Frida chegou à casa de Luciana Lira em 2023 carregando um histórico difícil. A pug, hoje com idade estimada entre cinco e seis anos, já havia sido usada como matriz, passado por ao menos duas famílias e sido resgatada duas vezes antes da adoção definitiva. Não há data exata de nascimento — a estimativa é 2020 — porque ela veio de um contexto de maus-tratos.
Quando foi acolhida, já apresentava problemas crônicos comuns a cães oriundos de criação inadequada: sarna demodécica (hoje controlada), otite recorrente e uma alteração ocular cuja causa nunca pôde ser determinada — pode ter sido exposição excessiva ao sol ou algum trauma anterior.
Pouco tempo depois da adoção, um atropelamento agravou ainda mais o quadro clínico.
Atropelamento, fraturas e sequelas ortopédicas: placa no quadril e pinos nas patas
O acidente aconteceu durante um passeio em uma pracinha próxima de casa. “Um senhor idoso estava dirigindo. A gente desceu da calçada e não deu tempo de puxar. Ele passou por cima dela”, relembra Luciana. O impacto resultou em fratura nas duas patas traseiras — uma delas exposta —, fratura da bacia e esmagamento dos dedos.
“Ela ficou internada uns dez dias. Passou por cirurgia. Hoje tem uma placa no quadril e dois pinos na patinha, porque trituraram todos os dedinhos”, conta Luciana.
Desde então, Frida convive com displasia coxofemoral, claudicação intermitente e desconforto articular. “Ela manca. Tem essa patinha problemática”, resume a tutora. A recuperação cirúrgica foi bem-sucedida, mas as condições crônicas que já existiam antes do atropelamento continuaram exigindo atenção constante — especialmente a otite.
Otite crônica em cães e evolução para síndrome vestibular
A otite recorrente era tratada com protocolos convencionais: loções tópicas com antibiótico, comprimidos e limpezas frequentes. O alívio, no entanto, era temporário. “Melhorava alguns dias e depois voltava pior.” Além disso, a pele sensível da pug reagia ao tratamento. “Quando eu pingava o remédio no ouvido e ela balançava a cabeça, o produto escorria e criava ferida.”
Com o tempo, um novo sinal surgiu. “Eu comecei a perceber que ela estava com a cabeça inclinada.” A infecção evoluiu para síndrome vestibular, condição que compromete o equilíbrio e provoca inclinação persistente da cabeça.

“Ela ficava com a cabecinha totalmente torta. Balançava muito. Eu sentia que tinha desconforto.” Um exame mais invasivo, com necessidade de anestesia, chegou a ser cogitado. Antes de avançar, porém, surgiu uma alternativa: a Cannabis Medicinal.
Cannabis medicinal veterinária como alternativa antes de exame invasivo
A médica-veterinária responsável pelo caso, Dra. Mariana de Paula (CRMV-SP 21.785), sugeriu testar a Cannabis medicinal antes de partir para a tomografia.
Luciana nunca havia considerado o uso em animais. “Eu já tinha ouvido falar de Cannabis medicinal para humanos, mas não para pet.” Ainda assim, decidiu tentar.
“Eu falei: vamos testar. O não a gente já tem. Se não desse certo, a gente faria o exame invasivo.” O tratamento foi iniciado com óleo de Cannabis administrado por via oral. “Eu pingo numa frutinha. Ela toma de manhã e à noite.”
A dose começou mais baixa e foi ajustada ao longo do acompanhamento. Inicialmente, eram quatro gotas duas vezes ao dia. Atualmente, Frida recebe duas gotas pela manhã e duas à noite, diariamente.
Em quanto tempo a Cannabis fez efeito na otite e na síndrome vestibular?
No caso de Frida, a resposta clínica foi rápida. “Com cinco dias eu já percebi que ela não estava mais balançando tanto a cabeça.” Em cerca de quinze dias, a melhora era visível nas fotografias enviadas à veterinária para acompanhamento.
“Eu comecei a tirar foto para a Mari [ a veterinária] ver a evolução. Com uns 15 dias já dava para perceber diferença.” Entre um mês e 45 dias, a inclinação praticamente desapareceu. “Ela já estava totalmente bem. Foi rápido.”

