Para compreender o que é Cannabis, é preciso olhar além da associação imediata com o THC.
A planta reúne substâncias com propriedades farmacológicas, compostos aromáticos, fibras resistentes, sementes nutritivas e matérias-primas aproveitadas por diferentes setores.
A classificação científica mais aceita costuma tratar a Cannabis como um gênero com elevada variabilidade interna, frequentemente organizado dentro da espécie Cannabis sativa L. e de suas subdivisões.
A separação rígida em três espécies continua sendo discutida entre botânicos e geneticistas.
Saber o que é Cannabis ajuda a interpretar essa planta como uma fonte complexa de substâncias e materiais.
O uso medicinal, recreativo ou industrial depende da parte utilizada, da cultivar, da composição e da forma de processamento. Entenda mais:
- O que é Cannabis?
- Quais são os principais componentes da Cannabis?
- Quais são os principais tipos de Cannabis?
- Qual é a diferença entre Cannabis, maconha e cânhamo?
- Cannabis medicinal: quando ela pode ser utilizada?
- Quais são as principais formas de uso da Cannabis?
- Como a Cannabis age no organismo?
- Quais são os efeitos da Cannabis?
- O que dizem as evidências científicas sobre a Cannabis medicinal?
- Quais são os riscos e efeitos adversos da Cannabis?
O que é Cannabis?

A Cannabis é uma planta pertencente à família Cannabaceae, a mesma família botânica do lúpulo.
Ela apresenta indivíduos masculinos, femininos e, em algumas condições, plantas que desenvolvem estruturas reprodutivas de ambos os sexos.
O ciclo começa com a germinação, avança pela fase vegetativa e termina com a floração e a formação das sementes.
O desenvolvimento pode ser controlado pelo fotoperíodo ou ocorrer de maneira automática em linhagens associadas à chamada Cannabis ruderalis.
As plantas femininas produzem inflorescências revestidas por tricomas glandulares.
Esses tricomas sintetizam a resina que concentra as moléculas mais procuradas para finalidades terapêuticas e psicoativas.
Os caules possuem fibras externas longas e uma parte interna mais lenhosa, conhecida como miolo ou hurd.
As sementes fornecem óleo, proteínas e fibras alimentares, enquanto as folhas e as flores carregam proporções variáveis de compostos aromáticos e canabinoides.
O gênero apresenta uma história de domesticação marcada por objetivos diferentes.
Durante séculos, agricultores selecionaram plantas altas e fibrosas para cordas e tecidos, exemplares produtores de sementes e linhagens resinosas destinadas a preparações medicinais ou psicoativas.
Essa seleção modificou a arquitetura, o tempo de floração, a quantidade de ramificações, o rendimento das fibras e a composição química.
A Cannabis moderna, portanto, reflete milhares de cruzamentos e escolhas humanas, além da adaptação aos ambientes onde foi cultivada.
A definição de o que é Cannabis também precisa considerar a planta inteira, e não somente os extratos.
As suas partes possuem composições próprias e atendem a cadeias produtivas que vão da farmacologia à construção civil.
Quais são os principais componentes da Cannabis?

A Cannabis contém uma mistura extensa de substâncias produzidas durante o metabolismo vegetal.
A composição mais conhecida inclui os fitocanabinoides, os terpenos, os flavonoides, os ácidos graxos, as proteínas, as ceras, os pigmentos e diferentes compostos fenólicos.
Cada grupo exerce uma função na própria planta.
Os pigmentos participam da fotossíntese, as ceras reduzem a perda de água, os terpenos atuam na defesa e na comunicação química, enquanto os canabinoides se acumulam principalmente na resina.
Entre os componentes com maior relevância estão:
Canabinoides
Os canabinoides são moléculas lipossolúveis produzidas principalmente nos tricomas.
Na planta fresca, muitos aparecem em formas ácidas, como THCA, CBDA e CBGA, que podem ser convertidas em THC, CBD e CBG por aquecimento, armazenamento ou processamento.
O CBGA funciona como um precursor bioquímico importante.
A partir dele, enzimas específicas formam os ácidos canabinoides que darão origem aos principais compostos neutros encontrados em óleos, extratos e preparações farmacêuticas.
O THC apresenta ação psicoativa por estimular os receptores CB1 do sistema nervoso central.
Ele também participa de formulações utilizadas em contextos como dor, espasticidade, náuseas e perda de apetite, conforme a indicação e a regulamentação aplicável.
