“Medicamentos tradicionais tratam sintomas, a Cannabis cuida do organismo”, diz psiquiatra

A doutora Cíntia Pimentel Sayd não se considera especialista em nada. Com mais 25 anos de carreira, a maior parte dedicada à psiquiatria infantil, já acumulou experiência o suficiente para saber que o aprendizado é constante. “Esse negócio de dizer que sou especialista em alguma coisa nem me sinto muito confortável, pois estou aprendendo o tempo todo”, conta.

Ao longo de sua carreira, cuidou de muitas crianças e adolescentes diagnosticados dentro do espectro autista, mas ficava incomodada com as opções de medicamentos que tinha à disposição. “Eu me preocupo muito quando tenho que medicar uma criança. Principalmente as pequenas”, afirma. 

“Remédios que temos hoje disponíveis, que teoricamente são os indicados, como aripiprazol e a risperidona, trazem preocupação com o futuro. Existem efeitos colaterais indesejáveis que podem promover mudanças no metabolismo da criança. Alterações hormonais, ganho de peso. Interfere às vezes na atenção da criança, se promover muita sedação.”

Tratamento de autismo com Cannabis

Sempre atenta a tudo que pudesse melhorar a qualidade de vida de seus pacientes, em 2014 conheceu uma novidade animadora. A liberação pela Anvisa de medicamentos derivados na Cannabis no Brasil fez com que o tema surgisse de forma cada vez mais constante nos congressos de medicina que participava.

“O autismo não tem tratamento. A gente faz uso de medicação para melhorar os sintomas, não cuida do organismo. Quando se falou da possibilidade de um tratamento com a Cannabis, fiquei muito animada”, lembra a psiquiatra.

A doutora Cíntia começou a se interessar cada vez mais pelo tema, até que em 2017 se sentiu segura para começar a prescrever. No entanto, suas primeiras experiências não foram boas. O conhecimento clínico da Cannabis medicinal no tratamento de autismo ainda engatinhava, e percebeu que precisava aprender mais.

Passou a estudar sobre áreas que tradicionalmente não são relacionadas à psiquiatria, como suplementação nutricional e vitamina D. Seu objetivo era encontrar formas de tratar o organismo do paciente como um todo. Não só sintomas. Mas garantir coisas básicas, como uma boa nutrição, que são fundamentais para o desenvolvimento das crianças, principalmente com algum transtorno neuropsiquiátrico.

Não demorou para os estudos a levarem de volta para a Cannabis. “A partir do entendimento melhor do sistema endocanabinoide, eu vi que existiam várias possibilidades em relação a essa medicina, que é diferente da convencional. Busca entender o funcionamento do organismo como um todo.”

Médica prescritora de Cannabis

Somente em 2019, após muito estudo, congressos e conversas com colegas, se sentiu confortável para voltar a prescrever a Cannabis. Desde então, coleciona resultados positivos.

“Não foca só no neurotransmissor. Entende que a questão cerebral, psíquica, se correlaciona com todos os sistemas do organismo. O endocanabinoide é o que mantém todo o equilíbrio dos demais sistemas do corpo. Podemos atuar sobre ele para buscar promover o equilíbrio do organismo de forma integrada.”

“Um adolescente dentro do espectro autista que eu trato. Com quadro de tourette, tique importantes associados, ansiedade em nível bem importante, que faz que desorganize o próprio comportamento, até com rompantes de irritabilidade”, conta. “Comecei a usar o óleo, e, muito rápido, foi melhorando. Os tiques quase não se vê mais, a ansiedade melhorou bastante e até a percepção do próprio comportamento.”

“Outra criança que atendo desde pequenininho, hoje tem uns 12 anos. Ele só fazia monólogos. Não conseguia interagir na comunicação com outra pessoa e a família percebeu bem a melhora”, continua. “Um outro melhorou a seletividade alimentar. A sensibilidade sensorial foi melhorada, e começou a se abrir para experimentar outros alimentos.”
Hoje, quando põe na balança, a médica se sente mais segura ao receitar o óleo de Cannabis para crianças que os medicamentos narcolépticos convencionais.

“Cada organismo é um universo dentro de si. Minha prática é baseada nisso. Eu digo que nada é para todo mundo.  A Cannabis é uma opção de intervenção, como outras terapias de estimulo que as crianças precisam realizar”, pondera Sayd.

“Mas é um uso seguro. Se houver uma possibilidade de estimular esse organismo para ter uma melhora no desenvolvimento, será que não vale a tentativa?”

Dia de conscientização do autismo

Na próxima quinta-feira, 1, às 19h, a Dra. Cíntia Pimentel Sayd participa da nossa live especial sobre uso da Cannabis no tratamento de pacientes com autismo. É uma iniciativa do portal Cannabis & Saúde para dar visibilidade ao Dia de Conscientização do Autismo, celebrado na sexta-feira, 2. Inscreva-se aqui.

Felipe Floresti

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