Nem toda dor é igual. Enquanto a dor inflamatória costuma surgir após uma pancada, infecção ou processo inflamatório, e a dor aguda funciona como um alerta do corpo diante de uma lesão, a dor neuropática tem origem em danos ou mau funcionamento do sistema nervoso. É o caso de dores associadas a lesões de nervos, diabetes, quimioterapia ou acidentes vasculares cerebrais.
Esse tipo de dor costuma ser descrito como sensação de queimação, formigamento ou pontadas persistentes e, muitas vezes, não responde bem aos analgésicos convencionais. Por isso, pesquisadores vêm buscando alternativas mais eficazes e seguras. Nesse cenário, o canabigerol (CBG), um composto da planta Cannabis, vem ganhando destaque.
Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e publicado na revista Pharmaceuticals investigou o potencial do canabigerol no alívio da dor, com foco especial na dor neuropática, trazendo resultados promissores.
CBG chamando atenção da ciência
O CBG é um canabinoide na Cannabis que, diferentemente do tetrahidrocanabinol (THC), não provoca efeitos psicoativos, como euforia ou alterações na percepção. De acordo com Bismarck Rezende, um dos autores do estudo, o interesse científico pelo composto vem crescendo justamente por esse perfil.

Bismarck Rezende é farmacêutico e doutorando em Fisiopatologia Clínica e Experimental
“O CBG e outros canabinoides não psicoativos têm potencial para se tornar componentes relevantes no manejo da dor, em especial na dor crônica e neuropática, áreas nas quais as terapias disponíveis apresentam limitações significativas.”
A pesquisa avaliou um extrato rico em CBG, administrado por via oral, em modelos animais de dor. Foram analisadas tanto situações de dor aguda quanto de dor neuropática crônica, permitindo observar a atuação do composto em diferentes contextos dolorosos.
Dose menor, respostas relevantes
No estudo, os animais receberam 30 mg/kg de CBG por via oral, uma quantidade menor do que a utilizada em pesquisas anteriores do mesmo grupo. Em estudo publicado anteriormente, os pesquisadores da UERJ já haviam avaliado os efeitos do canabigerol em modelos animais de dor, e o novo trabalho teve como objetivo complementar esses achados.
“O estudo anterior avaliou um extrato rico em CBG em um modelo de hipernocicepção associado à hipóxia-isquemia pré-natal, um contexto que envolve lesão do neurodesenvolvimento e inflamação persistente. Já o estudo mais recente utilizou modelos clássicos de dor, além de empregar uma dose mais baixa de CBG”, lembrou Bismarck.

Os resultados mostraram que o CBG teve efeito analgésico consistente. Nos modelos de dor aguda, os animais tratados apresentaram redução significativa dos comportamentos ligados à dor. Já nos modelos de dor neuropática, o canabigerol foi capaz de diminuir a hipersensibilidade térmica e mecânica, um dos principais problemas enfrentados por quem convive com esse tipo de dor.
Entre os principais achados, destacam-se:
- • Redução das respostas dolorosas em testes de dor imediata;
- • Melhora da sensibilidade exagerada típica da dor neuropática;
- • Efeitos observados mesmo com uma dose relativamente baixa do composto.
Ação nos receptores CB2 e eixo neuroimune
Outro achado relevante envolve o mecanismo de ação do CBG para aliviar a dor. O estudo mostrou que os efeitos analgésicos dependem principalmente da interação com receptores CB2, e não com os CB1. Isso sugere que o alívio da dor ocorre por uma via diferente do THC, e ajuda a explicar a ausência de efeitos psicoativos.
Os pesquisadores observaram também uma redução da ativação de microglias, células imunológicas do sistema nervoso central que desempenham papel central na dor neuropática. Essa ação reforça a ideia de que o CBG atua no chamado eixo neuroimune, uma via cada vez mais estudada na ciência da dor.
Segurança e próximos passos
Durante os experimentos, não foram observados sinais de sedação ou prejuízo motor, efeitos comuns com opioides e outros analgésicos. Bismarck destacou o perfil de segurança do CBG e comparou o composto às terapias disponíveis atualmente.
“Comparado aos analgésicos e anti-inflamatórios convencionais, o CBG demonstra atuação complementar, especialmente por envolver o eixo neuroimune. Em relação a antidepressivos e gabapentinoides, que apresentam eficácia variável e efeitos adversos importantes, o CBG pode futuramente representar uma alternativa ou adjuvante com mecanismos distintos.”
Apesar dos resultados promissores, é importante destacar que o estudo foi realizado em modelos animais. Ensaios clínicos em humanos ainda são necessários para confirmar a eficácia, definir doses ideais e avaliar a segurança a longo prazo.
Ainda assim, os dados sugerem o potencial do canabigerol como um novo caminho para o tratamento da dor neuropática, especialmente em casos em que os medicamentos convencionais falham ou causam efeitos colaterais difíceis de lidar.
Uso responsável de medicamentos à base de Cannabis
No Brasil, o uso de medicamentos à base de Cannabis tem regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que exige prescrição médica para adquirir os produtos. Atualmente, existem formulações contendo CBG disponíveis para os pacientes brasileiros por meio da importação de medicamentos, conforme as regras estabelecidas pela RDC 660 da Anvisa.
Então, se você ou alguém próximo convive com dores neuropáticas e deseja incluir derivados da Cannabis no tratamento, acesse já a nossa plataforma de agendamento. Lá, você pode marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com profissionais experientes na prescrição de canabinoides. Inicie essa jornada de forma responsável e segura.