O CBD não provoca os efeitos psicoativos característicos do THC. A molécula atua por diversos alvos, incluindo canais iônicos, receptores serotoninérgicos e mecanismos relacionados ao sistema endocanabinoide, o que sustenta o seu uso medicinal.
Outros canabinoides recebem atenção crescente:
- O CBG é estudado por possíveis ações neurológicas, antimicrobianas e inflamatórias;
- O CBC apresenta interesse em modelos de dor e inflamação;
- O THCV possui uma farmacologia diferente do THC, influenciada pela dose;
- O CBDV aparece em pesquisas relacionadas à excitabilidade neuronal;
- O CBN é formado, em parte, pela degradação oxidativa do THC.
Terpenos e flavonoides
Os terpenos são moléculas voláteis que formam grande parte do aroma da Cannabis.
Eles podem produzir notas cítricas, terrosas, florais, herbais, amadeiradas ou resinosas, dependendo da combinação presente em cada cultivar:
- O mirceno costuma apresentar um aroma terroso e frutado;
- O limoneno lembra frutas cítricas;
- O pineno possui odor semelhante ao dos pinheiros;
- Já o linalol aparece em perfumes florais próximos aos encontrados na lavanda;
- O beta-cariofileno merece atenção especial porque também interage com o receptor canabinoide CB2.
Essa propriedade aproxima o composto aromático de alguns mecanismos utilizados pelos canabinoides na modulação de respostas inflamatórias.
A literatura já descreveu mais de uma centena de terpenos e um número semelhante de terpenoides na Cannabis.
Entretanto, cada amostra contém apenas uma fração dessa diversidade, em concentrações determinadas pela genética, pelo estágio de maturação e pela conservação.
Os flavonoides são compostos fenólicos associados à pigmentação, à proteção contra a radiação ultravioleta e à defesa vegetal.
Entre eles estão as canflavinas, moléculas identificadas na Cannabis e investigadas por sua atividade biológica.
A apigenina, a luteolina, a quercetina e o kaempferol também podem aparecer na planta.
Essas substâncias são encontradas em outros vegetais e possuem características antioxidantes e anti-inflamatórias observadas em diferentes modelos experimentais.
Quais são os principais tipos de Cannabis?

A divisão entre Cannabis sativa, Cannabis indica e Cannabis ruderalis surgiu a partir de diferenças observadas na aparência, na origem geográfica e no comportamento de cultivo.
Essa classificação permanece popular, embora a botânica moderna ainda discuta se esses grupos representam espécies, subespécies ou conjuntos de variedades.
A Cannabis sativa foi historicamente associada a plantas mais altas, com folhas estreitas e ciclos longos.
A Cannabis indica ficou ligada a exemplares mais compactos, ramificados e adaptados a períodos de floração relativamente curtos.
Por essa razão, os especialistas utilizam cada vez mais o conceito de quimiovar.
Essa abordagem classifica a Cannabis pelo conteúdo de THC, CBD e outras moléculas, oferecendo uma informação mais relevante para prever a composição do produto.
Cannabis indica
A Cannabis indica foi descrita no século XVIII a partir de plantas encontradas no subcontinente indiano.
As linhagens associadas a esse grupo costumam apresentar porte mais baixo, entre nós curtos, ramificação densa e folhas relativamente largas.
A arquitetura compacta está relacionada à adaptação a determinadas regiões e aos objetivos de seleção praticados ao longo do tempo.
As plantas podem desenvolver inflorescências densas e completar a floração em períodos menores do que muitas linhagens tradicionalmente chamadas de sativa.
No mercado, o termo “indica” costuma ser associado ao relaxamento corporal, à sedação e ao uso noturno.
Essa relação não pode ser aplicada automaticamente a toda planta com esse rótulo, porque os efeitos dependem da dose, dos canabinoides e do perfil terpênico.
A Cannabis indica também não representa, por definição, uma planta medicinal ou recreativa.
Existem linhagens classificadas dessa forma que são cultivadas para extratos terapêuticos, outras selecionadas pelo teor de THC e híbridos direcionados a perfis químicos específicos.
Cannabis sativa
A Cannabis sativa foi inicialmente descrita por Carl Linnaeus e aparece com frequência na nomenclatura científica completa Cannabis sativa L.
Em sistemas taxonômicos que reconhecem uma única espécie, esse nome engloba a diversidade cultivada e silvestre do gênero.
As plantas tradicionalmente associadas à sativa apresentam maior altura, espaçamento mais longo entre os nós e folhas com folíolos estreitos.
