Até maio de 2025, o controle da dor de Vitória de Assunção Chiappetta seguia um protocolo convencional: medicação administrada a cada oito horas e respostas limitadas.
Com o tempo, os efeitos colaterais passaram a pesar tanto quanto o sintoma que se tentava conter. A sonolência excessiva, o cansaço contínuo e a falta de disposição comprometeram ainda mais a rotina, reduzindo sua capacidade de interação e resposta às atividades do dia a dia.
Aos 30 anos, Vitória convive com um quadro neurológico de alta complexidade. É portadora de mielomeningocele torácica, associada à malformação de Chiari — condição congênita que envolve alterações no tronco cerebral, cerebelo e porção superior da medula espinhal — além de hidrocefalia e siringomielia cervical. Essas condições comprometem o desenvolvimento neurológico de Vitória, dificultam a sustentação do corpo e interferem no crescimento. Ela também apresenta alterações no funcionamento da bexiga e do intestino e, desde 2008, utiliza sonda vesical de forma contínua.
Dor crônica, fadiga e falta de resposta ao tratamento
Esse conjunto de alterações neurológicas cria um terreno fértil para a manifestação de dores persistentes, de difícil manejo com terapias convencionais. Com o avanço dos sintomas, especialmente episódios recorrentes de cólica e desconforto contínuo, ficou cada vez mais claro que a abordagem medicamentosa utilizada até então não oferecia o controle necessário.
“Ela ficava muito desanimada, com sono o tempo todo, sem ânimo para nada”, relata a mãe, Luci de Assunção Raposo, responsável pelos cuidados diários e principal observadora das respostas ao tratamento. Segundo ela, a dor passou a ocupar um lugar central na rotina da filha, interferindo no sono, no humor e na capacidade de engajamento com estímulos externos.
Quando a Cannabis medicinal passa a fazer diferença
Foi nesse contexto que a Cannabis medicinal passou a ser considerada como alternativa terapêutica, sob prescrição do ortopedista Dr. Jimmy Fardin. A introdução do tratamento não eliminou completamente a dor, mas promoveu uma mudança consistente na intensidade e também na frequência. “Hoje ela ainda sente dor, mas é menos. Antes, era o dia todo”, afirma Luci.
O processo exigiu acompanhamento contínuo e ajustes sucessivos até que a dosagem adequada fosse alcançada, respeitando as respostas individuais do organismo. Esse manejo cuidadoso permitiu um controle mais equilibrado, sobretudo da dor nociceptiva e neuropática, além de maior previsibilidade no cotidiano.
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Os efeitos observados não se restringiram somente ao alívio da dor. Segundo a mãe, houve melhora no ciclo sono-vigília, maior estabilidade emocional e avanços no controle da ansiedade e dos sintomas depressivos. O tratamento também contribuiu para uma resposta mais estável do sistema imunológico, favorecendo uma rotina menos marcada por oscilações, exaustão física e períodos prolongados de abatimento.
Ainda segundo a mãe, a suspensão do uso, ainda que pontual, foi um importante indicativo da eficácia do óleo. “Quando fica sem administrar a Cannabis, a dor volta com muita força”, relata Luci. A observação reforça que os benefícios não se manifestam apenas de forma pontual, mas sustentam o cotidiano de maneira contínua.
Para Luci, os resultados observados não encerram a busca por cuidado, mas reafirmam a importância de estratégias terapêuticas que considerem a complexidade de cada paciente. Apesar dos avanços, o estigma em torno da Cannabis medicinal ainda persiste. Ainda assim, ela fala sobre o tratamento com naturalidade. “Eu não tenho preconceito. Quando conto que a Vitória faz uso, as pessoas percebem a qualidade de vida dela”, diz. Para Luci, a informação é um instrumento central na desconstrução de julgamentos. “É preciso falar mais, estar na mídia. Só assim o preconceito começa a cair.”
Importante!
Na história de Vitória, a Cannabis não aparece como solução definitiva nem como promessa de cura. Surge como uma ferramenta terapêutica possível dentro de um quadro marcado por múltiplas vulnerabilidades neurológicas. Ao reduzir a centralidade da dor e devolver algum equilíbrio à rotina, o tratamento ampliou o que, por muito tempo, parecia restrito: a possibilidade de viver com menos sofrimento constante.
Relatos como o de Vitória ajudam a qualificar o debate sobre o uso da Cannabis medicinal no cuidado de condições neurológicas e dores crônicas, mas não substituem a avaliação individualizada. A indicação do tratamento, assim como a escolha da formulação e o ajuste das doses, devem ser realizados por médicos, a partir de acompanhamento clínico contínuo e criterioso.
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