
Apenas 3 crianças (9%) do grupo que recebeu CBD apresentaram efeitos colaterais, considerados leves e transitórios. Esses efeitos incluíam cólicas, tontura, insônia e ganho de peso.
Além disso, exames laboratoriais, incluindo função hepática, renal e glicemia, permaneceram dentro da normalidade em todos os participantes.
A importância desses achados
Os resultados reforçam o potencial do CBD como uma opção terapêutica complementar no manejo do TEA, especialmente para ansiedade, agitação e dificuldades de interação social.
No entanto, os autores destacam que o CBD não substitui as abordagens convencionais, como acompanhamento multidisciplinar.
Nesse sentido, defendem a realização de novos estudos clínicos com amostras maiores, maior tempo de acompanhamento e diferentes formulações e concentrações de CBD.
Essas pesquisas serão fundamentais para confirmar os achados, estabelecer protocolos mais precisos e avaliar a segurança no longo prazo.
Como funciona o acesso à medicamentos à base de Cannabis no Brasil
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis mediante prescrição médica.
Pessoas interessadas nesse tipo de tratamento devem buscar orientação de um profissional de saúde experiente na prescrição de canabinoides. Esse profissional poderá avaliar cada caso individualmente. Indicar a melhor abordagem.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com médicos capacitados nessa abordagem.