A missão brasileira à Colômbia, realizada entre 10 e 12 de novembro, encerrou com a avaliação de que o Brasil tem potencial para desenvolver uma cadeia produtiva nacional de Cannabis para fins farmacêuticos — caso avance com a regulamentação do cultivo.
Organizada pela Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi) em parceria com a ApexBrasil, a iniciativa reuniu representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Anvisa, Embrapa, Conselho Federal de Química (CFQ) e executivos do setor.
Ao longo da programação em Bogotá, os participantes acompanharam debates com autoridades regulatórias, conheceram plantas produtivas licenciadas e discutiram práticas de licenciamento, rastreabilidade, controle de qualidade e padrões para cultivo e processamento.
Visita reforça importância da produção integrada
Segundo Carolina Sellani, Head de Assuntos Estratégicos da Abiquifi e coordenadora do Grupo de Trabalho de Cannabis, a visita técnica permitiu acompanhar de perto toda a cadeia produtiva integrada — desde o cultivo das plantas matrizes até a etapa inicial de extração.
“Foi muito interessante observar, de forma prática, o cultivo regular em padrão farmacêutico, tema que debatemos no primeiro dia com as instituições. Tivemos a oportunidade de ver toda a tecnologia aplicada para assegurar o máximo controle do material vegetal que dará origem ao produto farmacêutico”, disse.
A farmacêutica visitada segue rigorosamente as exigências técnicas e regulatórias aplicadas à produção de medicamentos, incluindo certificações internacionais e sistemas de rastreabilidade. Os extratos fornecidos pela empresa passam ainda por uma etapa adicional no Brasil, onde ocorre a purificação do insumo farmacêutico ativo (IFA).
“Enquanto o cultivo não é regulamentado no Brasil, o processo começa na Colômbia, mas inclui uma fase fundamental aqui, que é a purificação do extrato. Isso já evidencia o potencial brasileiro para desenvolver uma cadeia totalmente nacional”, afirma Sellani.
Missão ocorre em momento-chave para o debate regulatório no Brasil
Carolina Sellani explica que a experiência colombiana ajuda a esclarecer os desafios e oportunidades que devem orientar a elaboração do marco regulatório brasileiro. Na fala dela, o tom reforça a complexidade e a urgência da discussão:
“Conseguimos estudar um pouco e ter um contato com a regulamentação deles para o tema do cultivo de Cannabis — tanto para uso medicinal quanto industrial. No meu trabalho, acabamos focando realmente nos temas medicinais, e a oportunidade é imensa, mas os desafios também são difíceis. A regulamentação demanda uma articulação muito grande entre os atores, tanto governamentais quanto da cadeia produtiva.”
Ela destaca a importância do momento político:
“A gente está vivendo agora um momento importante para que essa conversa aconteça. É um momento de muitas discussões, e agora temos mais uma prorrogação para fazer isso da maneira mais efetiva possível, dentro do que entendemos como controle de qualidade e segurança do processo — especialmente quando falamos de cultivo para grau farmacêutico.”
Sellani também reforça o potencial brasileiro:
“As oportunidades estão na mesa. Precisamos aproveitar esse momento, sentar com os responsáveis por cada etapa dentro de cada autarquia e fazer uma regulamentação que tenha o impacto que esperamos: permitir um cultivo no país, possibilitar a verticalização da produção desses medicamentos e gerar melhoria no custo, na logística e, principalmente, no produto final que chega ao paciente. No final do dia, é por ele que todos nós estamos trabalhando na frente medicinal.”
Colômbia como referência para o desenho do modelo brasileiro
A experiência colombiana, que já regulamenta toda a cadeia de Cannabis para fins medicinais e industriais, foi apontada como um exemplo relevante para o Brasil. Nessa linha, Daniela Bittencourt, médica veterinária e pesquisadora da Embrapa, avalia que a visita reforçou a viabilidade de uma regulamentação abrangente:
“Tivemos a oportunidade de discutir com os órgãos reguladores da Colômbia, trocar experiências e entender como eles estruturaram a regulamentação. E o que eu posso trazer como conclusão é que é possível, sim, fazer uma regulamentação para todos — para toda a Cannabis, não só para a medicinal. A Colômbia nos mostra isso. Eles têm uma regulamentação com rastreabilidade de toda a produção, da semente até o produto final, de forma segura. Com certeza o exemplo deles tem muito a contribuir para o desenvolvimento da nossa regulamentação aqui no Brasil.”
Consolidação de aprendizado para recomendações ao Brasil
A missão empresarial marca mais um passo no esforço de aproximar experiências regulatórias e construir uma base técnica para subsidiar o processo brasileiro de regulamentação do cultivo. Para a Abiquifi, o momento é de integração, diálogo e construção coletiva. A expectativa é consolidar subsídios para apoiar a regulamentação em fase de debate no país.

















