Um ensaio clínico brasileiro traz novos dados sobre o uso de compostos da Cannabis no tratamento da dor miofascial associada à disfunção temporomandibular (DTM).
Os resultados indicam melhora significativa na dor e na função da mandíbula após três meses de tratamento.
Cannabis e dor miofascial: o que o estudo investigou
O estudo, publicado na revista científica Clinics, foi um ensaio clínico prospectivo, cruzado e duplo-cego. O trabalho avaliou o uso da combinação de ∆9-tetrahidrocanabinol (THC) e canabidiol (CBD), na proporção 1:1, em 20 pacientes adultos com dor miofascial crônica associada à DTM.
Durante a pesquisa, os participantes passaram por duas fases de 90 dias: primeiro receberam placebo e, em seguida, usaram a combinação de canabinoides em gotas sob a língua.
As doses começaram em 2 mg por dia e aumentaram gradualmente até chegar a 10 mg diários.
Os pesquisadores fizeram avaliações baseadas na percepção do paciente e também em exames físicos, como:
- • Intensidade da dor pela Escala Visual Analógica (EVA);
- • Sensibilidade muscular por algometria, exame que mede a sensibilidade à pressão;
- • Abertura máxima da boca;
- • Movimentos da mandíbula;

O que os resultados mostraram
Após 90 dias de uso da formulação com THC e CBD, os pesquisadores observaram:
- • Redução estatisticamente relevante da dor, que caiu de 7,35 para 3,50 na EVA;
- • Redução de cerca de 90% na dor ao mastigar ou movimentar a mandíbula;
- • Aumento da abertura máxima da boca (de 45,9 mm para 49,9 mm);
Nenhum efeito adverso foi registrado durante o período de acompanhamento.
O que é a dor miofascial associada à DTM
A dor miofascial na DTM é um distúrbio que causa uma dor profunda nos músculos responsáveis pela mastigação.
Essa dor pode se espalhar pelo rosto e cabeça, muitas vezes limitando a abertura da boca e os movimentos da mandíbula.
É uma condição crônica e de difícil manejo. Muitos pacientes convivem por anos com dor na face, limitação para mastigar e grande impacto na qualidade de vida.
Parte deles não responde adequadamente a tratamentos convencionais, como anti-inflamatórios, relaxantes musculares e fisioterapia.
O estudo brasileiro investigou uma alternativa terapêutica com compostos da Cannabis em um área específica da odontologia: a dor orofacial.
Historicamente, essa área recebe menos atenção na literatura científica sobre canabinoides quando comparada a outras condições dolorosas.
Os benefícios foram considerados elevados, indicando impacto efeito clínico expressivo na redução da dor miofascial e na melhora funcional.
Como THC e CBD podem atuar na dor
De acordo com os autores, os efeitos observados podem estar relacionados à ação complementar entre THC e CBD.
O THC atua principalmente nos receptores CB1 do sistema endocanabinoide presentes no sistema nervoso central, reduzindo a percepção da dor. Também interage com os receptores CB2, modulando a transmissão da dor e reduzindo sinais de dor.
Já o CBD tem efeito anti-inflamatório e age diretamente nos tecidos fora do cérebro, como os músculos, onde a dor miofascial se origina.
A combinação 1:1 pode produzir um efeito sinérgico. Enquanto o THC interfere na percepção central da dor, o CBD ajuda a reduzir processos inflamatórios e a tensão muscular local. Essa dupla ação pode explicar a melhora simultânea da dor e da função mandibular observada no estudo.

Efeito dos canabinoides em casos de dor miofascial.
Limitações e oportunidades do estudo
Esse foi um estudo descrito como piloto, com amostra pequena e sem randomização.
Ainda assim, os dados oferecem uma base importante para profissionais da Odontologia que já atuam com produtos à base de Cannabis.
O trabalho descreveu:
- • Benefícios da combinação entre os canabinoides CBD e THC na proporção 1:1;
- • Dose inicial de 2 mg/dia, com progressão até 10 mg/dia;
- • Uso da via de administração sublingual;
- • Tempo de tratamento de 90 dias.
Essas informações podem servir como base para futuras pesquisas. Além disso, pode apoiar discussões clínicas em casos de pacientes com dor miofascial crônica que não respondem a outras abordagens.
Próximos passos
Os próprios autores recomendam a realização de ensaios clínicos maiores, randomizados e com metodologia robusta para confirmar os achados.
A replicação dos resultados em amostras mais representativas, com período adequado de washout (período sem uso da substância entre fases do estudo) e desfechos padronizados.
Novas análises serão essenciais para que a combinação THC:CBD na proporção 1:1 possa ser considerada uma opção terapêutica consolidada para pessoas com dor miofascial associada à DTM.
O uso de medicamentos à base de Cannabis no Brasil
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso de medicamentos à base de Cannabis mediante receita médica. Profissionais da Odontologia também têm essa autorização dentro das suas áreas de atuação.
Portanto, pessoas interessadas nos benefícios dos canabinoides para dor miofascial ou outras condições devem buscar orientação especializada.
Na plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com profissionais experientes nesse tipo de abordagem.