Muitas desenvolveram ciclos extensos em regiões onde a floração poderia continuar por períodos maiores.
A seleção agrícola produziu dois caminhos importantes.
Algumas linhagens foram direcionadas à produção de fibras e sementes, enquanto outras foram cultivadas para aumentar a quantidade de resina e alterar o perfil dos canabinoides.
“Sativa” costuma indicar produtos descritos como estimulantes, criativos ou adequados ao uso diurno.
Uma planta alta e de folhas estreitas pode apresentar alto teor de THC, predominância de CBD ou uma composição intermediária.
O aspecto visual também não revela a concentração exata dos terpenos responsáveis por parte das diferenças sensoriais.
Os cruzamentos contemporâneos reduziram ainda mais a utilidade dos rótulos rígidos.
Uma cultivar vendida como sativa pode possuir uma parcela genética compartilhada com amostras classificadas como indica e apresentar características herdadas de várias populações.
As pesquisas botânicas reconhecem que o nome Cannabis sativa L. possui maior estabilidade científica.
A discussão se concentra na forma de organizar a variação interna em subespécies, variedades ou grupos domesticados.
Cannabis ruderalis
A Cannabis ruderalis está associada a populações adaptadas a regiões da Eurásia com estações de crescimento curtas.
O porte reduzido, a ramificação limitada e o início precoce da floração permitiram que essas plantas completassem o ciclo antes da chegada de condições climáticas desfavoráveis.
A característica mais conhecida é a autoflorescência.
Enquanto muitas linhagens de Cannabis iniciam a formação das flores após uma redução no período diário de luz, a ruderalis pode florescer principalmente em resposta à idade e ao desenvolvimento.
Essa adaptação possui grande interesse para os programas de melhoramento.
Os criadores cruzam linhagens ruderalis com plantas ricas em canabinoides para combinar a floração automática com maior rendimento, aroma e concentração de resina.
As populações ruderalis originais costumam apresentar menor porte e menor quantidade de THC do que as variedades selecionadas para uso psicoativo.
Os híbridos modernos, contudo, podem alcançar perfis químicos muito diferentes da planta silvestre.
A autoflorescência também permite ciclos mais curtos e reduz a dependência do controle rigoroso do fotoperíodo.
A classificação botânica permanece discutida. Alguns autores tratam a ruderalis como uma espécie separada, enquanto outros a posicionam como subespécie, variedade ou população feral de Cannabis sativa L.
Qual é a diferença entre Cannabis, maconha e cânhamo?

Cannabis é o termo botânico mais abrangente.
Ele identifica o gênero ou a espécie vegetal, conforme o sistema taxonômico utilizado, sem determinar sozinho a finalidade, o teor de THC ou a parte da planta que será aproveitada.
A palavra “maconha” possui um uso cultural e popular.
No Brasil, costuma designar principalmente as inflorescências e folhas resinosas preparadas para consumo psicoativo, geralmente provenientes de plantas selecionadas por concentrações mais elevadas de THC.
O cânhamo corresponde a variedades de Cannabis cultivadas para apresentar baixo teor de THC e fornecer fibras, sementes, óleo ou biomassa industrial.
O óleo de semente de cânhamo também precisa ser distinguido do óleo de CBD.
As sementes fornecem um óleo rico em ácidos graxos, mas não produzem quantidades expressivas de canabinoides.
O CBD é obtido principalmente da resina das flores e das folhas próximas às inflorescências.
Quando aparece em um produto oleoso, ele foi extraído da biomassa resinosa e posteriormente diluído em um óleo carreador.
Cannabis medicinal: quando ela pode ser utilizada?
A Cannabis vem sendo utilizada há milhares de anos para as mais diversas finalidades.
O potencial dessa poderosa planta é alvo de estudos mundo afora e tudo leva a crer que o que sabemos é ainda muito pouco.
A seguir, veja alguns dos usos da Cannabis e de que forma ela é consumida, tanto legal quanto ilegalmente.
Uso medicinal
O uso medicinal emprega canabinoides isolados, extratos padronizados ou formulações contendo diferentes proporções de CBD e THC.
O objetivo pode envolver a redução de crises, da rigidez muscular, da dor, da náusea ou de outros sintomas associados a doenças específicas.
Um ensaio clínico prospectivo, randomizado, duplo-cego, cruzado e controlado por placebo avaliou 57 pacientes com esclerose múltipla e espasticidade insuficientemente controlada.