Hoje, após aproximadamente oito a nove meses de tratamento contínuo, Luciana estima melhora de 95%. “Ela olha totalmente reta. Inclusive está me olhando agora enquanto dou essa entrevista”, brinca.
Redução de secreção auricular e melhora na dor articular
Além da correção progressiva da inclinação da cabeça, outros ganhos se tornaram evidentes. “Eu percebi que a secreção melhorou bastante. Aquele incômodo de ter que limpar toda hora diminuiu.”
A tutora também notou impacto positivo nas sequelas ortopédicas. “Ela começou a mancar menos. Como tem a placa no quadril e essa patinha problemática, eu acho que sentia dor. Com a Cannabis, isso também melhorou.”
Embora o foco inicial fosse a otite crônica e a síndrome vestibular, a melhora no conforto articular tornou-se um benefício adicional importante.
Interrupção do tratamento: o que aconteceu sem o óleo de Cannabis
Para avaliar a necessidade real da continuidade, houve uma pausa de aproximadamente dois meses. “A gente quis observar se ela ficaria bem sem o óleo.” Os sintomas voltaram e a otite reapareceu. Foi necessário retomar tratamento tópico para limpeza antes de reiniciar a Cannabis.
“Agora já está há uns dois meses usando de novo e está tudo bem.” A experiência funcionou como confirmação da eficácia terapêutica.
Cannabis medicinal e qualidade de vida no envelhecimento canino
Frida poderá precisar, no futuro, de correção cirúrgica do quadril por conta da displasia e do envelhecimento. “Se precisar, a gente faz. Mas se eu puder amenizar e poupar esse sofrimento nela, já vale.”
Luciana acompanha os cães de perto e afirma perceber qualquer alteração comportamental ou física. “Eu vi com meus próprios olhos que melhorou muito.”

Outros cães resgatados: escoliose, cardiopatia e novas possibilidades terapêuticas
Além de Frida, Luciana cuida de outros dois cães resgatados: uma filhote com escoliose, cujo desenvolvimento da coluna pode gerar dor no futuro. Um cão idoso cardiopata, resgatado das enchentes do Rio Grande do Sul, sem histórico clínico conhecido. “A gente já está analisando a possibilidade de entrar com Cannabis para eles também.”
Luciana, que faz uso pessoal de Cannabis medicinal para insônia, reforça que a decisão para Frida foi baseada em orientação veterinária e após tentativa de tratamentos convencionais.
Ao avaliar o percurso até agora, resume: “Eu só tenho coisas boas para falar. A qualidade de vida dela melhorou muito.”
O caso de Frida não elimina a necessidade de acompanhamento contínuo nem descarta futuras intervenções cirúrgicas. Mas consolidou uma estratégia terapêutica que reduziu sintomas persistentes, estabilizou um quadro vestibular e ampliou o conforto de uma cadela que já havia enfrentado mais do que o esperado para sua idade.
Cannabis Medicinal Veterinária: segurança, regulamentação e preparo para prescrever
A trajetória de Frida ilustra um movimento que vem ganhando espaço na medicina veterinária brasileira: o uso responsável da Cannabis como ferramenta terapêutica baseada em ciência, acompanhamento clínico e diálogo transparente com os tutores. Mais do que uma alternativa pontual, trata-se de uma mudança de paradigma — uma abordagem integrativa que amplia possibilidades de cuidado sem substituir o rigor técnico ou a ética profissional.
Para quem deseja se aprofundar nesse cenário, o Portal Cannabis & Saúde disponibiliza gratuitamente o e-book “Cannabis na Medicina Veterinária”, um guia construído com base em evidências científicas, atualização regulatória e casos clínicos reais. O material conta com revisão técnica da médica-veterinária Dra. Mariana de Paula (CRMV-SP 21.785), que acompanha o caso de Frida e é referência na aplicação clínica da terapia com fitocanabinoides no país.
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Capacitação prática em Cannabis Medicinal Veterinária com embasamento científico
Para médicos-veterinários que desejam capacitação formal e aprofundamento prático, a Vigo Academy está com inscrições abertas para o Curso de Prescrição de Cannabis Medicinal para Veterinários, formação voltada à aplicação clínica com embasamento científico, segurança jurídica e compromisso com o bem-estar animal — e que conta com a Dra. Mariana de Paula entre o corpo docente.

















