Por mais de duas décadas, Anamalia Thorstenberg Ribas construiu sua clínica a partir da escuta. Psicóloga e psicanalista, formada há 25 anos, hoje com 50, ela atende semanalmente cerca de 20 a 25 pacientes, conduz grupos terapêuticos, realiza perícias judiciais eventuais e mantém atuação em projetos sociais no município onde vive. A rotina é intensa, cuidadosamente organizada — e atravessada por uma condição neurológica que acompanha sua história há anos: a epilepsia.
O diagnóstico nunca foi simples. Nos laudos mais recentes, o termo que aparece é “epilepsia refratária” — quando as crises não respondem adequadamente aos medicamentos — ou “atípica”, usada para quadros que fogem dos padrões clássicos da doença.
O que se sabe até agora é que há um foco identificado no hemisfério esquerdo do cérebro, mas o comportamento das crises foge aos padrões mais previsíveis. A investigação clínica segue em curso, com exames frequentes e acompanhamento neurológico contínuo.
Durante anos, o controle das crises se deu exclusivamente por meio de medicamentos alopáticos. Em determinados períodos, os resultados eram consistentes: Anamalia chegou a passar dois, até três anos sem convulsões. Mas esse controle tinha um custo. As doses precisavam ser constantemente aumentadas, o que tornava o tratamento cada vez mais pesado para o organismo.
Quando a Cannabis passa a integrar (e não substituir) o cuidado
Foi durante a pandemia que uma mudança começou a se desenhar.
Com o isolamento e as transformações impostas pela crise sanitária, Anamalia trocou de medicação e, pouco depois, passou a considerar a Cannabis medicinal como recurso terapêutico complementar. O início não foi simples. “Comecei com um médico que queria me dar uma dose muito alta, e eu não consegui sustentar, nem financeiramente”, relembra. O caminho até encontrar uma prescrição adequada foi feito de ajustes sucessivos, trocas de profissionais e muito cuidado.
A Cannabis entrou no tratamento de forma associada — nunca substitutiva — aos anticonvulsivantes. Os medicamentos tradicionais precisaram ser mantidos. Ao longo de quatro anos, o efeito do óleo variou: houve períodos de estabilidade importante e outros de oscilação. No ano passado, por exemplo, Anamalia teve, em média, duas convulsões por mês, quase sempre mantendo um padrão relativamente regular. Já no início deste ano, esse desenho começou a se modificar. “Está saindo desse padrão. Começa a diminuir, a estabilizar”, observa.
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As crises, segundo ela, têm relação direta com estresse, excesso de atividades, mudanças bruscas de ambiente e preocupações intensas. A alimentação também entrou no radar das investigações mais recentes. Não se trata, portanto, de uma leitura simplista de causa e efeito, mas de um sistema sensível, multifatorial — algo que a psicanalista reconhece tanto do ponto de vista clínico quanto subjetivo.
Entre o sintoma e o sujeito: efeitos que vão além da epilepsia
Se o impacto da Cannabis sobre as crises ainda oscila, outros efeitos foram percebidos de forma mais clara ao longo do tempo. O sono é um deles. “Sempre foi uma luta na minha vida”, afirma. Anamalia conviveu durante muitos anos com dificuldades importantes para dormir e recorreu a diferentes fitoterápicos. Com o uso do óleo, o sono passou a se organizar melhor — não de forma abrupta, mas progressiva.
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A melhora no descanso noturno trouxe desdobramentos durante o dia. Mais energia, mais foco, melhor concentração, maior capacidade de absorção de informações.
“Ele [o óleo] melhora todo um panorama no funcionamento integral”, descreve. Para ela, a sensação é de que a Cannabis atua como um regulador do sujeito como um todo — não apenas sobre a epilepsia. “É como se organizasse o sujeito inteiro, não só o sintoma.”
Uma distinção necessária
Essa leitura não surge apenas da experiência pessoal, mas também da escuta clínica acumulada ao longo de anos de consultório. E aqui, Anamalia faz questão de traçar uma distinção cuidadosa — e crítica — entre o uso medicinal e o uso recreativo indiscriminado, especialmente aquele iniciado de forma precoce.
Antes mesmo de aprofundar-se nos estudos sobre Cannabis, ela já havia observado padrões recorrentes em alguns pacientes: homens, em determinada faixa etária, com muitas ideias, projetos grandiosos, mas enorme dificuldade de execução, vínculos instáveis, desorganização financeira e emocional. Muitos faziam uso intenso de Cannabis desde a adolescência. Posteriormente, ao acessar pesquisas sobre o tema, passou a costurar essas observações clínicas com dados científicos.

“Eu percebia sujeitos muito ensimesmados, muito egocentrados emocionalmente”, relata. Para Anamalia, o problema não está na substância em si, mas no uso excessivo, precoce e sem critério, especialmente em um sistema nervoso ainda em formação. Ela observa que parte do preconceito social em torno da Cannabis foi construída nesse contexto: uso vulgarizado, produto de baixa qualidade, associações morais e estigmatização.
.Ao mesmo tempo, ela observa que faltou — e ainda falta — uma conversa madura sobre a Cannabis enquanto recurso medicinal, com dose, indicação, acompanhamento e finalidade clínica clara.
A própria experiência com a epilepsia a levou a essa compreensão menos polarizada: nem salvacionista, nem demonizadora. A Cannabis, para ela, não é solução isolada, nem panaceia. É ferramenta. E, como toda ferramenta clínica, exige contexto, critério e responsabilidade.
Importante!
A experiência de Anamalia Thorstenberg Ribas reforça que o uso da Cannabis medicinal não se sustenta fora de um contexto clínico bem conduzido. No caso de condições neurológicas complexas, como a epilepsia refratária, o acompanhamento médico é indispensável — tanto para avaliar a indicação quanto para ajustar formulações, dosagens e a convivência com outros medicamentos em uso. A prescrição médica é, inclusive, uma exigência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para a aquisição legal e segura dos produtos para qualquer condição.
Mais do que tratar um sintoma isolado, a introdução da Cannabis exige olhar para o sujeito como um todo — algo que dialoga diretamente com a experiência relatada por Anamalia. Por isso, iniciar esse tipo de tratamento implica responsabilidade, acompanhamento contínuo e decisões compartilhadas entre paciente e profissional de saúde.
O tratamento, como mostra essa trajetória, não se faz por atalhos — mas por escuta, critério e cuidado sustentado ao longo do tempo. Clique aqui e acesse nossa plataforma!