As cápsulas continham extrato padronizado de Cannabis com 2,5 mg de THC e 0,9 mg de CBD por unidade.
Os participantes passaram por períodos de tratamento ativo e placebo, com aumento progressivo da dose.
Os pesquisadores analisaram frequência dos espasmos, mobilidade, tempo de caminhada, destreza manual, cognição e tolerabilidade.
Na análise por intenção de tratar, as diferenças não alcançaram significância estatística.
Entre os 37 pacientes que utilizaram pelo menos 90% da dose prevista, o extrato reduziu a frequência dos espasmos e melhorou a mobilidade, com eventos adversos predominantemente leves.
Na medicina, a Cannabis também é utilizada para aliviar dores crônicas, náuseas, crises epilépticas resistentes, ansiedade, insônia e distúrbios neurológicos, como Parkinson e esclerose múltipla.
Uso recreativo
O uso recreativo ocorre quando a Cannabis é consumida principalmente pelos seus efeitos psicoativos, sensoriais ou sociais, sem uma indicação clínica como finalidade central.
O THC costuma ocupar a posição mais importante nesse contexto.
A ativação dos receptores CB1 pode produzir euforia, relaxamento, alteração da percepção do tempo, intensificação sensorial e mudanças no apetite.
Produtos com muito THC podem causar efeitos mais intensos, enquanto a presença de CBD pode alterar alguns aspectos da experiência, embora não elimine automaticamente as alterações cognitivas provocadas pelo THC.
O uso recreativo não define uma espécie específica.
A mesma Cannabis sativa L. pode originar variedades destinadas à produção medicinal, recreativa, alimentar ou industrial, conforme a seleção genética e a composição.
A expressão “maconha recreativa” costuma se referir às flores secas ou aos seus derivados ricos em THC.
Essa categoria permanece distinta dos produtos medicinais padronizados, que são prescritos com concentração, posologia e finalidade determinadas.
Aplicação industrial
Cada parte da planta pode alimentar uma cadeia produtiva diferente.
As fibras externas do caule são resistentes e podem ser empregadas em tecidos, cordas, papel, materiais isolantes e compósitos.
A parte lenhosa interna pode integrar blocos leves, revestimentos e misturas para construção.
As sementes possuem importância alimentar. Elas fornecem óleo, proteínas, fibras, minerais e ácidos graxos poli-insaturados, além de originarem farinhas, bebidas vegetais e ingredientes para diferentes formulações.
A planta também pode ser aproveitada em:
- Biocompósitos destinados aos setores automotivo e de embalagens;
- Materiais de isolamento térmico e acústico;
- Papéis especiais e os produtos de celulose;
- Óleos para cosméticos, tintas e aplicações técnicas;
- Biomassa destinada à energia e a processos de biorrefinaria;
- Ingredientes alimentares produzidos a partir das sementes.
Uma revisão sobre o valor industrial do cânhamo analisou o aproveitamento das fibras, das sementes e de outros componentes vegetais.
Os autores identificaram aplicações em alimentos, materiais de construção, tecidos, papel, bioplásticos e produtos de maior valor agregado.
A aplicação industrial mostra a amplitude da resposta sobre o que é Cannabis.
A planta pode fornecer moléculas farmacêuticas, alimentos, fibras e materiais estruturais, conforme a cultivar e a parte processada.
Quais são as principais formas de uso da Cannabis?

Depois de compreender o que é Cannabis, é necessário observar como a via de administração altera a absorção dos canabinoides.
Um óleo ingerido, um spray oromucoso e uma formulação vaporizada podem conter proporções semelhantes de THC e CBD, porém apresentam início, intensidade e duração diferentes.
As principais formas de uso incluem:
- Os óleos e as soluções orais, que permitem ajustes graduais da quantidade administrada;
- Cápsulas, que oferecem doses previamente definidas;
- Sprays oromucosos, aplicados na parte interna da boca;
- Formulações vaporizadas, que alcançam a circulação com maior rapidez;
- Cremes, géis e produtos tópicos, destinados principalmente a uma área específica;
- Medicamentos com canabinoides isolados ou combinações farmacêuticas padronizadas.
A ingestão apresenta absorção mais lenta e variável.
A presença de alimentos, a composição da refeição, o funcionamento intestinal e o metabolismo individual podem modificar a quantidade de canabinoides que efetivamente chega ao sangue.
