“E se a dúvida deixasse de ser uma atitude científica sensata para se transformar em técnica deliberada de desinformação?” Esta é a pergunta que abre Mercadores da Dúvida, onde se documenta como um grupo de físicos, financiado por grandes corporações, criou entidades científicas de fachada para transformar consensos estabelecidos em “polêmicas em aberto” — não refutando a ciência, mas fabricando dúvida suficiente para paralisar regulações. A dúvida virou produto.
Quando comecei a olhar com mais cuidado para a história da Cannabis medicinal, essa engrenagem me pareceu familiar demais.
Até o fim do século XIX, extratos de Cannabis estavam em farmacopeias respeitáveis, usados para dor, insônia e espasmos.
Nada de marginal. Nada de tabu. Era ferramenta médica.
A virada veio no início do século XX — e não foi exatamente científica. Convenções internacionais, pressões políticas, discursos moralistas — e, sim, raciais — começaram a empurrar a planta para fora da medicina e para dentro de um imaginário de perigo. A planta deixou de ser analisada como fármaco e passou a ser tratada como símbolo.
Depois desse deslocamento, algo sutil — e decisivo — aconteceu na produção científica.
A literatura começou a privilegiar desfechos negativos, muitas vezes utilizando modelos experimentais que pouco dialogavam com a prática clínica real. Um exemplo clássico é o estudo de Heath, de 1974, frequentemente citado como prova de que a maconha “mata neurônios”. Macacos rhesus foram expostos a volumes absurdos de fumaça — algo equivalente, em humanos, a centenas de cigarros por dia — e, após meses, apresentaram perda neuronal no hipocampo. A conclusão parecia direta. Mas não era.
As falhas metodológicas hoje soam quase constrangedoras: ausência de grupo controle adequado, exposição a níveis extremos de monóxido de carbono, hipóxia severa. Os animais não morreram por ação direta do THC, mas por asfixia química.
Décadas depois, revisões mais rigorosas não encontraram evidências de morte neuronal em humanos. Ainda assim, o mito persiste. E persiste porque foi útil. No consultório, ele aparece até hoje, travestido de preocupação legítima: “Doutor, maconha não destrói os neurônios?”
A descoberta do sistema endocanabinoide, entre as décadas de 1980 e 1990, deveria ter reorganizado esse debate de forma mais profunda. Pela primeira vez, entendemos que o corpo humano possui uma rede fisiológica própria, com receptores e ligantes específicos, implicada em processos como dor, sono, humor e inflamação. A Cannabis deixava de ser apenas uma planta externa e passava a dialogar com um sistema interno complexo.
Desde então, a produção científica cresceu de forma exponencial. Se no início dos anos 2000 havia cerca de uma centena de artigos por ano, hoje esse número ultrapassa facilmente a casa dos milhares.
E mesmo assim, no dia a dia, o que se ouve com frequência é: “Não existem evidências suficientes para recomendar.”
A frase não é, em si, errada. Em muitos contextos, ela é necessária. Mas também pode funcionar como escudo — ou talvez como atalho. Porque ao mergulhar na literatura, encontramos um cenário mais ambíguo do que essa sentença sugere. Há, de fato, estudos com amostras pequenas, desenhos limitados, inconsistências metodológicas. Isso é esperado em um campo que cresceu tão rapidamente. Mas há também um ponto menos discutido: muitos dos estudos considerados “padrão-ouro”, como ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas com metanálise, frequentemente trabalham com modelos que não refletem a prática real.
Utilizam Cannabis inalada como base de comparação, quando a prescrição clínica contemporânea prioriza óleos. Avaliam compostos isolados, ignorando o potencial efeito de conjunto de formulações full spectrum. E, não raramente, terminam com a conclusão previsível: “são necessários mais estudos”. O que é verdade — mas também é confortável.
Seria arrogância descartar esses trabalhos apenas porque seus resultados não coincidem com a minha experiência clínica. Não é esse o ponto. Mas também seria ingênuo ignorar que a forma como se desenha uma pesquisa influencia diretamente o tipo de resposta que ela pode oferecer. A pergunta importa tanto quanto o método.
Antes de prescrever, eu duvidei. Bastante. Fiz cursos, li, ouvi colegas. Em alguns momentos, achei que era melhor não mexer com isso. Mais seguro. Talvez, se eu tivesse parado ali, hoje estaria repetindo exatamente o mesmo discurso que escuto de outros médicos. Mas a prática bagunça certezas.
E aí entra outra camada, mais desconfortável. Quando um representante da indústria farmacêutica chega falando de canabidiol isolado e reforça que “não tem THC”, como se isso fosse um selo de pureza, eu travo. Porque quem estudou minimamente o sistema endocanabinoide sabe que a coisa não funciona assim. Mas quem não estudou — e a maioria não estudou — recebe aquela informação como verdade técnica.
Não gosto de teorias conspiratórias. Medicina não é isso. Mas também não dá para fingir que interesses econômicos não influenciam o que é pesquisado, como é pesquisado e o que chega até o médico na ponta. A dúvida, nesse contexto, continua sendo útil.
O sistema endocanabinoide ainda está longe de ser totalmente compreendido. Isso é fato. E deveria ser um convite à pesquisa, não um argumento para paralisia. O problema é quando a falta de resposta vira justificativa permanente para não agir.
No fim, o que me incomoda não é a dúvida em si. É o uso seletivo dela.
Por que somos tão rigorosos com algumas abordagens e tão permissivos com outras? Por que a polifarmácia pesada passa quase sem questionamento, enquanto a Cannabis precisa provar sua legitimidade o tempo inteiro? Quem decide esse peso?
Não tenho todas as respostas. Nem acho que alguém tenha. Mas já não consigo ignorar o padrão. Algumas dúvidas não querem resposta. Querem só continuar existindo.