Durante anos, Marília Ierke foi tratada para uma condição que não tinha. O diagnóstico incorreto levou ao uso prolongado de medicamentos fortes, agravou seu quadro clínico e deixou sequelas físicas importantes. A explicação real para a dor só viria décadas depois: fibromialgia, associada a um diagnóstico tardio de autismo e TDAH. Hoje, aos 40 anos recém-completados, ela consegue olhar para a própria história com um pouco mais de clareza — não porque a dor tenha desaparecido por completo, mas porque, pela primeira vez, ela deixou de ocupar tudo.
“Eu sempre vivi com dor. Sempre. Só que ninguém sabia o que era, nem eu”, conta. O diagnóstico correto da fibromialgia só veio muitos anos depois dos primeiros sintomas, após uma longa peregrinação por consultórios, tratamentos inadequados e consequências severas para sua saúde.
“Eu fui diagnosticada errado e tratada errado durante anos. E isso me causou uma piora muito significativa. Teve uma época em que eu perdi 20 quilos em um mês.”
Leia também:
“A Cannabis medicinal me devolveu a vida”: a luta de Loren contra a Fibromialgia
Anos de medicação inadequada e o impacto no corpo
Desde 2008, Marília tentou praticamente tudo o que lhe foi oferecido pela medicina convencional. Medicamentos fortes, sucessivos, que não apenas falharam em controlar a dor como deixaram marcas profundas. “Eu tive muitas decorrências ruins no estômago e em outros órgãos internos por causa dos remédios. Desenvolvi hérnia de hiato. Foram anos tomando medicações alopáticas para algo que nem era aquilo que eu tinha.”
O cansaço não era apenas físico. Com o tempo, veio o medo. “Eu desisti de tomar remédio. Fiquei com medo. Medo mesmo.” A virada começou de forma quase casual, em conversas com amigos que indicaram uma clínica especializada. “Eles falaram de um tratamento com CBD em gotas, algo mais natural, que não fosse mais um remédio forte.”
O diagnóstico correto e o início da mudança
Em fevereiro do ano passado, após uma bateria completa de exames, veio a resposta que mudaria o rumo de sua trajetória. “O médico foi muito claro: ‘Marília, você não tem reumatismo. Você tem fibromialgia. É diferente’. Aquilo explicou muita coisa.”
Mas não explicou tudo. Ao aprofundar a investigação clínica, outros diagnósticos surgiram quase em cascata. Marília descobriu que também é autista, tem TDAH e outras comorbidades associadas à neurodivergência. “Foi tudo junto. Um diagnóstico atrás do outro. Foi um baque.”
Ela não romantiza esse momento. “Se eu estivesse sozinha, eu não sei como teria passado por isso. Mas eu tinha uma equipe médica e psicológica que me ajudou a atravessar essa fase, a aceitar e a entender que eu sou assim. Que eu sempre fui assim. Eu nasci dessa forma.”
Leia também
Cannabis e neurodivergentes: A informação revoluciona tratamentos e traz acolhimento
O início do tratamento com o CBD veio antes mesmo da confirmação do autismo e do TDAH. Naquele momento, o foco era a fibromialgia. E os primeiros sinais de mudança não demoraram a aparecer. “A primeira coisa foi o sono. Eu comecei a dormir a noite inteira, sem acordar com dor, sem me mexer o tempo todo.”
Dormir bem, algo que parece simples para muitos, foi um divisor de águas. “Dormir bem significa acordar com o humor melhor. Se o humor melhora, eu sinto fome. Se eu sinto fome, eu me alimento melhor. Em três meses, isso já fazia uma diferença enorme.”
Leia também
Abril Azul: o desafio da subnotificação e diagnóstico tardio do autismo no Brasil
As dores não desapareceram completamente — e Marília faz questão de ser precisa. “Eu ainda tenho dor todos os dias. Todos. Mas agora é nível 1 ou 2. Antes, eu tinha dores agudas de nível 8 ou 9. Essas eu não tenho mais.” Segundo ela, quando uma crise mais intensa ameaça surgir, quase sempre há um motivo claro. “Normalmente é porque eu esqueci de tomar o óleo.”
A rotina de cuidados, no entanto, vai muito além do frasco de gotas. “Minha rotina não mudou tanto porque eu já adaptei minha vida à dor há muitos anos.” Ainda assim, há rituais que se tornaram inegociáveis. “Eu preciso acordar e movimentar o corpo logo na primeira hora da manhã.”