A via inalatória produz uma elevação mais rápida das concentrações, o que facilita a percepção do efeito e também aumenta o risco de uma resposta intensa quando a formulação contém muito THC.
A vaporização evita parte dos produtos gerados pela combustão, embora ainda exija controle rigoroso da dose e da composição.
As apresentações tópicas procuram concentrar a aplicação na pele ou nas estruturas próximas.
A capacidade de produzir um efeito sistêmico depende da formulação, pois a pele representa uma barreira importante e não permite presumir que todo creme com canabinoides alcançará tecidos profundos.
A escolha da apresentação deve considerar o objetivo clínico, a necessidade de rapidez, a duração pretendida e a sensibilidade ao THC.
Como a Cannabis age no organismo?
A Cannabis atua principalmente por meio do sistema endocanabinoide, uma rede formada por receptores, moléculas produzidas pelo próprio corpo e enzimas responsáveis pela síntese e pela degradação desses mensageiros.
Esse sistema participa da regulação da dor, do apetite, do humor, da memória, do sono e da resposta imunológica.
Os dois receptores mais conhecidos são o CB1 e o CB2. O CB1 aparece em elevada densidade no sistema nervoso central, enquanto o CB2 está associado principalmente às células imunológicas e a diferentes tecidos periféricos.
O THC age como agonista parcial desses receptores, com maior relevância sobre o CB1.
Essa ligação modifica a liberação de neurotransmissores e explica tanto os efeitos terapêuticos quanto às alterações de percepção, memória, coordenação e estado emocional observadas em determinadas doses.
O CBD possui um comportamento farmacológico mais amplo.
A sua afinidade direta pelos receptores canabinoides é baixa, mas ele interfere em canais TRPV1, receptores serotoninérgicos, enzimas metabólicas e mecanismos que regulam a disponibilidade dos endocanabinoides.
A composição do produto muda a resposta porque os canabinoides podem afetar uns aos outros durante a absorção e o metabolismo.
A ideia de que o CBD sempre neutraliza os efeitos psicoativos do THC é simplificada e não se confirma em qualquer proporção ou dose.
A ação também depende da condição do paciente.
Uma mesma fórmula pode reduzir espasmos em uma pessoa e provocar sonolência excessiva em outra, especialmente quando existem diferenças metabólicas ou associações com medicamentos de ação central.
Quais são os efeitos da Cannabis?
As formulações ricas em CBD apresentam um comportamento diferente dos produtos com predominância de THC, enquanto os extratos equilibrados ocupam uma posição intermediária.
Entre os efeitos terapêuticos procurados estão a redução da dor, o alívio da rigidez muscular, o controle de náuseas, a melhora do apetite e a diminuição de determinadas crises epilépticas.
O THC pode produzir relaxamento, analgesia, aumento da fome, redução da náusea e mudanças na percepção sensorial.
Em quantidades maiores, também pode causar euforia, alteração da noção do tempo, dificuldade de concentração ou uma experiência emocional intensa.
O CBD não provoca a intoxicação característica do THC.
Os seus efeitos estudados envolvem a modulação da excitabilidade neuronal, da ansiedade, da inflamação e de determinados mecanismos relacionados à dor.
Os terpenos e os outros constituintes vegetais podem modificar o aroma, a estabilidade e algumas propriedades do extrato.
A contribuição clínica exata dessas interações ainda depende de formulações suficientemente padronizadas para que os pesquisadores consigam distinguir o papel de cada substância.
Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e com desenho cruzado avaliou pacientes com dor neuropática resistente aos tratamentos convencionais.
Em sessões separadas, cada participante recebeu Cannabis vaporizada com baixo teor de THC, concentração intermediária ou placebo.
Os pesquisadores acompanharam a intensidade dolorosa, os efeitos psicoativos, o desempenho neuropsicológico e a tolerabilidade durante as horas seguintes.
As duas concentrações ativas reduziram a dor, e a formulação de menor potência apresentou eficácia semelhante à dose intermediária.
As alterações cognitivas foram limitadas, reversíveis e mais evidentes no intervalo inicial após a administração.
O trabalho indicou que uma exposição menor ao THC pode produzir analgesia sem exigir uma intensificação proporcional dos efeitos psicoativos.
Principais efeitos estudados da Cannabis
Os efeitos mais pesquisados da Cannabis medicinal concentram-se em condições nas quais o sistema endocanabinoide participa da modulação dos sintomas.
A quantidade de estudos, a qualidade metodológica e a consistência dos resultados variam consideravelmente entre as indicações.
