Em alguns contextos, os medicamentos à base de Cannabis podem representar uma alternativa ou complemento terapêutico relevante, especialmente quando as abordagens convencionais não produzem os resultados esperados. Um caso clínico publicado no Journal of Cannabis Research levou essa discussão um passo além.
O relato descreve um jovem paciente com um tipo raro e agressivo de câncer que conseguiu abandonar completamente o uso de opioides após iniciar um tratamento com medicamento rico em ∆9-tetrahidrocanabinol (THC). A nova abordagem promoveu uma transformação significativa na qualidade de vida de um paciente com histórico clínico extremamente complexo.
Sarcoma de Ewing: por que a dor é tão intensa
O sarcoma de Ewing é mais comum em crianças, adolescentes e adultos jovens, afetando principalmente ossos e tecidos moles. Geralmente, esse tipo de câncer se desenvolve nos ossos longos, como fêmur, tíbia e úmero.
Esse câncer provoca dor intensa porque o tumor cresce dentro do osso, aumentando a pressão interna, causando inflamação local e, muitas vezes, comprometendo nervos próximos. Mesmo quando a doença entra em remissão, muitos sobreviventes continuam convivendo com dor crônica, o que compromete o sono, a mobilidade, a saúde mental e a autonomia.

Um caso clínico extremo e uma nova abordagem
O estudo Ewing sarcoma-related pain: potential role of medical cannabis monotherapy in symptom management – a case report relata o caso de um homem diagnosticado com o sarcoma de Ewing na tíbia esquerda ainda na adolescência. Ele foi submetido a quimioterapia intensiva e a uma cirurgia para retirada do tumor, seguida do implante de uma prótese óssea.
Embora o paciente tenha entrado em remissão completa do câncer, os anos seguintes foram marcados por uma sequência de complicações, incluindo infecções recorrentes na prótese, cirurgias, fístulas abertas e inflamação crônica persistente.
Para tentar controlar a dor, ele passou a utilizar doses muito elevadas de opioides (cerca de 120 mg de morfina por dia). O alívio, no entanto, era limitado. Além disso, efeitos colaterais, como sedação, náuseas, fadiga e prejuízo cognitivo, impediam o paciente de manter uma vida funcional.
Após mais de uma década convivendo com dor refratária e o uso contínuo de opioides, o paciente chegou a receber a recomendação médica de amputação da perna como alternativa terapêutica. Diante desse cenário extremo, ele iniciou acompanhamento em uma clínica especializada em dor e cuidados paliativos na Itália, onde passou a utilizar medicamentos à base de Cannabis sob supervisão médica.
A inclusão da Cannabis e a redução dos opioides
O medicamento utilizado era rico em THC, com pequenas quantidades de canabidiol (CBD). O tratamento começou com uma dose baixa, ajustada de forma gradual ao longo de três semanas, até atingir a dose considerada ideal.
Os benefícios surgiram logo nas primeiras semanas. A intensidade da dor caiu de níveis extremos (entre 9-10 em uma escala de 0 a 10) para 2-3, um patamar considerado como dor leve. Em cerca de quatro semanas, o paciente conseguiu suspender totalmente o uso de opioides, sem apresentar sintomas de abstinência.
Ao longo de nove meses de acompanhamento, a dor permaneceu controlada apenas com os medicamentos à base de Cannabis. O paciente voltou a dormir melhor, recuperou o apetite, retomou atividades sociais e acadêmicas e passou a caminhar com mais autonomia.
Benefícios além da analgesia
Um dos achados mais relevantes do estudo de caso foi que a melhora clínica do paciente não se limitou ao controle da dor. Com o uso contínuo dos canabinoides, os médicos observaram a redução de marcadores inflamatórios no sangue e o fechamento completo de uma fístula crônica associada à infecção recorrente da prótese.
Os autores levantaram a hipótese de um efeito pleiotrópico dos canabinoides, ou seja, a capacidade dessas substâncias de atuarem em múltiplos sistemas do organismo simultaneamente. De acordo com o artigo, compostos como THC e CBD podem influenciar não apenas a percepção da dor, mas também processos inflamatórios e imunológicos, por meio da ativação de diferentes receptores e vias celulares.
O relato desse paciente com sarcoma de Ewing não propõe mudanças nas diretrizes médicas nem a substituição de tratamentos consolidados, mas apresenta uma alternativa possível para pacientes que não respondem às abordagens convencionais e passam a considerar medidas extremas.
Uso seguro de medicamentos à base de Cannabis
No Brasil, o uso de medicamentos à base de Cannabis é autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), desde que haja prescrição médica e acompanhamento profissional. Produtos ricos em THC, como o utilizado no relato de caso, estão disponíveis pela via da importação, seguindo as regras da RDC 660.
Então, se você ou alguém próximo deseja iniciar o uso de medicamentos à base de Cannabis, acesse a nossa plataforma de agendamento e marque uma consulta. Lá, você encontra médicos experientes nesse tipo de abordagem.
Casos como o descrito no estudo reforçam que o caminho mais responsável envolve o diálogo informado entre paciente e profissional de saúde, com decisões baseadas em evidências, contexto clínico e acompanhamento regular.