Ela pratica Yoga e calistenia, respeitando os próprios limites. “Pouca carga, nada que me exausta. É só para acordar o corpo.” Depois disso, segue para o trabalho — ou para o que hoje está se transformando em uma nova fase profissional.
A dor recua, e outras possibilidades ganham espaço
Chefe de cozinha, Marília não deixou de fazer o que ama, mas passou a conviver com limites impostos pela dor. “Eu amo cozinhar”, diz. Ainda assim, tarefas simples nem sempre são possíveis. “Bater uma nata, por exemplo. Às vezes eu começo e preciso parar no meio, porque a dor vem.”
Diante disso, ela vive hoje um momento de transição. Sem abandonar a cozinha, Marília começa a reorganizar sua vida profissional e busca outras formas de expressão que exijam menos esforço físico contínuo. “Eu quero voltar a pintar. Sempre gostei de arte. Pintar é algo mais leve para mim: sentar, segurar um pincel.” Aos poucos, ela monta um ateliê em casa. “Minha vida está nessa transição. Tentando organizar a saúde, reorganizar a rotina”, diz.
O impacto do tratamento na rotina e na qualidade de vida de Marília Ierke
Entre todos os efeitos do tratamento, o sono segue sendo o mais simbólico. “É o maior ganho.” Para alguém com TDAH e hiperatividade, desacelerar nunca foi simples. O CBD diminuiu a frequência dessa correria interna. Eu fico mais calma durante o dia, é outra vida.”
Quando o tema da Cannabis medicinal surgiu pela primeira vez, não houve estranhamento. “Eu fui atrás disso. Eu já tinha tentado tudo o que era possível. Quando nada funciona, você precisa tentar algo novo.” O apoio dos amigos também foi decisivo. “Muitos já usavam o óleo, conheciam pessoas que tomavam. Eu pensei: nessa condição, eu aceito qualquer coisa que me ajude a melhorar.”
Marília não esconde a dureza de conviver com a dor crônica — nem os pensamentos que ela pode provocar. “Viver com dor todos os dias é exaustivo. Tem momentos em que a vontade de morrer aparece. Qualquer coisa que tire essa vontade já vale a pena.”
Há também o peso do julgamento externo. “As pessoas não entendem. Se você está bem vestida, arrumada, ninguém acredita.” Em espaços públicos, a dor às vezes escapa no rosto. “Já aconteceu de pessoas virem perguntar o que eu tenho, se eu estou bem. Eu não quero chamar atenção para a minha dor. Eu quero que ela desapareça. Que nem eu nem ninguém veja.”
Hoje, Marília não fala em cura. Fala em qualidade de vida. Em esperança concreta. “Só de conseguir dormir bem, de comer melhor, de ter um pouco de paz no corpo, já mudou tudo.” A dor ainda existe — mas, pela primeira vez, ela não é mais a única protagonista da história.
Importante!
A trajetória de Marília Ierke evidencia como o diagnóstico correto e o acompanhamento clínico contínuo são determinantes no cuidado de pessoas que convivem com dor crônica e múltiplas condições associadas, como a fibromialgia, o autismo e o TDAH. No seu caso, o uso da Cannabis medicinal não aparece como solução isolada, mas como parte de um processo de reorganização da saúde, guiado por avaliação médica, escuta qualificada e ajustes ao longo do tempo.
Mais do que a redução de sintomas específicos, o tratamento se insere em um contexto mais amplo de cuidado, que considera o impacto da dor no sono, na alimentação, na rotina e na vida profissional. A experiência de Marília mostra que a Cannabis pode contribuir para ganhos concretos de qualidade de vida quando integrada a um acompanhamento atento, respeitando os limites do corpo e as particularidades de cada paciente.
Como revela seu relato, o cuidado não é linear nem definitivo. Ele se constrói de forma contínua, a partir de decisões compartilhadas, revisões constantes e da compreensão de que viver melhor nem sempre significa eliminar a dor, mas aprender a lidar com ela de maneira mais digna, segura e possível.
Se você quer entender melhor se a Cannabis pode ser uma aliada também para sua saúde, clique aqui e marque uma consulta!