A dor crônica, principalmente a neuropática, aparece entre as áreas mais investigadas.
Os canabinoides podem reduzir a transmissão dos estímulos dolorosos e a hipersensibilidade, embora os benefícios médios observados nos ensaios sejam geralmente modestos.
A espasticidade associada à esclerose múltipla apresenta resultados relevantes com formulações que combinam THC e CBD.
O desfecho mais consistente costuma ser a percepção do próprio paciente sobre a rigidez, os espasmos e a interferência desses sintomas na rotina.
Os principais efeitos avaliados pela pesquisa clínica incluem:
- Diminuição da intensidade da dor neuropática;
- Redução de espasmos e da rigidez muscular;
- Controle de náuseas e vômitos ligados à quimioterapia;
- Estimulação do apetite em situações clínicas específicas;
- Redução de crises em síndromes epilépticas com CBD purificado;
- Melhora de componentes do sono relacionados à dor ou à tensão;
- Alívio complementar de sintomas em cuidados paliativos.
Um ensaio multicêntrico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo avaliou 189 adultos com esclerose múltipla e espasticidade.
Os participantes receberam durante seis semanas um spray oromucoso padronizado com THC e CBD ou uma formulação placebo, mantendo os demais tratamentos.
O principal desfecho foi a mudança diária na escala numérica de espasticidade, preenchida pelos próprios pacientes.
A análise também examinou a proporção de pessoas que alcançou uma melhora igual ou superior a 30%.
No grupo tratado, 40% atingiram essa redução clinicamente relevante, resultado superior ao observado com placebo.
O escore médio de espasticidade também apresentou uma queda maior com a formulação canabinoide, embora parte dos participantes tenha interrompido o tratamento por eventos adversos.
A Cannabis medicinal também é pesquisada em ansiedade, transtornos do sono, doenças neurodegenerativas e sintomas gastrointestinais.
O que dizem as evidências científicas sobre a Cannabis medicinal?
A sustentação mais sólida envolve o CBD farmacêutico em determinadas epilepsias resistentes.
Também existem resultados favoráveis para os canabinoides no controle da espasticidade na esclerose múltipla, das náuseas induzidas pela quimioterapia e de alguns tipos de dor crônica.
Na dor, os estudos mostram uma melhora média pequena, que pode ser relevante para pacientes selecionados.
A resposta tende a ser mais consistente em dores neuropáticas e com produtos que contém THC, isoladamente ou em proporções próximas às do CBD.
Uma revisão sistemática viva conduzida para a Agency for Healthcare Research and Quality pesquisou cinco bases científicas até abril de 2025.
O modelo incluiu ensaios randomizados e estudos observacionais, agrupados conforme a proporção de THC e CBD, o tipo de produto e a via utilizada.
A análise reuniu 29 ensaios clínicos randomizados, com 2.579 participantes, e 15 pesquisas observacionais, com 49.453 indivíduos.
Quase metade dos ensaios envolvia dor neuropática, e a maioria acompanhou os pacientes por períodos relativamente curtos.
Os sprays orais com proporções comparáveis de THC e CBD produziram uma redução média de 0,54 ponto na escala de dor de zero a dez.
A função também melhorou discretamente, enquanto a ocorrência de tontura, sedação e náusea foi maior do que no grupo placebo.
Os produtos com predominância de THC apresentaram uma redução pequena da intensidade dolorosa.
Quais são os riscos e efeitos adversos da Cannabis?

Os riscos da Cannabis variam com a quantidade de THC, a frequência de uso, a idade, a predisposição individual e a presença de outras doenças.
Uma formulação prescrita em baixa dose possui um perfil diferente do uso frequente de produtos com alta potência e composição desconhecida.
Os efeitos adversos mais comuns incluem tontura, boca seca, sonolência, aumento do apetite, náusea e alterações da atenção.
Os produtos ricos em THC também podem provocar ansiedade, palpitações, desorientação, prejuízo da coordenação ou uma sensação desagradável de perda de controle.
O THC interfere na velocidade de reação, na manutenção da trajetória e na tomada de decisões, mesmo quando a pessoa acredita que já recuperou o funcionamento habitual.
Conclusão
A Cannabis reúne canabinoides com mecanismos e aplicações diferentes, capazes de produzir benefícios clínicos quando a composição e a dose correspondem ao problema tratado.
Para avaliar uma indicação com segurança, agende uma consulta com um profissional pela plataforma de agendamento do portal Cannabis & Saúde.