Sete de maio é o Dia Internacional da Luta Contra a Endometriose, uma data para reconhecer a trajetória de pessoas que viveram com dores muitas vezes ignoradas, diagnósticos tardios e tratamentos que nem sempre trazem o alívio esperado.
Aproveitamos esse marco no calendário para apresentar o que a ciência tem investigado sobre o papel dos medicamentos à base de Cannabis no tratamento da condição.
O que é a endometriose e por que ela dói tanto
A endometriose é uma condição crônica em que tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora dele, em locais como ovários, trompas de falópio e o peritônio.
Esse tecido responde às variações hormonais do ciclo menstrual, o que pode gerar inflamação e dor intensa.
A endometriose é hoje reconhecida como um desafio de saúde pública global. Afeta cerca de 190 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
No Brasil, as estimativas do Ministério da Saúde apontam que a doença atinge entre 7 e 8 milhões de pessoas.
Apesar de ser tão prevalente, o diagnóstico ainda demora. Em média, leva de 7 a 10 anos para ser confirmado.
Os sintomas vão além da dor física. Também afetam o sono, a saúde mental, a qualidade de vida e podem impactar a fertilidade.

Os tratamentos para endometriose hoje em dia
Existem terapias consolidadas para a endometriose, com analgésicos, anti-inflamatórios e hormonioterapia. Esses recursos são a primeira linha de tratamento e, para muitas pacientes, trazem alívio significativo. Por outro lado, uma parcela segue com dor mesmo após o tratamento convencional.
Nesse contexto, cresce o interesse pelos compostos da Cannabis como complemento às abordagens convencionais, potencializando os benefícios terapêuticos.
O sistema endocanabinoide e a endometriose
O interesse científico pela Cannabis no tratamento da endometriose acontece porque existem receptores do sistema endocanabinoide no aparelho reprodutor feminino. Esse sistema é uma rede de receptores, enzimas e moléculas sinalizadoras presente em quase todo o corpo. Ele ajuda a regular funções como dor, inflamação, humor e resposta imunológica.
Os dois receptores principais desse sistema (CB1 e CB2) estão presentes nos ovários, no endométrio e em outros órgãos reprodutores. Nesses locais, eles ajudam no controle da dor e na regulação da resposta imunológica.
Os compostos da planta podem interagir com esse sistema, ajudando na regulação de processos fisiológicos que estão desregulados em pessoas com endometriose.
CBD e THC: como atuam no corpo
De acordo com um estudo da Universidade de Edimburgo, a interação dos compostos da planta com o sistema endocanabinoide pode gerar efeitos terapêuticos importantes nesses pacientes. Os principais canabinoides, canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC), atuam de formas diferentes, mas complementares:
- • CBD: tem ação analgésica, anti-inflamatória e antioxidante. Também pode impedir a formação de novos vasos sanguíneos que alimentam as lesões.
- • THC: reduz a percepção da dor, inibe substâncias pró-inflamatórias e ajuda a relaxar espasmos uterinos e intestinais.
O que dizem as pacientes
Um estudo publicado na revista Reproduction & Fertility entrevistou mais de 800 pacientes com endometriose em mais de 10 países. A pesquisa observou que os medicamentos à base de Cannabis estão se tornando uma opção cada vez mais buscada.
Os principais motivos:
- • Dor persistente mesmo com tratamentos convencionais (68%)
- • Efeitos colaterais difíceis de tolerar (56%)
- • Desejo de evitar opioides (43%)
De acordo com as participantes, os sintomas mais aliviados foram:
- • Cólicas (82%)
- • Fadiga (68%)
- • Dor nas relações sexuais (61%)
- • Problemas digestivos e náuseas (57%)
Os resultados também indicaram maior eficácia com a combinação de CBD e THC, em comparação ao uso isolado.
Resultados na prática clínica
Um acompanhamento de longo prazo realizado no Reino Unido analisou dados de mais de 60 pacientes com endometriose e dor crônica associada. Elas foram tratadas com medicamentos à base de Cannabis por 18 meses, com acompanhamento de uma equipe multidisciplinar.
Os resultados mostraram redução significativa em quase todas as escalas de dor avaliadas, especialmente nos primeiros meses. Os efeitos colaterais foram, em geral, leves a moderados, incluindo fadiga, sonolência e boca seca.
Caminhos possíveis para o cuidado
O Dia Internacional da Luta Contra a Endometriose busca dar visibilidade à condição e às possibilidades de tratamento. Com o acompanhamento adequado, é possível viver com bem-estar e menos dor.
Se você está considerando incluir medicamentos à base de Cannabis no tratamento, a orientação profissional é essencial. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autoriza o uso desses medicamentos com prescrição médica.
Por meio da plataforma de agendamento do Cannabis & Saúde, é possível marcar uma consulta presencial ou por telemedicina com profissionais experientes nesse tipo de terapia.
